Uma modesta proposta: astrologia no SUS

Passando os olhos pela ampla relação de Práticas Alternativas e Complementares (PICs) abraçadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e incluídas no II Workshop de PICs a ser realizado Centro de Práticas Esportivas da USP, o popular Cepê, deparei-me com uma curiosa omissão: a astrologia. Como um sistema integrativo que contempla ayurveda, homeopatia, medicina tradicional chinesa, antroposofia e acupuntura ignora uma das mais venerandas tradições curativas do Ocidente?

Para quem se escandaliza com a sugestão, afirmo que não existe nada -- absolutamente nada -- que se possa dizer a favor das PICs atualmente em uso que também não se possa afirmar, e com vantagem, sobre a arte da interpretação de cartas astrais e elaboração de horóscopos. Eu sei, até porque escrevi um livro sobre o assunto. Senão, vejamos:

Tradição milenar: praticamente todas as PICs são bebês recém-nascidos se comparadas à astrologia, que remonta à antiga civilização mesopotâmica. Essas foram os caras que inventaram a linguagem escrita! Como é que poderiam estar errados?

Uso estabelecido: toda a medicina da Idade Média e do Renascimento era baseada em interpretações astrológicas. A imagem que abre esta publicação, o "homem astrológico", vem de um manual medieval e aponta as constelações que afetam as diferentes partes do corpo humano. E é muito mais bem desenhado do que as cartas de meridianos chineses que a gente vê por aí.

Gênios usavam: pessoal enche a boca pra falar de Rudolph Steiner, Samuel Hahnemann ou Deepak Chopra, mas a astrologia médica foi defendida por gente como Giordano Bruno e Santo Tomás de Aquino. Nem tem comparação.

Caráter holístico: ao contrário da perversa medicina contemporânea, que vê o ser humano como uma máquina desmontável, feita de peças que podem ser manipuladas ou substituídas, a astrologia encara o homem (e a mulher, claro) como um todo indivisível e um modelo em escala do Universo -- como esta outra ilustração astrológica, representando a relação entre o macrocosmo universal e o microcosmo humano, deixa bem claro.

Energias muito, muito sutis, sutis pra caramba: ainda diferentemente da ciência reducionista e materialista do homem moderno, que busca limitar o humano ao material, a astrologia reconhece a existência de forças sutis que afetam o homem (e a mulher, claro) num plano para além da matéria. Uma força que emana de planetas e estrelas para guiar nossos destinos é, além disso, muito menos reducionista que o chi ou a bioenergia.

Publicações acadêmicas: muitos defensores de PICs como a homeopatia gostam de lembrar que existem artigos acadêmicos e dados que apoiam suas propostas. Bem, a astrologia também! A prática já foi tema de artigos na Nature (aqui e aqui) e no Journal of Social Psychology. Um dos maiores psicólogos do século 20, Hans Eysenk, também se debruçou sobre o tema. E o periódico Correlation, dedicado a publicar papers que, em sua maioria, apoiam o funcionamento da astrologia, circula há décadas no Reino Unido. A questão aqui não é a qualidade das publicações, mas o mero fato de que existem.

Pacientes satisfeitos: depoimentos de pacientes são, claro, a maior linha de defesa das PICs. Mas poucas práticas tradicionais podem apelar para um número tão grande de depoimentos de clientes satisfeitos quanto a astrologia, dos milhões de leitores de horóscopos diários da atualidade a praticamente toda a população europeia de quatrocentos a setecentos anos atrás. Se você fosse ao médico em 1300 e  saísse se sentindo melhor, é óbvio que tinha de ser por causa da perícia astrológica do doutor.

Pelo exposto acima, então, fica claro que não faz sentido manter a astrologia fora do SUS. Ou será que o que não faz sentido, mesmo, é manter as outras PICs lá dentro?

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