quinta-feira, 28 de março de 2013

Em busca do Robin Hood histórico

É semana santa e eu ia escrever algo mais temático, talvez sobre o livro Beyond the Quest for the Historical Jesusem que o monge dominicano (!) Thomas Brodie argumenta que os Evangelhos são peças de ficção, mas aí pensei: ora bolas, existem vários outros casos em que história e ficção se confundem, e alguns deles envolvem até personagens mais coloridos e interessantes.

Então, à guisa de ovo de páscoa deste blog, deixo-os excepcionalmente, neste fim de semana, na companhia do alegre bandoleiro de Sherwood.

Interpretado no cinema por atores tão diferentes como Errol Flynn, Kevin Costner e Russell Crowe; matriz mitológica que ajudou a estruturar as lendas de gente como Billy the Kid, Jesse James e, até mesmo, Che Guevara; nobre desterrado ou camponês levado ao desespero, líder rebelde ou bandoleiro -- afinal, quem foi Robin Hood?

Em seu tratado clássico sobre o tema (intitulado, exatamente, Robin Hood), o medievalista britânico Sir James C. Holt explica que praticamente tudo o que se sabe a respeito de Robin vem de um punhado de poemas medievais inter-relacionados e de fragmentos de um antiga peça de teatro. O que poderia ser chamado de "texto crítico" do poema, a Gesta de Robin Hood, deriva da combinação de duas edições, impressas entre 1492 e 1534. Outros fragmentos parecem conter adições, correções ou versões alternativas da Gesta, e é provável que todas tenham brotado a partir de um mesmo poema original, composto no fim do século 14 ou início do 15.

O autor do poema é desconhecido, mas é improvável que tenha sido ele o primeiro a escrever -- ou a cantar -- sobre Robin Hood. Um texto de 1377 contém um personagem (chamado Preguiça) que, a certa altura, confessa que "não sei meu pai-nosso (...) mas sei as rimas de Robin Hood".

Em seu trabalho de detetive-historiador, Holt determina que, já por volta de 1260, o termo "robehod" era usado em referência a bandoleiros fora-da-lei, mais ou menos como "judas" é usado em referência a traidores.

Recuando ainda mais no tempo, ele encontra um Robert Hod, declarado fugitivo da justiça -- fora-da-lei -- em 1225. Infelizmente, outros detalhes sobre sua vida, incluindo o que o teria levado ao tribunal, e o motivo da fuga, não sobreviveram nos registros. Um estudioso do século 18, Thomas Gale, anotou uma suposta inscrição da lápide de Robin Hood que dava como data da morte 1247. Holt cita ainda um historiador do século 16 que acreditava que Robin Hood havia cometido seus crimes em 1193. "Se arrumarmos esses itens cronologicamente", escreve Holt, "temos um vago esboço de biografia: Robin ativo na década de 1190, declarado fora-da-lei em 1225, morto em 1247", intervalo que "combina com os 22 anos na floresta" mencionados na Gesta.

Essa cronologia também encompassa o período geralmente considerado para os eventos da lenda; o rei Ricardo Coração de Leão morreu em 1199, e seu irmão João Sem-Terra lançou-se em  suas maquinações para assumir o poder enquanto o irmão estava fora, na Terceira Cruzada (1189-1192), a partir de 1190.

Holt nota, porém, que mesmo se o fora-da-lei Robert Hod de 1225 for de fato o originador da lenda -- o homem cujo caso fez da palavra "robehod" sinônimo de bandoleiro -- a verdade é que não sabemos nada a respeito dele, exceto que era um homem do campo, provavelmente um arrendatário trabalhando em terras da igreja. De sua suposta morte em 1247 ao surgimento das edições impressas da Gesta, duzentos anos mais tarde, o que temos são menestréis, construindo e reconstruindo a lenda para agradar ao público.

Se cantada na corte, a lenda falava de um nobre injustamente desterrado; se em meio ao povo, de um homem do povo que se levanta contra a tirania. Feitos e características de bandoleiros e rebeldes conhecidos, como Hereward o Exilado, que lutou na resistência dos saxões ao domínio normando na Inglaterra; Eustace o Monge, mercenário declarado fora-da-lei por João Sem-Terra; e Fulk fitz Warin, nobre banido pelo mesmo rei João, foram logo recrutados para enriquecer o veio de aventuras de Robin Hood.

O nome de um dos personagens associados ao bando de Robin, Frei Tuck, é citado em documentos legais
de 1417 como um bandoleiro, líder de uma quadrilha de  assaltantes e assassinos, culpado de caçar sem licença nas florestas do rei e de atear fogo às choupanas dos guardas-caça.

Em meio a isso tudo, o homem real no centro do mito simplesmente deixa de existir. A história "típica" de Robin Hood, de acordo com Holt, fala de um bandoleiro que assalta pessoas na estrada que corta sua floresta. A primeira vítima a passar é uma pessoa pobre, que está endividada, mas que põe o pouco que tem à disposição de Robin. Ele, em vez de roubá-la, dá-lhe uma refeição, o dinheiro de que precisa par apagar a dívida, e manda-a embora. Mais tarde passa, pela mesma floresta, o credor da primeira vítima. Robin assalta-o e toma, de volta, o dinheiro que dera ao devedor, mais um bom lucro. A esse núcleo acrescem-se episódios como o do concurso de arco-e-flecha; a fuga, sob disfarce, do calabouço do xerife; o amor de Lady Marian, e outros.

Teria, ao menos, esse núcleo típico alguma base em fatos reais? Difícil, talvez impossível, dizer. Para além das narrativas, Robin Hood plasmou-se também no folclore, tornando-se, por algum tempo, personagem dos Ritos de Maio, uma celebração da primavera de raízes pagãs. A associação com Lady Marian provavelmente vem dessas festas.

Para um herói muitas vezes ligado à imagem de um povo oprimido, não deixa de ser curiosa a coincidência de o "May Day" pagão ter, em boa parte do mundo, virado o Dia do Trabalho, 1º de Maio.

terça-feira, 26 de março de 2013

Direitos Humanos

O reconhecimento da dignidade inerente e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana é o fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo. 
(Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948)


Então, né. Direitos Humanos. Para que isso serve? Por que tanta briga por causa de uma comissão da Câmara dos Deputados? Não é muita frescura? Quem liga para isso? Não seria melhor cuidar, primeiro, dos "humanos direitos"?

"Humanos direitos!" Há uma arrogância implícita no uso, a sério, dessa frase que quase me faz perder o fôlego. É espantoso imaginar que tem gente que olha nos olhos do próprio reflexo no espelho e se declara, sem uma ponta de dúvida ou de ironia, um "humano direito". Mesmo? Jura? Há de ser a mesma gente que lê o Poema em Linha Reta de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e não sente a porrada no peito.

Claro, a maioria das pessoas não é formada de bandidos -- entendendo-se "bandido" como gente que rouba, mata, estupra, mete a mão no patrimônio público. Mas, ainda assim, bandidos também são pessoas, parte de nossa humanidade comum. São as ovelhas negras, talvez, mas ainda assim, partes da "família humana" de que fala a Declaração Universal.

Certa vez, vendo um grupo de homens sendo levado para o patíbulo, o futuro mártir da Igreja Anglicana John Bradford teria dito: "Ali, exceto pela Graça de Deus, vou eu". Dá para trocar "Graça de Deus" por sorte, destino, acaso, mas o princípio é o mesmo: o que separa a minha vida, ou a sua, da do homem que rouba galinhas, do homem que assalta bancos ou do que comete atrocidades inomináveis pode não ser uma virtude heroica ou uma firmeza inabalável de caráter, mas apenas uma curva que não fizemos, uma rua que não atravessamos, uma conversa que não tivemos. Soa pouco lisonjeiro, ou francamente assustador, mas nem por isso deixa de ser verdade.

Reconhecer esse fato não implica, como muitos parecem temer, que devamos perdoar tudo, implantar uma cultura de vitimização dos culpados e de impunidade irrestrita, mas apenas admitir que o melhor sistema de prevenção e de punição não é o que priva o criminoso de sua humanidade, mas o que torna menos frequentes as ruas, esquinas e conversas que levam ao crime.

Em termos de estrutura de incentivos, o mais importante é a garantia de que os benefícios do mal não ficarão disponíveis para serem desfrutados. Uma garantia assim depende muito mais da investigação correta que leva à certeza da punição justa, do que do castigo cruel e exemplar, dado a um ou outro criminoso que teve o azar de ser pego por uma força policial cronicamente incompetente.

Suponhamos, no entanto, que existam mesmo vilões contumazes, canalhas congênitos, monstros renitentes, gente que  merece, mesmo, apanhar até morrer. A questão que surge, aí, é: e quem decide?

Eu não confiaria a um júri, ou a um juiz, decidindo em público e à luz do dia, diante de meus advogados, o poder da vida e da morte sobre mim. Muito menos, portanto, a um policial solitário num beco escuro, à noite.

Os povos das Nações Unidas, em sua Carta, reafirmaram sua fé em direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana, e nos direitos iguais de homens e mulheres, e determinaram-se a promover o progresso social e melhores padrões de vida com maior liberdade.
(Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948)


A crítica "direitos humanos" versus "humanos direitos" costuma vir da direita, mas isso não quer dizer que a esquerda também não tenha seus problemas com a ideia. Em tempos recentes, tornou-se comum a queixa de que os Direitos Humanos são um instrumento imperialista e colonialista -- nos anos 90, chegou a ser criada uma Declaração dos Direitos Humanos do Islã, para contrapor-se à versão "eurocêntrica".

A ideia de que a declaração da ONU foi uma imposição de "valores ocidentais" ao mundo não passa, no entanto, de uma mentira histórica. O primeiro rascunho da declaração foi elaborado por um poeta chinês, em parceria com um filósofo libanês. Cada artigo do texto foi exaustivamente debatido pelos países-membros das Nações Unidas. Mesmo os Estados Unidos sofreram algum embaraço nos debates, por conta das leis, então em vigor, contra o casamento inter-racial. 

Participaram da comissão inicial representantes do Irã, das Filipinas, da então URSS. Um ministro paquistanês foi peça-chave na redação do artigo sobre liberdade religiosa. Quando o documento foi à votação na Assembleia Geral, não houve um único voto contrário, mas três países -- curiosamente, três tiranias -- abstiveram-se: Arábia Saudita, África do Sul e União Soviética.

A ideia de que os Direitos Humanos definidos na declaração deveriam ter aplicação universal vinha da memória, ainda fresca, dos horrores da 2ª Guerra Mundial. Um delegado paquistanês na ONU em 1948, Begum Shaista Ikramullah, disse que "era imperativo que os povos do mundo reconhecessem a existência de  um código de comportamento civilizado", válido tanto para as relações internacionais quanto para os assuntos internos dos países. Um dos objetivos da Declaração era deixar claro que nenhum governo jamais teria a prerrogativa de oprimir e de massacrar o próprio povo, a exemplo do que Hitler havia feito com os judeus alemães.

Foi a escritora indiana Hansa Methra quem definiu a redação final do Artigo I -- "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos" -- para que a expressão usada no sujeito fosse "seres humanos", não "homens". A ideia de que os direitos valem para todos, independentemente de raça, sexo ou nacionalidade, não é uma invenção, ou imposição, ocidental: de fato, a americana Eleanor Roosevelt queria "homens".

"É essencial, para que o homem não seja levado, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão, que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei".
(Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948)

E então, para quê uma comissão de Direitos Humanos numa Casa Legislativa? Qual a importância disso? Como o preâmbulo (citado acima) reconhece, para que os direitos possam ser respeitados e implementados -- há quem diga que a Declaração Universal enumera, na verdade, mais "aspirações" humanas do que realmente direitos -- é preciso que haja leis. Não necessariamente leis paternalísticas, mas uma estrutura legal que permita o livre desenvolvimento e desdobramento dos direitos fundamentais, e a conquista das aspirações implícitas neles.

Porque, assim como os axiomas da matemática, os Direitos Humanos não se esgotam em si, mas se desdobram em consequências lógicas e levam a corolários, como esta Declaração Universal dos Deveres Humanos, que inclui o dever de "reconhecer qualquer um, de qualquer lugar, como pessoa perante a lei", e o de "permitir que todos escolham livremente sua crença ou religião, e que livremente mudem de crença ou de religião". Essas consequências podem requerer elaboração sob a forma de lei, ou mesmo implicar que certas leis existentes devam ser revogadas ou reinterpretadas. 

Uma comissão parlamentar de Direitos Humanos, então, poderia ter a prerrogativa de cuidar disso -- de lutar para garantir que as leis do país se conformem a um padrão mínimo de comportamento civilizado. De aprofundar a ideia de que todos nascem iguais em dignidade e direitos, e merecem ser tratados como pessoas pela lei. 

É uma pena que os grandes partidos brasileiros tenham abandonado essa missão, preferindo searas mais lucrativas. E que, por conta disso, a comissão tenha ido parar nas mãos de gente que, pelo jeito, nem acredita de verdade no que deveria defender.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Beco do Pesadelo

Finalmente cumpri meu dever de casa cético-literário e li Nightmare Alley, um clássico do romance noir  americano que gira em torno de um mágico de circo que vira primeiro mentalista, evolui para pastor evangélico picareta e, então, falso médium, enriquecendo com as doações "espontâneas" de fiéis embasbacados. Em se tratando de um romance noir, tudo é muito sórdido, há uma mulher fatal e a coisa toda termina em tragédia, claro.

O autor, William Lindsay Gresham, era jornalista da era pulp, especializado em "true crime stories",  ou narrativas romanceadas de crimes verdadeiros. Ele depois viria a escrever um livro de não-ficção sobre os circos de aberrações norte-americanos, Monster Midway, e uma biografia de Harry Houdini. Antes de virar escritor, Gresham lutara ao lado dos republicanos na Guerra Civil espanhola, e durante alguns anos foi casado com a poeta Joy Davidman, que viria a abandoná-lo para se casar com C.S. Lewis.

Nightmare Alley é um livro importante na história do ceticismo porque expõe de modo muito didático o funcionamento da leitura fria -- ou "a frio" -- o método usado por médiuns, cartomantes, quiromantes, astrólogos e outros adivinhos para oferecer leituras de personalidade e previsões do futuro que, embora óbvias e genéricas, tendem a soar impressionantes e específicas para quem as ouve. Segundo a introdução da reedição mais recente do livro, assinada pelo jornalista Nick Tosches, foi em Nightmare Alley que a expressão "cold reading" apareceu pela primeira vez, registrada por escrito, na língua inglesa. Para o público contemporâneo, há ainda a curiosidade de ver a palavra "geek" usada em seu sentido original: um sujeito fantasiado de aborígene ou homem das cavernas que decapita galinhas vivas com os próprios dentes. Uma atração de circo de aberrações.

O protagonista do romance, Stanton Carlisle, é um tipo bastante didático: depois que abandona a mágica e se torna um líder religioso, passa a recusar-se a cobrar por seus serviços, mas "a obra, que é maior do que eu, sempre precisa de doações"; e sempre que os espíritos que invoca sugerem aos consulentes que o ajudem com bens materiais, recusa-se a aceitá-los -- de início. Também de acordo com o que costuma acontecer no mundo real, suas vítimas são seus maiores defensores: quando um jornal publica uma nota venenosa sobre como uma senhora viúva teria sido convencida a doar um imóvel para a igreja, a autora da doação responde, em tom indignado, exaltando a humildade do pastor.

Num aparente sinal do período em que a obra foi escrita (e do pedigree ideológico do autor), as únicas figuras imunes ao charme e à fala mansa de Carlisle são uma psicóloga e um operário ateu comunista.

Se há algo, na descrição que o livro faz das rotinas mentalistas-espiritualistas de seu protagonista, que parece exagerado, é a extrema elaboração: Stanton vai a extremos como usar um transmissor de rádio oculto no colete (isso, em 1946!), além de oferecer drinques drogados a consulentes. Mas efeitos como os obtidos pelo reverendo Carlisle poderiam ser produzidos de maneiras muito mais simples.

Sendo um romance noir, o livro também contém uma trama policial -- Carlisle comete pelo menos três homicídios -- além de traições, subtramas e traições duplas. Se há uma falha no romance é seu uso, pesado, do freudianismo na construção dos personagens: todos parecem atormentados, quando não moldados, por um tesão pecaminoso por algum parente do sexo oposto. Nisso, o livro lembra outro exemplar da literatura policial sórdida da época, Kiss Tomorrow Goodbye, de Horace McCoy, descrito por um crítico americano como "o livro mais torpe publicado neste país".

O título, "beco do pesadelo", vem do insight  que o protagonista tem logo no início do romance, e que o leva a buscar uma carreira no mentalismo, primeiro, e depois na religião: todas as pessoas, ele conclui, vivem num beco de pesadelo, correndo de um monstro que se aproxima, rumo a uma luz que nunca chega. Quem consegue acesso ao beco que os outros têm em suas cabeças -- descobrir de qual monstro estão fugindo, qual a luz que buscam -- e oferece um pouco de paz e de segurança, ainda que falsa, tem nas mãos o maior poder do mundo.

Uma inspiração que, mais uma vez, faz do livro uma peça de grande valor didático.