Beco do Pesadelo

Finalmente cumpri meu dever de casa cético-literário e li Nightmare Alley, um clássico do romance noir  americano que gira em torno de um mágico de circo que vira primeiro mentalista, evolui para pastor evangélico picareta e, então, falso médium, enriquecendo com as doações "espontâneas" de fiéis embasbacados. Em se tratando de um romance noir, tudo é muito sórdido, há uma mulher fatal e a coisa toda termina em tragédia, claro.

O autor, William Lindsay Gresham, era jornalista da era pulp, especializado em "true crime stories",  ou narrativas romanceadas de crimes verdadeiros. Ele depois viria a escrever um livro de não-ficção sobre os circos de aberrações norte-americanos, Monster Midway, e uma biografia de Harry Houdini. Antes de virar escritor, Gresham lutara ao lado dos republicanos na Guerra Civil espanhola, e durante alguns anos foi casado com a poeta Joy Davidman, que viria a abandoná-lo para se casar com C.S. Lewis.

Nightmare Alley é um livro importante na história do ceticismo porque expõe de modo muito didático o funcionamento da leitura fria -- ou "a frio" -- o método usado por médiuns, cartomantes, quiromantes, astrólogos e outros adivinhos para oferecer leituras de personalidade e previsões do futuro que, embora óbvias e genéricas, tendem a soar impressionantes e específicas para quem as ouve. Segundo a introdução da reedição mais recente do livro, assinada pelo jornalista Nick Tosches, foi em Nightmare Alley que a expressão "cold reading" apareceu pela primeira vez, registrada por escrito, na língua inglesa. Para o público contemporâneo, há ainda a curiosidade de ver a palavra "geek" usada em seu sentido original: um sujeito fantasiado de aborígene ou homem das cavernas que decapita galinhas vivas com os próprios dentes. Uma atração de circo de aberrações.

O protagonista do romance, Stanton Carlisle, é um tipo bastante didático: depois que abandona a mágica e se torna um líder religioso, passa a recusar-se a cobrar por seus serviços, mas "a obra, que é maior do que eu, sempre precisa de doações"; e sempre que os espíritos que invoca sugerem aos consulentes que o ajudem com bens materiais, recusa-se a aceitá-los -- de início. Também de acordo com o que costuma acontecer no mundo real, suas vítimas são seus maiores defensores: quando um jornal publica uma nota venenosa sobre como uma senhora viúva teria sido convencida a doar um imóvel para a igreja, a autora da doação responde, em tom indignado, exaltando a humildade do pastor.

Num aparente sinal do período em que a obra foi escrita (e do pedigree ideológico do autor), as únicas figuras imunes ao charme e à fala mansa de Carlisle são uma psicóloga e um operário ateu comunista.

Se há algo, na descrição que o livro faz das rotinas mentalistas-espiritualistas de seu protagonista, que parece exagerado, é a extrema elaboração: Stanton vai a extremos como usar um transmissor de rádio oculto no colete (isso, em 1946!), além de oferecer drinques drogados a consulentes. Mas efeitos como os obtidos pelo reverendo Carlisle poderiam ser produzidos de maneiras muito mais simples.

Sendo um romance noir, o livro também contém uma trama policial -- Carlisle comete pelo menos três homicídios -- além de traições, subtramas e traições duplas. Se há uma falha no romance é seu uso, pesado, do freudianismo na construção dos personagens: todos parecem atormentados, quando não moldados, por um tesão pecaminoso por algum parente do sexo oposto. Nisso, o livro lembra outro exemplar da literatura policial sórdida da época, Kiss Tomorrow Goodbye, de Horace McCoy, descrito por um crítico americano como "o livro mais torpe publicado neste país".

O título, "beco do pesadelo", vem do insight  que o protagonista tem logo no início do romance, e que o leva a buscar uma carreira no mentalismo, primeiro, e depois na religião: todas as pessoas, ele conclui, vivem num beco de pesadelo, correndo de um monstro que se aproxima, rumo a uma luz que nunca chega. Quem consegue acesso ao beco que os outros têm em suas cabeças -- descobrir de qual monstro estão fugindo, qual a luz que buscam -- e oferece um pouco de paz e de segurança, ainda que falsa, tem nas mãos o maior poder do mundo.

Uma inspiração que, mais uma vez, faz do livro uma peça de grande valor didático.

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