quinta-feira, 3 de abril de 2014

Anotando "O Rei de Amarelo"

A Editora Intrínseca apresenta, agora em abril, sua edição de O Rei de Amarelo. Lançada em 1895, essa obra é muitas vezes considerada a mais importante da literatura fantástica norte-americana a sair no período entre a morte de Edgar Allan Poe e o início da carreira de H.P. Lovecraft. O texto original em inglês já se encontra em domínio público, e o livro está saindo agora no Brasil por conta das referências a ele contidas na série de TV True Detetctive, da HBO. De fato, além da Intrínseca, já ouvi falar em pelo menos duas outras editoras que trabalham para pôr suas traduções de O Rei no mercado de língua portuguesa.

Então, alguém poderia perguntar, por que escolhi esta edição específica para destacar? Por um motivo simples: O Rei de Amarelo da Intrínseca conta com introdução, comentários e notas deste que vos escreve. De uma  madrugada correndo atrás da etimologia de "Carcosa" a consultas enciclopédicas sobre o Yellow Book londrino dos anos 1890, passando por uma análise comparativa das cinco edições do Rubaiyat publicadas na Era Vitoriana, o trabalho em si foi uma viagem e tanto -- cujo resultado os curiosos podem encontrar no próprio livro, já anunciado no website da editora e em pré-venda em algumas livrarias online.

O mais interessante de tudo, ao menos para mim, foi ver como, ao longo da pesquisa, emergia um emaranhado de influências e de diálogos entre obras literárias, onde entrelaçavam-se Poe, Baudelaire, a vanguarda decadente francesa, Ambrose Bierce e Oscar Wilde, tudo concentrando-se em Robert W. Chambers -- o autor de O Rei de Amarelo -- e, a partir daí, abrindo-se novas vertentes, onde aparecem Lovecraft, Derleth, Raymond Chandler, os pós-modernos lisérgicos da década de 70, Stephen King e, claro, True Detective.

Para quem vive, como eu, imerso no que se convencionou chamar de "literatura de gênero" -- pulp, ficção científica, terror, etc. -- foi muito interessante constatar os movimentos de fluxo e refluxo que os ditos gêneros mantêm entre si e, também, com a chamada "literatura séria".

O próprio Chambers transitava livremente entre esses campos: a maior parte de sua obra, para além de O Rei de Amarelo, é composta de romances do tipo moça-pobre-e-pura-encontra-marido-sexy-rico, mas também traz incursões por gêneros tão díspares quanto espionagem (seu romance The Slayer of Souls é uma aventura em que o Serviço Secreto americano salva a Civilização Ocidental de uma perigosa sociedade secreta do Oriente) e a ficção científica, incluindo uma série de histórias sobre a descoberta de animais fantásticos, In Search of the Unknown.

Se o trabalho de anotar Chambers me mostrou alguma coisa, foi que uma obra de literatura, se lida com atenção, dificilmente caberá no escaninho mental que preparamos para ela. "Sou enorme, contenho multidões", disse Walt Whitman. E dizem os bons livros, se tivermos a disposição e a disciplina de ouvir.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Senso comum, informação e estupro

Uma característica curiosa que certos comentaristas conservadores têm é a de reagir de modo reflexo, quase instintivo, em defesa do senso comum -- qualquer senso comum. É o tipo de gente que, no século XVII, estaria inventando desculpas para não olhar para o céu pelo telescópio de Galileu. O efeito, muitas vezes, assume a forma daquilo que os americanos chamam de knee-jerk reaction: reação emocional, impensada, comparável ao chute involuntário que toda pessoa saudável dá, inevitavelmente, quando o médico bate com o martelinho no tendão do joelho.

O knee-jerk conservador mais recente veio em resposta à pesquisa do IPEA sobre as atitudes do brasileiro diante da violência contra a mulher. Um dado do senso comum captado pelo levantamento -- o de que estupros poderiam ser evitados se a mulher "soubesse se comportar" (58% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente) -- passou a ser lamentado por feministas, estudiosos e, quase ao mesmo tempo, defendido pelos punditos da hora.

Os mais sofisticados (ou menos brucutus) buscaram traçar uma distinção entre os aspectos moral e pragmático da questão: sim, moralmente é errado estuprar uma mulher sob quaisquer circunstâncias, não importa o que ela esteja vestindo ou como se comporte, e ninguém merece ser vítima de violência, ainda mais violência sexual, PORÉM, TODAVIA, CONTUDO, pragmaticamente, é lógico, óbvio, evidente que certas roupas/atitudes atraem ou facilitam o crime. Afinal, o tarado atrás da moita não vai avançar na freirinha de hábito, mas na menina de shortinho... E o cafajeste da balada não vai seguir a moça recatada até o banheiro, mas sim a periguete que fica dando mole. Há até um meme circulando que compara a mulher que anda com pouca roupa na rua ao sujeito que ostenta Rolex. Se o relógio é tentação para o assaltante, vai o raciocínio, as pernas de fora viram a cabeça dos estupradores.

Lógico. Óbvio. Evidente. Mesmo? O fato é que existem, olha só, dados estatísticos sobre a vitimologia e também sobre os perpetradores de estupro no Brasil. Será que sustentam o modelo do "tarado atrás da moita que ataca funqueiras vadias seminuas?"

A eles: 70% das vítimas de estupro no Brasil têm menos de 17 anos. Praticamente 51% são menores de 13. Entre as meninas de até 13 anos que sofrem estupro, apenas cerca de 13% foram atacadas por desconhecidos: parentes e amigos (incluindo pais e padrastos) respondem por 89% cerca de 80% dos casos. Já na faixa adolescente, dos 14 aos 17, os desconhecidos são 38% dos estupradores, ainda bem menos da metade. A única faixa etária onde predominam os estupros por estranhos é a das mulheres adultas, maiores de 18 anos, onde 60% dos casos são atribuídos a desconhecidos. Mas as adultas compõem a menor proporção, 30%, das vítimas.

"No geral, 70%  dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa", diz o relatório (também do IPEA) que apresenta os dados. Esses dados confirmam um relatório da OMS que informa que, de longe, o principal fator de risco que torna uma uma mulher vulnerável a abuso sexual é morar com um homem. Pode até haver um ou outro maluco atrás da moita, mas o foco nele é obviamente desproporcional.

Resumindo: as brasileiras que mais risco correm de sofrer estupro são as menores de idade, e a principal fonte de perigo não é o tarado da rua ou o cafajeste do pancadão, mas amigos, namorados, maridos, pais e padrastos. Com o agravante de que, quando o estupro é cometido por um conhecido, a agressão se repete em quase 50% dos casos (quando a vítima é criança) ou em mais de 40% (quando as vítimas são adolescentes ou adultas). Outro importante fator de risco de estupro é já ter sido estuprada.

No mínimo, esses dados todos servem para desarmar a falsa analogia entre estupro e assalto. Não creio que 70% dos assaltos sejam cometidos por parentes e amigos das vítimas, mas se algum blogueiro da Veja tiver dados sugerindo o contrário, sou todo ouvidos.

Os números também depõem, de modo incisivo, contra o tal "argumento pragmático" por um comportamento mais recatado das moças: se a maior parte dos crimes de estupro é cometida por conhecidos, não parece que as roupas com que a mulher sai à rua, ou a forma como se comporta em público, sejam fatores significativos. Talvez o recato ajude a evitar um ou outro crime, mas mesmo isso é bem duvidoso.

Duvidoso porque fica faltando uma compreensão dos motivos do estuprador. Se ele é movido pela libido, talvez uma escolha "defensiva" de roupas ou atitudes possa oferecer alguma proteção, ainda que vestigial (em termos comportamentais, o relatório da OMS cita álcool e drogas como fatores de risco).

Agora, um trabalho publicado nos EUA em 1988 sugere que o estupro tem mais a ver com misoginia, e com a necessidade de se impor, de obter controle e de exercer poder, do que com desejo sexual propriamente dito. Estupros por desejo sexual costumam ser premeditados, e são mais comuns entre conhecidos e namorados, o que novamente dissipa a imagem do tarado que age por impulso ao ver um decote.

No caso específico dos estupros cometidos por estranhos -- os tais "tarados atrás da moita" -- a principal causa parece ser ressentimento misógino: "O estuprador é consumido por um ressentimento contra os outros, geralmente mulheres, que faz com que o estuprador sinta que algo deveria ser feito para puni-las. O estupro por ódio é (...) mais frequente entre estranhos", diz este artigo da Universidade da Califórnia - Santa Bárbara.

Talvez shortinhos despertem esse tipo de ódio em alguns, mas até aí, jeans, saias, burcas, a cor dos olhos, o comprimento dos cabelos e o formato do nariz podem ter o mesmo efeito, em outros. Embora estupradores tentem, em geral, empurrar a culpa para a vítima, não há nenhum dado que indique que a roupa ou qualquer outro fator objetivo, com existência real fora da imaginação do criminoso, seja relevante.