Senso comum, informação e estupro

Uma característica curiosa que certos comentaristas conservadores têm é a de reagir de modo reflexo, quase instintivo, em defesa do senso comum -- qualquer senso comum. É o tipo de gente que, no século XVII, estaria inventando desculpas para não olhar para o céu pelo telescópio de Galileu. O efeito, muitas vezes, assume a forma daquilo que os americanos chamam de knee-jerk reaction: reação emocional, impensada, comparável ao chute involuntário que toda pessoa saudável dá, inevitavelmente, quando o médico bate com o martelinho no tendão do joelho.

O knee-jerk conservador mais recente veio em resposta à pesquisa do IPEA sobre as atitudes do brasileiro diante da violência contra a mulher. Um dado do senso comum captado pelo levantamento -- o de que estupros poderiam ser evitados se a mulher "soubesse se comportar" (58% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente) -- passou a ser lamentado por feministas, estudiosos e, quase ao mesmo tempo, defendido pelos punditos da hora.

Os mais sofisticados (ou menos brucutus) buscaram traçar uma distinção entre os aspectos moral e pragmático da questão: sim, moralmente é errado estuprar uma mulher sob quaisquer circunstâncias, não importa o que ela esteja vestindo ou como se comporte, e ninguém merece ser vítima de violência, ainda mais violência sexual, PORÉM, TODAVIA, CONTUDO, pragmaticamente, é lógico, óbvio, evidente que certas roupas/atitudes atraem ou facilitam o crime. Afinal, o tarado atrás da moita não vai avançar na freirinha de hábito, mas na menina de shortinho... E o cafajeste da balada não vai seguir a moça recatada até o banheiro, mas sim a periguete que fica dando mole. Há até um meme circulando que compara a mulher que anda com pouca roupa na rua ao sujeito que ostenta Rolex. Se o relógio é tentação para o assaltante, vai o raciocínio, as pernas de fora viram a cabeça dos estupradores.

Lógico. Óbvio. Evidente. Mesmo? O fato é que existem, olha só, dados estatísticos sobre a vitimologia e também sobre os perpetradores de estupro no Brasil. Será que sustentam o modelo do "tarado atrás da moita que ataca funqueiras vadias seminuas?"

A eles: 70% das vítimas de estupro no Brasil têm menos de 17 anos. Praticamente 51% são menores de 13. Entre as meninas de até 13 anos que sofrem estupro, apenas cerca de 13% foram atacadas por desconhecidos: parentes e amigos (incluindo pais e padrastos) respondem por 89% cerca de 80% dos casos. Já na faixa adolescente, dos 14 aos 17, os desconhecidos são 38% dos estupradores, ainda bem menos da metade. A única faixa etária onde predominam os estupros por estranhos é a das mulheres adultas, maiores de 18 anos, onde 60% dos casos são atribuídos a desconhecidos. Mas as adultas compõem a menor proporção, 30%, das vítimas.

"No geral, 70%  dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa", diz o relatório (também do IPEA) que apresenta os dados. Esses dados confirmam um relatório da OMS que informa que, de longe, o principal fator de risco que torna uma uma mulher vulnerável a abuso sexual é morar com um homem. Pode até haver um ou outro maluco atrás da moita, mas o foco nele é obviamente desproporcional.

Resumindo: as brasileiras que mais risco correm de sofrer estupro são as menores de idade, e a principal fonte de perigo não é o tarado da rua ou o cafajeste do pancadão, mas amigos, namorados, maridos, pais e padrastos. Com o agravante de que, quando o estupro é cometido por um conhecido, a agressão se repete em quase 50% dos casos (quando a vítima é criança) ou em mais de 40% (quando as vítimas são adolescentes ou adultas). Outro importante fator de risco de estupro é já ter sido estuprada.

No mínimo, esses dados todos servem para desarmar a falsa analogia entre estupro e assalto. Não creio que 70% dos assaltos sejam cometidos por parentes e amigos das vítimas, mas se algum blogueiro da Veja tiver dados sugerindo o contrário, sou todo ouvidos.

Os números também depõem, de modo incisivo, contra o tal "argumento pragmático" por um comportamento mais recatado das moças: se a maior parte dos crimes de estupro é cometida por conhecidos, não parece que as roupas com que a mulher sai à rua, ou a forma como se comporta em público, sejam fatores significativos. Talvez o recato ajude a evitar um ou outro crime, mas mesmo isso é bem duvidoso.

Duvidoso porque fica faltando uma compreensão dos motivos do estuprador. Se ele é movido pela libido, talvez uma escolha "defensiva" de roupas ou atitudes possa oferecer alguma proteção, ainda que vestigial (em termos comportamentais, o relatório da OMS cita álcool e drogas como fatores de risco).

Agora, um trabalho publicado nos EUA em 1988 sugere que o estupro tem mais a ver com misoginia, e com a necessidade de se impor, de obter controle e de exercer poder, do que com desejo sexual propriamente dito. Estupros por desejo sexual costumam ser premeditados, e são mais comuns entre conhecidos e namorados, o que novamente dissipa a imagem do tarado que age por impulso ao ver um decote.

No caso específico dos estupros cometidos por estranhos -- os tais "tarados atrás da moita" -- a principal causa parece ser ressentimento misógino: "O estuprador é consumido por um ressentimento contra os outros, geralmente mulheres, que faz com que o estuprador sinta que algo deveria ser feito para puni-las. O estupro por ódio é (...) mais frequente entre estranhos", diz este artigo da Universidade da Califórnia - Santa Bárbara.

Talvez shortinhos despertem esse tipo de ódio em alguns, mas até aí, jeans, saias, burcas, a cor dos olhos, o comprimento dos cabelos e o formato do nariz podem ter o mesmo efeito, em outros. Embora estupradores tentem, em geral, empurrar a culpa para a vítima, não há nenhum dado que indique que a roupa ou qualquer outro fator objetivo, com existência real fora da imaginação do criminoso, seja relevante.

Comentários

  1. Infelizmente não lembro a referência, mas li certa vez que, ao entrevistarem diversos estupradores "atrás da moita", eles informaram que as vítimas mais visadas são as que estão com menos condição de fugir e mais fáceis de subjugar: mulheres com calças ou saias longas que impeçam a corrida, sem bolsas grandes, sombrinhas ou guarda-chuvas compridos (que podem servir de arma para atacar o agressor), cabelos longos e soltos (que podem ser agarrados na hora de subjugar a vítima), desatentas etc. Portanto, é menos provável que uma mulher de shortinho ou saia curta seja molestada na rua do que uma "recatada", segundo falas dos próprios agressores.

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    1. Um fator que parece relevante nesses "estupros de oportunidade" é a percepção de vulnerabilidade da vítima, daí a associação ao consumo de álcool ou drogas, que reduzem a capacidade de reagir.

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    2. Confere com 'instruções' que recebi sobre esse e outros temas afins. Inclusive de tentar ao máximo não ser feito de refém durante um assalto ou tentativa de estupro. Dados mostram que pessoas 'levadas' nessas situações são 'mortas' para não identificarem o agressor.

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  2. Essa parte do texto me chamou a atenção: "Entre as meninas de até 13 anos que sofrem estupro, apenas cerca de 13% foram atacadas por desconhecidos: parentes e amigos (incluindo pais e padrastos) respondem por 89% dos casos." Achei estranhos esses números. Fui eu que interpretei errado e não vi alguma interseção entre os dois grupos (o que justificaria um total maior que 100%) ou houve algum erro de digitação mesmo?

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    1. É que eu arredondei a primeira casa decimal... A proporção mais precisa de meninas atacadas por estranhos é 12,6%. Mas o número de "conhecidos" acabou exagerado em 1 ponto, mesmo com o arredondamento. Vou ajustar.

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  3. Meu caro, cheguei aqui pela divulgação da Galileo (sou assinante), e acho que vc vai ficar feliz em saber que tenho filtrado bastante o que leio na internet - não há tempo para ler tudo - e "favoritei" teu blogue agora mesmo, depois de dar uma olhadela em teus textos, repletos de referências bacanas e bons textos. Também mudei de opinião em relação ao tema, pois embora não entendesse como motivação principal, acreditava que o "visual" ajudava bastante na escolha da vítima. Mudei de idéia, meu brother, desde já amigo de infância e futura referência nos meus próprios textos. Saúde e Paz!

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  4. Como assim???
    Sua analogia é totalmente refutável. Acha mesmo que os roubos cometidos dentro de casa foram incluídos nessa pesquisa? Parentes também roubam, e sabemos que todos são atraídos por conhecerem os locais onde é escondida o bem desejável.

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    1. Caro Jonas, você menciona UM fator não considerado na pesquisa (que pesquisou, pasme!, locais e condições em que ocorrem ESTUPROS), e isso invalida a coisa toda?
      Por favor, elabore um pouco mais.
      att,

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    2. O pior cego é aquele que não quer ver ou aquele que relativiza uma pesquisa baseando-a em um único dado irrelevante?

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  5. Curiosamente, das poucas amigas mulheres que tenho, as TRÊS que sofreram abusos foram durante a infância, duas por primos e uma pelo namorado da mãe. Mais curiosamente, contanto isso para meu namorado, esse me revelou também ter sido, na infância, molestado por um "amigo" mais velho. Novamente, comentando com a minha mãe sobre esses quatro casos que eu tinha conhecimento, ela me contou que aos 10 anos de idade teve seu órgão genital tocado por um desconhecido que caminhava na rua em sua direção.
    Em suma, sempre fiquei intrigada com o fato da maioria das minhas amigas mais próximas terem sido abusadas na infância, e dentro de seus ambientes familiares. Mas parece que minha amostra pessoal reflete muito bem uma realidade mais ampla.

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  6. Aparentemente, após refletir sobre essa análise, cheguei a uma conclusão: é praticamente um problema de "saúde mental pública".
    Os argumentos do machismo não se encaixam, nem os do feminismo: esses estupros de vulneráveis, feitos por conhecidos, muitas vezes ignoram o sexo da vítima. Será que esse momento de sexualização exacerbada da sociedade, aliado a um nível educacional/cultural cada vez mais raso, não contribuem para despertar esses desvios comportamentais?

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    1. Quando se analisam as parafilias e sociopatias, é necessário ter em conta que a delimitação do que é "normal" e "doentio" é quase completamente determinado por convenções sociais vigentes; exemplo disso é o conceito de pedofilia: a maioria das nossas avós se casaram com menos de 15 anos e, quanto mais reteocedemos na história, mais cedo se casava. Khadija, esposa preferida do profeta Muhammad, tinha 9 anos quando se casou; ele passava dos 60. À época, não se tratava de crime nem de imoralidade ou doença mental. Hoje, para nossos padrões, abusar de crianças é reprovável e mórbido. O que leva pessoas a transgrediram convenções sociais é algo que estudiosos batem a cabeça para explicar. Quero deixar claro que eu não estou aqui defendendo violadores de mulheres e de crianças. Apenas estou referindo que sempre houveram casos de abusos contra pessoas tidas como "propriedade do patriarcado"; felizmente, pelo menos em termos de normas e convenções sociais, hoje se tem clareza que o abuso de pessoas é imoral e ilegal.

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    2. Já deu pra ver que você não entende NADA de feminismo quando o compara como sinônimo de machismo.

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  7. O perfil do estuprador é o mesmo em diferentes culturas?
    Percebi que muito do texto e baseado em artigos extrangeiros.
    Não é necessário se levar em conta a cultura do estuprador para se ter uma análise mais fiel? E assim se aproximar de uma solução mais adequada a nossa realidade?

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  8. Impressionante a incrível capacidade de fugir da questão, por ambas as partes. Ocorre que a pergunta tenta a avaliar a opinião, senso comum, dos entrevistados, e tanto o conservador que tenta justifica-lo quando o progressista que combate essa justificação saem completamente do ponto, visto que não se trata de avaliar se o entrevistado tem conhecimento de pesquisas científicas sobre a questão, e sim, somente, o que ele acha.

    Acontece que é perfeitamente compreensível que pense assim, mesmo que seja verdade que a roupa pouco importa no caso de uma probabilidade de estupro. E porque pensa assim? Ora, considerando que a maioria das entrevistadas são mulheres, é totalmente instintivo, uma reação natural, das mulheres, cobrir o corpo ou preferir roupas mais discretas quando se sentem ameaçadas. Basta observar.

    Se uma mulher comum sente que está senso observada de forma suspeita e passa a desconfiar de um possível ataque sexual, uma das reações mais automáticas e abotoar a blusa, esconder as pernas etc. É difícil quantificar o quão eficiente essa reação possa ser, mas ela ajuda a explicar esse senso comum. Qualquer mulher que pense que terá que passar numa situação que considere mais arriscada irá espontaneamente selecionar uma roupa mais discreta!

    Daí, descambar para a discussão se isso é ou não eficiente, se entendem ou não pesquisas que demonstram o contrário ou se é o caso ou não de misoginia ou coisa que o valha, parece muito mais um interesse improdutivo em discutir vieses ideológicos do que querer realmente compreender como o povo pensa o porque.

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    1. Toda opinião, seja ela de senso comum ou não, é política, social e culturalmente enviesada. B. F. Skinner, o cientista que desenvolveu a Análise do Comportamento, propôs que todos os comportamentos humanos são controlados por variáveis filogenéticas (da história da espécie humana), ontogenéticas (da história individual de reforçamentos respondentes e operantes de cada ser humano, em relação aos seus pares) e culturais (da história dos comportamentos verbais, ou cultura, acumulados no transcurso do desenvolvimento da sociedade humana). Discutir o viés cultural, por si só, é discutir parte das motivações dos comportamentos humanos sim, ao contrário do argumento no último comentário.Com relação à discussão cultura versus instinto, afirmar que cobrir o corpo é “instintivo” é, no mínimo, uma análise parcial, já que na história da espécie humana (que é de onde vêm os comportamentos instintivos, sendo os instintos aqueles comportamentos selecionados ao longo da história da espécie humana e transmitidos geneticamente) o que aparece como norma não é o “recato” e sim o contra-ataque: fêmeas infra-humanas tendem a atacar machos que tentam copular com elas, em vez de se cobrir para evitar a cópula forçada.Já o “recato”, o comportamento de se cobrir ante os olhares possivelmente desejosos, parece ser especialmente humano. Alguns milhares de anos de cultura patriarcal, tempo insuficiente para que um comportamento seja filogeneticamente selecionado, mas tempo suficiente para a seleção cultural, parecem ter imprimido no comportamento feminino a crença de que “a culpa pelo abuso é da abusada”; prova disso é que, após algum retreinamento, homens e mulheres pareceram capazes de se comportar diferente, sem o “instinto” de esconder o corpo quando estão sob ameaça. Desta forma, as respostas de senso comum nesta pesquisa parecem indicar o viés cultural, social e político da visão patriarcal-machista vigente nas diferentes sociedades humanas nos últimos séculos.

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