sábado, 12 de fevereiro de 2011

A evolução funciona em todas as direções

Todas as formas de vida existentes hoje na Terra são igualmente "evoluídas", no sentido de que estão adaptadas aos ambientes em que vivem e de que percorreram, ainda que por trilhas diversas, os 4 bilhões de anos que nos ligam todos, homens, tubarões, planárias e bactérias, ao ancestral comum que iniciou a marcha da biologia na Terra.

Essa constatação é talvez uma das mais difíceis de transmitir quando se fala sobre evolução. Mesmo quando uma pessoa se liberta da intuição criacionsita, é grande a chance de que permaneça ligada a uma ideia de "grande design" ou de "propósito" embutido na evolução biológica.

A confusão semântica entre "evolução" e "aperfeiçoamento" está na raiz de muitas ideologias que se veem como consequências lógicas -- quando, na verdade, não passam de filhas bastardas -- da teoria da evolução, como o darwinismo social e o socialismo científico.

A ideia de que a evolução teria um rumo ou meta -- para além do fim incidental de gerar formas cada vez mais compatíveis com o meio -- é sedutora também para os espíritos místicos. Teilhard de Chardin argumentava em defesa de um objetivo final da evolução, o "ponto ômega".

Um dos "rumos" que os defensores do caráter teleológico da evolução apontam é o da complexidade crescente: ao longo da história da vida, argumentam, as formas e os organismos foram se tornando cada vez mais complexos, com mais partes, funções, moléculas etc.

Há alguns anos entrevistei um dos maiores especialistas em evolução da atualidade, Douglas Futuyma, e perguntei-lhe a respeito.

Ele me respondeu que, se imaginarmos um gráfico da evolução da vida, com um eixo horizontal  para o tempo e outro, vertical, para a complexidade, e começarmos a marcar nele pontos correspondentes aos seres vivos que surgem ao longo da história, veremos que, logo no início, no ponto zero-zero, a vida não teria mesmo para onde ir além de cada vez mais para cima -- os únicos espaços vazios do gráfico seriam os espaços de complexidade igual ou maior que a do ser vivo original.

Até por uma questão de probabilidade, mesmo passado algum tempo ainda seria de se esperar que as novas espécies estivessem mais para o alto -- fossem mais complexas -- que as anteriores, já que o espaço disponível acima dos pontos marcados até então continuaria a ser bem maior do que o espaço abaixo.

No entanto, à medida que o tempo passa e a vida sobe na escala de complexidade, o espaço para o surgimento de formas abaixo dos pontos mais altos também cresce, e nada impede que novos seres -- menos complexos -- passem a ocupá-lo. Isso é o que, acredita-se, aconteceu com vários parasitas, que teriam perdido órgãos e funções de seus corpos, "terceirizados" para os organismos hospedeiros.

E, segundo a edição mais recente da revista Nature, foi o que ocorreu com duas espécies de vermes aquáticos, Xenoturbellida e Acoelomorpha. De acordo com pesquisadores canadenses, essas criaturas, extremamente simples, não pertencem -- como se imaginava --à base do ramo evolucionário dos animais de simetria bilateral.


De acordo com os canadenses, esses vermes -- que não são parasitas -- evoluíram a partir de ancestrais mais sofisticados.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Egito, Estado, religião e os presunçosos

Existe uma palavra da língua inglesa, "smug", que define o sujeito que fica de lado, com um sorrisinho de superioridade,  enquanto os outros ao redor fazem bobagem. Em português, os equivalentes mais próximos seriam "cheio de si", "presunçoso" ou "complacente".

"Smug" foi o termo que me veio à cabeça quando comecei a encontrar, pelas esquinas da web, textos de cristãos conservadores vangloriando-se da "tradição cristã de separação entre Estado e religião" que torna a democracia viável no Ocidente, em oposição ao que ocorre, por exemplo, no Egito.

De fato, a ideia de que o que entendemos como a moderna separação entre Estado e religião deriva de um "insight" genial de Jesus, que resultou na fala registrada no capítulo 12 de Marcos, 22 de Mateus e 20 de Lucas ("Dai a César e o que é de César e a Deus o que é de Deus") é tão prevalente quanto grosseiramente errada.

No contexto em que aparece nos Evangelhos sinópticos, a frase é mais uma evasão do que qualquer outra coisa. Fariseus estavam tentando apanhar Jesus numa pegadinha, forçando-o a comprometer-se com uma posição impopular (sancionar o pagamento de impostos a Roma) ou ilegal (defender a sonegação). Pego entre a cruz a e a caldeirinha, e ainda não totalmente preparado para a primeira, ele se saiu com a fórmula.

(Outra evasão famosa é a "Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra", no capítulo 8 de João).

Alguém poderia argumentar, no entanto, que mais importante do que a intenção original da frase é a forma como ela foi trabalhada pela tradição cristã, e que essa tradição é de separação entre Estado e religião... certo?

Não.

Desde os tempos do Império Romano o cristianismo nunca fez questão de se afastar do governo. Não constam da história os protestos cristãos em defesa da liberdade de consciência e da separação entre Estado e Igreja quando, por exemplo, o imperador Justiniano mandou fechar as escolas de filosofia de Atenas, para garantir que não houvesse alternativa intelectual à cosmovisão cristã. Ainda hoje, muitos países protestantes da Europa têm igrejas cristãs oficiais, sustentadas pelo Estado, onde padres e bispos são funcionários públicos.

Na tradição católica, o slogan sobre César e Deus comumente é visto não como uma ordem de separação, mas como uma divisão de trabalho: o povo é o rebanho, a Igreja é o pastor, o Estado são os cães pastores. O que deixa bem claro quem deve mandar em quem.

(Num exemplo de anos recentes, o bispo da cidade de Jundiaí exigiu -- e conseguiu -- que o então prefeito proibisse a distribuição de pílulas do dia seguinte na rede local de saúde pública.)

 Para que você não tenha de confiar cegamente na minha palavra, indico-lhe o Syllabus de Pio IX. Emitido pelo papa em 1864, esse embaraçoso documento lista 80 afirmações ou proposições que, segundo Sua Santidade, são fundamentalmente erradas. Entre as ideias condenadas por Pio IX (beatificado em 2000), estão as de que:

55. A Igreja deva ser separada do Estado e o Estado, da Igreja;
(...)
77. No presente não é mais razoável que a religião Católica seja mantida como a única religião do Estado, com a exclusão de todas as demais formas de adoração.

Em resumo, assim como os habitantes do mundo muçulmano estão tendo de fazer hoje, os do mundo cristão tiveram de conquistar a duras penas -- muitas vezes, com sangue e pela força -- a independência do governo em relação à religião. É parte da retórica religiosa tentar reconstruir derrotas em vitórias, perdas em concessões, castigos em favores, mas não nos deixemos enganar. O preço da liberdade continua a ser a eterna vigilância.

(Ah, sim: a imagem acima é do beato Pio IX, nosso campeão da liberdade de religião.)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Guia de sobrevivência para bruxas romenas

Talvez você tenha lido a notícia segundo a qual as bruxas da Romênia estão preocupadas com um projeto de lei que poderá mandá-las para a cadeia caso façam previsões que não venham a se cumprir (o texto do G1.com está aqui). Não sei exatamente que tipo de treinamento as místicas romenas recebem, mas elas não deveriam temer o novo projeto. Fazer previsões infalíveis é relativamente simples. Os truques são:

1. Soe confiante, mas humilde. Você deve ser firme no que diz, mas ao mesmo tempo resguardar-se com ressalvas do tipo "esse poder não funciona sempre" ou "tenho a impressão de que estou recebendo..." ou o clássico "isso faz sentido para você?" A mistura do tom de autoridade com as ressalvas faz com que o consulente se sinta culpado caso alguma parte da previsão pareça não funcionar: ele vai achar que não interpretou direito o que você disse.

2. Pesquise as estatísticas. Por exemplo, de acordo com dados de 2010 do Dieese, o tempo médio que uma pessoa em São Paulo passa desempregada, depois de ser demitida, é de oito meses. Assim, se uma pessoa recém-desempregada for lhe perguntar sobre sua perspectiva profissional, você tem boa chance de acertar se lhe disser que uma nova oportunidade surgirá "ainda neste ano, mas talvez só no segundo semestre".

3. Leia as notícias. Como está o mercado de imóveis? Os preços estão altos, o custo do aluguel deve subir. Preveja leves dificuldades financeiras. Há alguma medida governamental importante em vias de aprovação? A mudança na tabela de descontos do IR pode levar a um aumento nas restituições, o que permite prever que seu cliente, se for assalariado, receberá "um dinheiro inesperado no meio do ano".

4. Diga ao consulente que o destino não está escrito. O que você está prevendo são tendências, que o cliente pode afetar pelo uso da fé, da força de vontade, da purificação... É bom mencionar isso logo depois de fazer uma previsão negativa (de problema de saúde, por exemplo). Se a profecia falhar, o cliente ficará feliz por ter sido forte o bastante para vencer o destino!

5. Observe. Como o cliente está vestido? Qual sua postura? Sua idade aproximada? A maioria das joias que as pessoas usam no dia a dia têm algum tipo de significado (pingente com a inicial própria ou do namorado, alianças que indicam casamento ou compromisso, joias de estilo clássico ou antiquado podem ser herança ou recordação de um pai ou avô falecido, etc.)

6. Ouça. Muitas vezes, o cliente já sabe (ou tem uma boa ideia) do que vai acontecer, e procura a bruxa apenas para confirmar suas impressões. Seja amável e faça exatamente isso -- salpicando algumas ressalvas sobre as armadilhas e incertezas do destino pelo caminho, só para se garantir.

'Todo mundo é contra a liberdade de expressão'

A frase que dá título à postagem era usada por um professor de Jornalismo da ECA-USP, lá se vão bem uns 20 anos, para chocar os estudantes de primeiro ano. Ele a sustentava com uma série de exemplos escabrosos -- e se alguém escrever um artigo defendendo a volta da escravidão? e se alguém escrever que mulher que trai o marido tem mais é que levar tiro na boca? e se alguém defender o extermínio dos índios? -- até que a classe acabasse concordando que, sim, liberdade de expressão é legal, mas peraí.

Confesso que nenhum desses exemplos (e outros ainda piores) jamais foi capaz de mudar o meu xiitismo em defesa da mais plena liberdade de expressão. Sim, que se escreva em defesa da volta da escravidão; sim, que se escreva em defesa da lapidação extrajudicial das adúlteras; sim, que se argumente pelo genocídio.

Que essas ideias venham a público, que sejam expostas como as bobagens que realmente são, e que seus autores sejam reduzidos às devidas proporções, seu nanismo moral e intelectual desfraldado diante dos olhos de todos.

(Para ser totalmente honesto, reconheço duas, e apenas duas, exceções ao princípio da liberdade de expressão absoluta: a da calúnia e/ou difamação -- acusar alguém de cometer um crime ou de se comportar de forma desonrosa sem ter provas para sustentar o dito -- e a do perigo real e imediato, quando a forma e o momento da manifestação põem a vida ou a propriedade de alguém em risco. A distinção é a que existiria entre, digamos, escrever um artigo dizendo que blogueiros de ciência devem ser todos esfolados vivos -- permitido -- e, ao ver um blogueiro de ciência andando na rua, apontar para ele e gritar para a multidão: "Pega o filho da puta! Esfola!" -- proibido.)

Os argumentos a favor desse nível escandaloso de liberdade são tão antigos que já viraram chavões, mas nem por isso são menos verdadeiros: o preço do direito de dizer o que se quer é o risco de ouvir o que se não quer; liberdade de expressão que se reduz à liberdade de expressar concordância é pura hipocrisia; a luz do Sol é o melhor desinfetante; ideias ultrajantes ou extremistas que ficam restritas a grupelhos (porque seriam punidas se viessem a público) não encontram oposição vigorosa e, por isso, prosperam, desimpedidas, entre os "iniciados" -- sejam eles racistas, homófobos, neonazistas ou genocidas.

Já os argumentos contra a liberdade de expressão radical são de dois tipos, que chamo de o paternalista e o sensível. O paternalista pressupõe, basicamente, que a população é formada por idiotas incapazes de pensar por conta própria, e por isso não podemos deixar que as pessoas ouçam ou leiam certas coisas porque, bem, vai que elas levam essas merdas a sério, e aí?

Essa é a visão por trás da criminalização da "apologia do crime", de muitas iniciativas para coibir certos tipos de publicidade comercial e da ridícula tentativa do governo José Sarney de proibir a exibição do filme Stallone: Cobra no Brasil (quem ainda se lembra dessa?). Claro, a premissa de que o público é incapaz de distinguir fantasia de realidade e de exercitar discernimento traz a questão de quem, então, seria capaz (os juízes? os políticos? os sindicatos?) e de por que deixamos essa massa de imbecis votar para presidente, ora bolas.

Já o argumento sensível é o de que certos tipos de discurso podem ofender algumas pessoas ou grupos, e por isso devem ser coibidos. Esse é o raciocínio por trás das leis e propostas de lei contra injúria (chamar alguém de filho da puta, imbecil, corno, etc.) e contra ofensas de natureza racista, homofóbica e quejandos; e também está no DNA de decisões judiciais recentes que levaram à censura de livros e reportagens.

Minha resposta curta é a de que o risco de ser ofendido está implícito na vida como membro de uma sociedade livre, assim como o risco de se esborrachar no chão está implícito na compra de uma passagem de avião.

Um casal de namorados se beijando no shopping pode ofender uma senhora conservadora; a crítica da senhora conservadora pode ofender o casal. Se não formos transformar a questão numa disputa política para ver quem tem o maior lobby -- namorados ou velhinhas -- a única saída é tolerância de parte a parte.

A resposta longa é a de que declarar-se ofendido é simplesmente subjetivo demais para valer alguma coisa. Se acuso alguém de me espancar, há um exame de corpo de delito para determinar se eu realmente fui agredido. Agora, se me declaro ofendido... Como assim? O que isso significa, exatamente? O que me ofendeu foi realmente ofensivo, ou eu que estou com frescura? E se a suposta ofensa  for verdade?

E, no entanto, essa "censura por subjetividade" não só grassa no Brasil, como cada vez mais grupos dentro da sociedade buscam lançar mão dela, muitos deles mostrando-se incapazes de resistir à tentação de passar de oprimidos a opressores.

De repente o professor estava mesmo certo: por aqui, todo mundo é, no fundo, contra a liberdade de expressão.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Casamento galáctico, cortesia de Hubble e Chandra


A imagem acima é um composto de dados de raios X obtidos pelo Observatório Espacial Chandra e de luz visível captada pelo Hubble. Ela mostra o que resta da colisão de duas galáxias.

Explica a nota da Nasa: "Arp 147 contém os vestígios de uma galáxia espiral (direita) que colidiu com a galáxia elíptica à esquerda.

"A colisão produziu uma onda crescente de formação de estrelas que aparece como o anel azul contendo uma abundância de jovens estrelas de grande massa. Essas estrelas percorrem rapidamente sua evolução, e em poucos milhões de anos explodem como supernovas, deixando para trás estrelas de nêutrons e buracos negros".

Ainda de acordo com a agência espacial, os nove "rubis" (ou ametistas, já que não são intensamente vermelhos) do anel são fontes de raios X alimentadas pela energia de buracos negros, cada um com até 20 vezes a massa do Sol.

Que tal isso como anel de noivado?

Planetas, planetas à mancheia!

Óquei, então o observatório espacial Kepler da Nasa encontrou mais de 1.000 candidatos a planeta fora do sistema solar.

Esta notícia não é exatamente novidade (anda rolando por aí desde a semana passada) e também é preciso dar o devido desconto ao senso de marketing um tanto quanto megalomaníaco que parece ter se apossado da Nasa de uns tempos para cá -- eu mesmo preferi blogar apenas a respeito das descobertas no sistema Kepler 11 -- já que o milhar se refere a candidatos, e mesmo a Enciclopédia de Planetas Extrassolares ainda mantém o total de mundos descobertos em cerca de 500, mas não dá para deixar passar batido o infográfico animado abaixo:



Kepler Exoplanet Candidates from blprnt on Vimeo.

Criado por Lee Billings e Jer Thorp, ele apresenta todos os candidatos a planeta já encontrados pelo Kepler, dispondo-os como se estivessem no nosso sistema solar, o que permite comparações com a Terra, Júpiter, Marte e Vênus.

(Ah, sim: o ideal é assistir à animação em tela cheia)

Química, física e reducionismos

Estamos no Ano Internacional da Química, uma celebração da ciência da matéria e de suas transformações. Embora, do ponto de vista teórico, a química tenha sido "reduzida" à física com as descobertas sobre o elétron e a estrutura do átomo feitas no início do século passado, experimente pedir a um físico para inventar um novo processo de fermentação de cerveja -- se ele topar, tente beber o resultado por sua própria conta e risco.

A relação entre física e química (e depois, entre química e biologia, biologia e medicina, medicina e psicologia, psicologia e sociologia) é um bom exemplo da necessidade de ser bem específico quando se fala em "reduzir" uma coisa à outra. O fato é que existem vários tipos de reducionismo, e tratar todos como se fossem uma coisa só é, bem, reducionista demais.

Comecemos pelo mais filosófico de todos, o reducionismo ontológico. Esta é a ideia de que algumas coisas, em essência, no fundo, como coisas-em-si, de fato se reduzem -- realmente são, se resumem -- a outras. Eu sou um reducionista ontológico: do meu ponto de vista, tudo se reduz a matéria, e a matéria se reduz a partículas e energia. Para o reducionista ontológico materialista, tudo se reduz à física.

Essa perspectiva muitas vezes é atacada em dois terrenos, o do conhecimento (ou "epistemológico") e o moral. O epistemológico é dizer que, se tudo é matéria e toda matéria é feita de partículas, se eu conhecer o estado de todas as partículas no corpo de uma pessoa eu saberei tudo o que há para saber sobre ela. O moral é dizer que se tudo é matéria, eu sou matéria e aquela mesa é matéria, então quebrar o meu braço não é mais errado do que quebrar a perna da mesa.

Mas o reducionismo ontológico não implica reducionismo epistemológico. Não basta saber das partículas, é preciso saber da relação entre elas, e da relação entre as relações, e assim por diante. Num dado momento, a linguagem usada para falar de partículas torna-se inadequada para tratar dos fenômenos que surgem quando se atingem níveis mais complexos de interação.

Das relações emergem conceitos e fenômenos que não estavam presentes nas partículas individuais -- como umidade emerge da interação entre moléculas de água -- e novas ciências e formas de expressão tornam-se necessárias para dar conta desses fenômenos.

Quando as relações nessa nova camada de fenômenos chega a um grau de complexidade suficientemente grande, uma nova camada conceitual e de linguagem é necessária para dar conta disso, e assim por diante.

Do mesmo modo, reducionismo ontológico não implica reducionismo moral. Da mesma forma que propriedades imprevistas -- como umidade ou cor -- emergem das relações entre as partículas, assim também emergem mentes capazes de sentir e de elaborar conceitos como direito e dever.

Eu tenho mente e sinto dor, a mesa, não. Logo, quebrar meu braço é mais errado do que quebrar a perna da mesa.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Power Balance quer ser homeopatia quando crescer

O website americano do fabricante das pulseiras Power Balance -- aquelas faixas de borracha com um holograma de cartão de crédito em cima, que serviriam para "harmonizar as energias", seja lá o que isso for -- publicou uma nota dizendo que "defende seus produtos".

"Ao contrário de recentes alegações na imprensa australiana, a Power Balance não fez nenhuma alegação de que as pulseiras não funcionam. Isso é simplesmente falso", prossegue o texto, que diz que "aparentemente, algumas alegações em nossos anúncios australianos não atendiam aos padrões da ACCC", sigla do órgão de defesa do consumidor da Austrália.

Esse "aparentemente" é intrigante. Se o autor da declaração no site americano tivesse se dado ao trabalho de consultar o website australiano das pulseiras milagrosas, teria encontrado (com alguma dificuldade, é preciso reconhecer) a seguinte nota:

"Em nossa publicidade, afirmamos que as pulseiras Power Balance melhoram a força, o equilíbrio e a flexibilidade. Admitimos que não existe evidência científica digna de crédito que apóie nossas alegações, e portanto estivemos envolvidos em conduta enganosa, em violação da seção 52 da Lei de Práticas Comerciais."

Não há nada de "aparentemente" nisso. É uma admissão de culpa, clara e cristalina como água.

Mas então, como ficamos? A Power Balance diz, ao mercado americano, que funciona. A Power Balance diz, ao mercado australiano, que não há prova científica de que funcione. WTF?

A saída, claro, é o gambito homeopático: não haver prova científica não é o mesmo que não funcionar.

Certa vez, ouvi de um homeopata que exigir que suas práticas fossem comprovadas cientificamente equivalia a "imperialismo metodológico".  A nota americana da Power Balance não chega a tanto, mas menciona "filosofias holísticas e orientais". É um bom começo.

Um mês de blog: balanço

Esta encarnação do blog completou um mês ontem, dia 7. Ao todo, nesse período, ele recebeu 6.749 acessos, uma média de 225 ao dia. Meu crédito no AdSense chegou a US$ 1,15. Serei pago quando atingir US$ 100, o que sugere que não devo prender a respiração enquanto espero. Já meu crédito na Amazon.com é de US$ 0,00 (na verdade é negativo, já que encomendei algumas coisas nesse meio tempo).

A maioria dos acessos vem do Twitter e do Networkedblogs. O Scienceblogs Brasil também anda mandando gente para cá (obrigado, pessoal!), e o Google começa a me despachar leitores, embora o antigo blog no estadão.com.br ainda apareça mais no alto quando se faz uma busca pelo meu nome.

(Mas, afinal, quem faz buscas pelo meu nome? Provavelmente só eu, mesmo.)

Entrei no Google Analytics há pouco tempo, então não tenho dados comparativos de 30 dias, mas pelo que vejo estou acima  da média dos sites "de mesmo tamanho" (seja lá o que isso significa) em número de visitas e em duração média das visitas, mas abaixo em número de novos visitantes e número de páginas visitadas. Seria hora de pôr foto de mulher pelada?

A principal diferença em relação ao blog antigo é, claro, de exposição: lá eu estava à beira de 1 milhão de acessos acumulados em um ano de blogagem, algo fortemente impulsionado pela presença eventual de links para minhas postagens na home principal do jornal.

Em compensação, agora eu tenho tempo de trabalhar as postagens com mais calma e profundidade, em vez de ter de correr atrás de tabelas de locais de vacinação ou da última nota à imprensa sobre a carreira acadêmica de Geisy Arruda. Em compensação da compensação, não tenho salário além dos US$ 1,15 mantidos em custódia do AdSense.

Acho que foi Bruce Sterling que disse que, no mundo digital, se você for bom no que faz de graça, cedo ou tarde alguém resolverá pagá-lo. Um comentário cínico que ouvi a respeito foi de que o "tarde" pode acabar sendo depois que você morrer de fome.

Inanição, no entanto, ainda é um espectro muito distante. Estou me divertindo bastante com isto aqui, e com o tempo livre para ler, pesquisar e escrever coisas que realmente me interessam. Vamos ver como me saio no segundo mês...

Possessão demoníaca, exorcismo e ignorância

Talvez não exista indicador melhor do nível de ignorância de uma sociedade do que a prevalência da crença em possessão demoníaca. É evidente, por exemplo, que o pobre endemoinhado exorcizado por Jesus no capítulo 9 no Evangelho de Marcos era um epilético. Isso fica bem claro na leitura, com olhos modernos, dos versículos correspondentes, abaixo:

“17. Respondeu um homem dentre a multidão: Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo. 18. Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido. Roguei a teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam. (...) 25. Vendo Jesus que o povo afluía, intimou o espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai deste menino e não tornes a entrar nele.

Compare a lista de sintomas dada pelo pai do "possesso" à descrição do "grand mal", um tipo de ataque epilético, que consta do site da Mayo Clinic: perda de consciência; os músculos se contraem de repente, fazendo a pessoa cair; os músculos então entram em contrações rítmicas, flexionando-se e relaxandoQuatrocentos anos antes do tempo de Jesus, Hipócrates já havia especulado que a epilepsia era causada por problemas orgânicos no cérebro. 

(Em agosto de 2009, o Superior Tribunal de Justiça manteve condenação da Igreja Universal do Reino de Deus por agressão a um epilético, indevidamente “exorcizado” por representantes da denominação.)

Embora a epilepsia seja a doença mais comumente confundida com possessão, os sintomas mais dramáticos associados à suposta presença do demônio pertencem a uma doença rara, a Síndrome de Gilles de la Tourette, que deve o nome ao médico francês que a descreveu em 1885. 

De acordo com o psiquiatra Barry Beyerstein, os sintomas da síndrome, que muitas vezes é confundida com a esquizofrenia, batem também com várias representações contidas no Malleus Maleficarum, o manual de caça às bruxas da Inquisição, usado entre os séculos XV e XVIII.

Em mais da metade dos casos, segundo Beyerstein (autor de um artigo clássico sobre o tema, Neuropathology and the legacy of spiritual possession) a síndrome produz surtos verbais de blasfêmias, palavrões e termos sexuais. Desejos sexuais “proibidos”, impulsos violentos ou de cometer sacrilégio tomam conta da mente da vítima, junto com uma forte impressão de que a verbalização ajudará a dissipar a pressão psicológica.

Em tempos modernos -- por exemplo, no caso do garoto americano que inspirou o filme O Exorcista -- muitos supostos "casos reais" que cedo ou tarde chegam às telas do cinema provavelmente não passaram de brincadeiras adolescentes que acabaram escapando do controle (como no episódio, comparativamente benigno, das Fadas de Cottingley).

(Você pode querer parar para refletir um pouco sobre o tipo de sociedade em que vivemos, onde alguns pais   preferem acreditar que o filho está possuído pelo demônio a aceitar que ele apenas é mimado, malcriado ou está querendo chamar atenção.)

Em janeiro deste ano, um grupo de freiras romenas condenadas por crucificar uma mulher esquizofrênica para "exorcizá-la" foi solto da prisão, por bom comportamento. O padre que coordenou a atrocidade, Daniel Petru Corogeanu (foto ao lado), deve ser libertado nos próximos meses.

A despeito da longa lista de erros e atrocidades cometidos em nome de "expulsar o demônio", o Vaticano insiste que possessões são fenômenos reais. O catecismo católico afirma que é possível distinguir a ação do demônio de problemas neurológicos ou psiquiátricos normais (algo que nem Jesus parece ter sido capaz de fazer, de acordo com o relato de Marcos).

E, claro, vem aí um novo filme sobre exorcismos, O Ritual, "inspirado em eventos reais". Não tenho nada contra histórias de terror -- quem me conhece sabe que já cometi um bom número delas -- e talvez eu até vá ver a fita. Mas terei plena consciência de que o único "fato real" ali é a vontade de ganhar dinheiro.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fazendo média com a média

A mais recente edição da Scientific American americana traz uma nota provocativa assinada pelo matemático John Allen Paulos, com o título Por que Você Provavelmente é Menos Popular Que Seus Amigos.

O motivo, explica Paulos, é simples: pessoas muito populares tendem a atrair um grande número de amigos, e é mais provável que um pobre mortal como eu ou você sejamos parte do "rebanho" compartilhado por umas poucas figuras supersimpáticas do que estarmos, nós mesmos, no rol dos polarizadores de popularidade.

O mesmo raciocínio se aplica ao Twitter: você provavelmente tem menos seguidores do que a maioria das pessoas que você segue. Por quê? Porque é mais provável que você seja uma pessoa comum que acabou atraída para alguns grandes agregadores -- celebridades, universidades, jornais -- do que você, pessoalmente, ser um grande agregador.

O que gera a situação paradoxal de o usuário médio do Twitter ter uma lista de seguidores com menos nomes do que a média.

O parágrafo acima confunde propositalmente dois conceitos associados à palavra "média": um é do de "mais comum" ("o cidadão médio é honesto e trabalha para pagar suas contas"); o outro, é o resultado de um procedimento matemático, que consiste em somar uma série valores e dividir o resultado pelo número de valores somados. Por exemplo, nos últimos sete dias este blog recebeu 162, 235, 197, 341, 310, 358 e 325 visitas, o que dá uma média de (162+235+197+341+310+358+325)/7, ou 275 visitas.

As noções de média ("mais comum") e média ("somar e dividir") se confundem por causa de uma distribuição estatística conhecida como a normal. Ela produz um gráfico com a famosa forma de "curva do sino", e tem a notável característica de que a maioria dos valores se agrega junto à média, o que realmente faz da média o valor mais comum:


As porcentagens que aparecem nas áreas sombreadas em azul referem-se à proporção do total da população que se pode esperar encontrar à medida que nos afastamos da média, para mais e para menos (a taxa de afastamento usada, para quem estiver curioso, é o "desvio padrão", um conceito de que não precisamos tratar aqui).

A distribuição normal é extremamente útil e aparece um uma infinidade de situações da vida real. Nela se encaixam, por exemplo, tanto a estatura quanto o peso de uma população; a idade dos alunos de uma determinada série escolar; o tempo que as pessoas passam na internet; e assim por diante.

O fato, no entanto, é que a distribuição normal não é a única em existência. Por exemplo: coisas como intensidade de terremotos, gravidade de atentados terroristas, vendas de livros e, sim, popularidade nas redes sociais seguem um tipo de relação conhecido como lei de potência, cujo gráfico tem o seguinte jeitão:


Este é, incidentalmente, um gráfico usado para descrever a distribuição de rankings de popularidade, onde o número de pessoas é representado no eixo horizontal e o ranking, no vertical. A imagem nos diz que uma uma pequena parcela da população é extremamente popular, e que a esmagadora maioria só faz sucesso mesmo com parentes e colegas de trabalho (se tanto).

No geral, distribuições estatísticas que seguem leis de potência indicam que a frequência de um fenômeno está inversamente ligada à sua intensidade: poucos livros são best-sellers, a maioria encalha; poucos ataques terroristas matam milhares de pessoas, a maioria leva menos de uma dezena de vítimas; poucos blackouts afetam Estados inteiros, a maioria derruba a força apenas em alguns poucos quarteirões (se bem que, no Brasil, isso parece perigosamente prestes a mudar).

Assim, se no caso de uma distribuição normal faz sentido tratar o valor médio como sendo o valor mais provável -- se lhe pedirem para adivinhar a altura de um brasileiro adulto do sexo masculino, você terá mais chance de acertar dizendo 1,7 m do que 2,0 m ou 1,4 m --  quando a distribuição envolvida é outra, isso não vale mais.

Conceitos úteis para contornar essa limitação da média são a moda e a mediana. "Moda" é apenas o valor mais frequente. Por exemplo, numa empresa com mil funcionários, onde quatrocentos ganham um salário mínimo, trezentos ganham cinco salários, duzentos ganham dez salários, noventa ganham vinte salários e dez recebem cem salários, a "moda" será o salário mínimo, porque esse é o valor mais pago.

Já o salário médio seria {[(400*1)+(300*5)+(200*10)+(90*20)+(10*100)]/1000}, o que dá quase sete salários mínimos (6,7, para ser preciso). Isso seria um péssimo estimador para usar se você estivesse, por exemplo, tentando adivinhar o quanto um funcionário "típico" dessa forma ganha: não só o salário mais frequente é de apenas um mínimo, como 70%  dos funcionários ganham menos que a média, recebendo  um ou cinco mínimos.

Já o salário mediano é o do funcionário que divide a massa salarial da firma em duas metades -- metade da empresa ganha mais do que ele, e a outra metade, ganha menos.

Se esse funcionário não existir, o valor mediano pode ser estimado, tirando-se uma média dos dois salários mais próximos do ponto teórico onde ele deveria estar. No caso da nossa empresa hipotética, esse valor estaria na faixa dos 5 mínimos.

Perfuração do lago Vostok para a 29,53 metros


A revista Nature acaba de informar, via Twitter, que a perfuração rumo ao Lago Vostok -- um dos últimos ambientes isolados da Terra -- foi interrompida no último dia, 5 quando faltavam 29,53 metros. O Vostok fica relativamente perto do polo sul. Eu já bloguei sobre o lago, mas abaixo vai um pouco de background:

Com uma área de 15.000 km² -- o tamanho aproximado do País de Gales -- e uma profundidade máxima de cerca de 800 metros, o lago fica a 1.300 km do polo sul. O lago está isolado do resto do mundo há 15 milhões de anos, mas (diz a Wikipedia) é possível que o lento deslocamento da capa de gelo da Antártida faça com que a água do lago seja trocada a cada 13 mil anos.


Um dos principais objetivos da perfuração é, claro, procurar por sinais de vida, presente ou passada. Uma massa de água isolada por gelo há milênios é a situação existente, por exemplo, em Europa, uma lua de Júpiter tida como candidata a abrigar vida.

A perfuração foi interrompida por conta da aproximação do inverno antártico. O trabalho deve ser retomado em dezembro.

(A imagem acima é uma foto de satélite feita pela Nasa)

O Sol é visto em 360º pela primeira vez

Você talvez nunca tenha pensado nisso, mas é impossível para nós, na Terra, ver o Sol inteiro de uma vez. A razão é a mesma que nos impede de ver o rosto e as costas de uma pessoa ao mesmo tempo: o ângulo de visão disponível é obviamente limitado àquilo que está voltado para nós.

No caso de uma pessoa, é relativamente fácil (embora nem sempre seja prático) posicionar espelhos e câmeras de forma superar essa limitação. No caso do Sol, é um pouco mais difícil -- mas o primeiro retrato simultâneo frente-e-verso do Astro Rei foi finalmente produzido, e deve ser divulgado nas próximas semanas.


As duas "meias laranjas" do retrato acima (que é a imagem do dia da Nasa) são dois hemisférios do Sol vistos simultaneamente a partir de dois pontos de vista separados por praticamente 180°. Foram obtidas no fim de janeiro pelo par de satélites Stereo, lançado em 2006.

A missão da dupla Stereo é permitir que cientistas estudem o Sol por inteiro. Enquanto uma característica importante da superfície solar -- uma mancha escura ou uma erupção de energia, por exemplo -- some do ângulo de visão de um dos satélites, o mesmo fenômeno entra na lente do outro, o que permite acompanhar o desenrolar integral da atividade.

Como ambos os satélites giram em torno do Sol em diferentes órbitas e velocidades, o ângulo de separação entre eles aumenta e diminui ao longo do tempo. Essa separação chegou a 180° no domingo, dia 6, o que vai permitir que a faixa escura no retrato acima seja preenchida, gerando uma mapa integral de 360° do Sol, que deve ser divulgado em breve. A animação abaixo é uma extrapolação feita a partir dos dados na imagem acima:

video

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O dilema lexicográfico do prisioneiro

O blog do psicólogo britânico Richard Wiseman trouxe, na sexta-feira, um enigma que, em linhas gerais, é o seguinte:

Você está preso numa cela, e os malvados guardas propuseram um desafio. Eles escreveram uma letra do alfabeto em uma série de pedaços de cartolina, e colocaram as cartolinas no chão da sua cela, formando uma palavra. 


Você deve retirar um cartão, garantindo que os restantes ainda formem uma palavra -- não é permitido reorganizar a ordem das letras. Você deve repetir o processo até que reste apenas uma letra. Em que ordem as letras devem ser retiradas?

A palavra dada pelos malévolos guardas de Wiseman está, compreensivelmente, em inglês (quem quiser tentar a mão no enigma original, é só seguir o link na primeira linha desta postagem). Adaptando o problema para o português, resolvi acrescentar uma facilidade e uma dificuldade.


  • A facilidade, que atende a uma peculiaridade de nossa língua, é permitir a livre manipulação dos acentos. Assim, por exemplo, se fosse possível (não sei se é; não testei) reduzir CAMPESTRE ao par de letras PE, pode-se considerar que se trata da palavra PÉ.
  • A dificuldade também emana de uma característica do português, que é a de termos muitos vocábulos de uma letra só -- os artigos (e pronomes oblíquos) "a", "o", a conjunção "e". Assim, na minha versão do desafio é obrigatório que até a última letra  restante seja também uma palavra válida.

Como o domingo é longo, eu deixo quatro palavras a serem reduzidas, em grau crescente de dificuldade:

MOLHAR; AFIRMAR ; CORREIO; CANDENTE.

O objetivo é produzir uma lista de letras que podem ser retiradas de cada uma dessas palavras (cada palavra tem uma lista diferente), sendo que cada remoção deixa um outro vocábulo válido da língua portuguesa no lugar. Boa sorte!