sexta-feira, 27 de maio de 2011

Afinal, o que os cristãos têm contra os gays?

Sou só eu que estou achando espantosa a virulência da reação de grupos religiosos contra as iniciativas legislativas e do Executivo de mitigação da homofobia? 

Parêntese. 

Eu, pessoalmente, me vejo numa situação engraçada nos debates sobre o tal "PL da homofobia" que, fundamentalmente, apenas inclui a orientação sexual na lista de itens protegidos pela lei contra discriminação em vigor no Brasil. 

Isso porque sempre achei a lei contra discriminação, da forma como está, uma espécie de Espada de Dâmocles pairando sobre a liberdade de expressão, e agora tenho um bando de cristãos coléricos concordando, de certa forma, comigo. Mas meu ponto é contra a lei em geral, não contra a lista de grupos protegidos por ela, então nossa concordância não vai, realmente, muito longe.

Fecha parêntese.

Voltando ao tema principal da postagem: há um trecho do Velho Testamento que declara a homossexualidade uma "abominação", mas até aí o Velho Testamento também diz que mariscos e camarões são abominações, e nem por isso a CNBB emite éditos contra restaurantes de frutos do mar. A coisa esquenta um pouco mais, porém, quando se chega ao Novo Testamento. Como no caso desta passagem:

9. Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, 10. nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus.


O trecho acima é da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 6. A "Bíblia Ave Maria", católica, usa "efeminados" no verso 9, mas há outras traduções diretas do original grego que não hesitam em pôr lá "homossexuais", mesmo. 

Enfim, de acordo com o primeiro e mais influente teólogo do cristianismo, graças a quem os cristãos de hoje estão livres da obrigação de circuncidar os filhos, os gays se encontram na mesma categoria dos ladrões, bêbados, avarentos e assaltantes. Barrados do Reino de Deus.

Do ponto de vista prático, no entanto, a Escritura é um impedimento menor do que parece. Há dois milênios que teólogos inventam interpretações criativas para contornar obstáculos bíblicos específicos. Afinal, qual foi a última vez que você viu alguém vendendo tudo o que tem e dando o dinheiro aos pobres antes de ser aceito numa igreja cristã?

Outro exemplo: Jesus foi extremamente claro ao condenar a separação de casais casados. Ele passa uma dúzia de versos do Evangelho de Marcos revogando a autorização, que consta da Lei de Moisés, para o divórcio -- culminando com a famosa frase "não separe o homem o que Deus uniu" (Marcos, 10:9). 

Mas todas as igrejas cristãs acharam meios de relevar a injunção; até os católicos, que oficialmente se opõem com unhas e dentes ao divórcio, chegaram à criativa solução de que, mesmo sendo impossível dissolver um casamento, é sempre possível declarar que o casamento não aconteceu de verdade.

Nada impede, portanto, que uma acomodação para acolher os homossexuais surja no futuro (a regra atual, de que os homossexuais são bem-vindos, mas "convidados à abstinência", é de um requinte de crueldade psicológica que só a religião, mesmo, seria capaz de conceber).

Lendo uma biografia do apóstolo Paulo escrita pelo teólogo alemão Gerd Lüdemann, encontrei o que me parece uma pista para a demora na chegada dessa acomodação: Lüdemann nota que a ética cristã é, fundamentalmente, a ética do bom-senso -- não mate, não roube, não cometa fraude, não guarde rancor. 

Duas coisas, diz ele, e apenas duas, distinguem a ética dos cristãos dessa lista de platitudes universais: a adoração de Jesus em exclusão a todos os demais deuses e a moral peculiar que se busca impor às práticas sexuais. 

Olhando a coisa sob esse ângulo, é possível que a luta pelo "direito à homofobia" não seja apenas um reflexo obscurantista que pode vir a passar com o tempo, mas uma outra coisa -- uma luta pela preservação do pouco que resta da própria identidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

De onde veio este sangue todo? Uma resposta matemática

Como qualquer fã de CSI já deve estar careca de saber, é possível determinar a direção de onde veio um borrifo de sangue prolongando o eixo maior da elipse formada pela parte bojuda das manchas. Ou, em língua de gente: se as manchas de sangue têm um formato assim:

 Então a origem do sangue está na direção apontada pela parte grossa e arredondada da nódoa. Em havendo um conjunto de nódoas, a questão torna-se simplesmente um caso de ver onde os eixos prolongados se cruzam.

O leitor perspicaz provavelmente já notou que esse cruzamento de linhas oferece apenas uma parte da informação necessária para localizar a origem exata do sangue: por exemplo, se as manchas estiverem todas no chão, o prolongamento de seus eixos vai indicar um ponto também no mesmo plano do piso. Pensando em termos de um sistema de coordenadas como o da figura abaixo, os eixos das manchas dão os valores de X e Y, mas não o de Z:

Definir o valor de Z -- a altura de onde o sangue veio -- parece, curiosamente, ser um problema que estava sem solução satisfatória até o último mês de abril, quando dois físicos americanos submeteram à publicação o artigo Locating the source of projectile fluid droplets, que sairá no American Journal of Physics.

Já existia, a bem da verdade, uma simples fórmula trigonométrica para determinar o ângulo de impacto da gota de sangue (se você precisa mesmo saber, o seno do ângulo é dado pelo quociente entre a largura e o comprimento da mancha -- manchas perfeitamente redondas, portanto, correspondem, como seria de se esperar, a um ângulo de 90°) mas, de novo, essa informação geralmente não basta para definir a altura de origem.

A fórmula elaborada por Christopher Varney e Fred Gittes também envolve trigonometria, mas é mais complexa -- há um bocado de estatística, também. Sem entrar em muitos detalhes (quem estiver interessado pode consultar o artigo, no link acima) o resultado final depende da tangente do ângulo de impacto das manchas e da distância que as separa do ponto de origem no plano XY.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Spirit is dead


A Nasa decidiu ontem encerrar as tentativas de retomar contato com o robô Spirit, que operava em Marte desde janeiro de 2004. A última comunicação do robô com a Terra ocorreu em março do ano passado.

De acordo com a agência espacial, os recursos que vinham sendo usados nas tentativas de reativar o Spirit -- que provavelmente congelou além de qualquer possibilidade de recuperação no inverno marciano -- serão destinados para o lançamento do robô Curiosity.

 A mais ambiciosa missão robótica já planejada para Marte, o Curiosity tem o tamanho de um jipe, é movido por energia nuclear e conta com instrumentos inéditos no planeta vermelho, incluindo um laser que será usado para vaporizar amostras de rocha -- o gás gerado será em seguida analisado pela máquina.

A missão original do Spirit era prevsoita para durar três meses. Ele funcionou por seis anos. O robô ficou atolado num banco de areia fofa em 2009, de onde não conseguiu mais sair. Mesmo assim, continuou a enviar dados científicos para a Terra até o ano passado.

O "irmão gêmeo" do spirit, o robô Opportunity, continua operando em Marte, se encontra em meio a uma viagem de 4 km rumo a uma createra chamada  Endeavour.

Descobertas feitas pelos dois robôs -- especialmente, a de que as rochas marcianas atuais mostram sinais de terem sido modificadas por água -- revolucionaram a compreensão científica de Marte, aumentaram a percepção de que Marte pode ter abrigado vida no passado e abriram caminho para uma série posterior de missões, como a Phoenix (que operou em 2008) e o Curiosity. A sonda Phoenix fez descobertas importantes sobre a química do solo marciano.

A imagem acima mostra os rastros frescos deixados pelo Spirit no solo marciano em 2004, pouco depois de sua chegada ao planeta vermelho.

Abaixo, um quadrinho do xkcd, trazido à minha atenção pelo @Dbohr:

Crime e Castigo

Uma das teorias usadas para explicar por que as pessoas cometem crimes é a da escolha racional: a pessoa que contempla a possibilidade de cometer um crime pesa os prós e os contras, o que tem a ganhar e o que tem a perder, as vantagens e os riscos, e decide com base nessa análise de custo-benefício.

A teoria da escolha racional está por trás da ideia de que a pena tem um efeito dissuasivo -- isto é, de que o risco de ser punido pela sociedade é um fator a mais na lista dos "contras" que o criminoso em potencial leva em consideração antes de se comprometer com o crime.

Daí decorre o princípio de que a dissuasão depende mais da certeza da punição do que do tamanho da pena: se a pessoa sabe que é altamente provável que seja pega,  mesmo um pequeno castigo pode ter um grande efeito atenuante sobre a tentação de delinquir.

Inversamente, isso também ajuda a explicar porque, em sociedades onde o risco de ser pego é muito pequeno -- como foi durante a maior parte da história humana -- existe uma forte preferência por penas cruéis de públicas, como o quartering da Inglaterra medieval, onde o condenado era estripado vivo antes de ser decapitado, e assistia enquanto suas entranhas eram removidas pelo carrasco. Em praça pública.

A ideia, no caso, é que a força do exemplo sobrepuje, na mente dos criminosos em potencial, a consciência do baixo risco de captura.

Foi, claro, a prisão de Pimenta Neves que me trouxe à lembrança a teoria criminológica da escolha racional. Isso, e um comentário que me recordo de ter lido na seção de correspondência de um jornal -- teria sido o Painel do Leitor da Folha? -- argumentando que, do jeito que as leis e o Judiciário são no Brasil, qualquer branco rico maior de 60 anos tem garantido o "direito" de cometer um homicídio com impunidade.

Ou, em outras palavras, na sociedade brasileira o efeito dissuasório da pena por homicídio desaparece a partir de uma certa faixa etária e, mais importante, de renda.

O caso Pimenta Neves é um teste bem razoável dessa hipótese (ele nasceu em 1937, e portanto tinha 62 ou 63 anos quando matou Sandra Gomide). O fato de a prisão ter ocorrido onze anos mais tarde pode até ser visto como uma sugestão de que foi apenas o acaso que impediu o jornalista de morrer em paz e impune na cama de sua casa, enquanto os recursos se arrastavam pela Justiça.

Para checar a possibilidade, consultei a tabela de expectativa de vida do IBGE de 2000. Nesse ano, um brasileiro do sexo masculino com 63 anos de idade tinha uma expectativa de vida de mais 14 anos -- isto é, uma chance bem razoável de chegar aos 77. Não se pode dizer, portanto, que Pimenta tenha tido o "azar" de estar vivo para ir para a cadeia; a menos, claro, que se considere um azar a protelação da sentença ter durado "apenas" 11 anos, e não 14.

A parte etária da "hipótese-painel" falha, portanto -- mas por bem pouco.

De qualquer forma, parece evidente que a garantia da demora na aplicação da pena tem impacto sobre o efeito dissuasório. A probabilidade de que o castigo pode levar mais de uma década para chegar pode até ser vista como um incentivo para o crime, invertendo de vez a lógica da punição.

(A demora enfraquece até mesmo o aspecto penitencial da pena -- a ideia de que o tempo preso serve para que o criminoso reflita e se arrependa. Alguns estudos indicam que criminosos que passam um longo tempo em liberdade após o crime acabam elaborando desculpas e justificativas para seus atos e que, quando finalmente são encarcerados, sentem-se mais injustiçados do que penitentes).

Por fim, cabe constatar que a renda do réu tem um efeito brutal sobre a probabilidade de punição -- neste ano, o Estadão publicou uma reveladora reportagem sobre jovens pobres presos por acusação de tráfico, muitas vezes com base em evidência altamente duvidosa.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Extra! Extra! Fim do mundo remarcado!

Óquei, povo, podem parar de sacanear o messias moderno Harold Camping: ele não só reconheceu seu erro ao marcar o fim do mundo para 21 de maio, como já refez os cálculos e chegou a uma nova data, 21 de outubro. Isso significa que terei tempo de gastar a restituição do Imposto de Renda e, mais importante, que os brasileiros poderão pedir perdão de seus pecados em Aparecida, no dia 12.

De acordo com a versão revisada de Camping, na verdade em 21 de maio Jesus iniciou o julgamento da Terra; veredicto e sentença saem em outubro.

Se você acha que essa estratégia é nova, está enganado: vários estudiosos, como o teólogo alemão Gerd Lüdemann, já chamaram atenção para como os textos do Novo Testamento vão mudando a ênfase sobre a promessa da Segunda Vinda de Jesus, que começa sendo tratada como um evento definitivo e imediato e aos poucos vai se transformando num processo de milênios.

Camping está apenas reutilizando uma velha técnica, testada e aprovada por bilhões de cristãos de todo o mundo.


Abaixo, reproduzo alguns exemplos de previsão de fim do mundo que não se confirmaram, mencionados anteriormente neste blog e extraídos do website de James Randi:

 Primeiro século dCEm verdade vos declaro: muitos destes que aqui estão não verão a morte, sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de seu Reino. (Mateus, 16:28)

Setembro de 1186: O astrólogo João de Toledo divulgou panfletos em 1179 anunciando o fim do mundo durante uma conjunção planetária que ocorreria sete anos no futuro.

3 de outubro de 1533, às 8h da manhã: Michael Stifelius calcula a data e a hora exatas do apocalipse a partir do estudo matemático do (claro) Livro do Apocalipse. Quando o mundo não acabou, Stifelius foi açoitado.

1648: O rabino Sabbati Zevi, interpretando a cabala, conclui que é o messias e que o fim do mundo ocorrerá em 1648. Num caso citado pelo psicólogo Leon Festinger como exemplo de dissonância cognitiva bem-sucedida, em 1665 Zevi não só ainda tinha seguidores, como o entusiasmo com o retorno a Jerusalém havia de apossado dos judeus de várias importantes cidades da Europa. Aprisionado pelo sultão do Império Turco enquanto tentava guiar seus seguidores para a Terra Santa, Zevi converteu-se ao islã.

1874, 1914, 1975: Datas propostas por diversas lideranças  das Testemunhas de Jeová.

1881, 1936, 1953: Datas calculadas a partir da Grande Pirâmide de Gizé.

1982: Data calculada com base num alinhamento de planetas.

Julho de 1999: Profecia de Nostradamus.

Código florestal é o "nosso" aquecimento global?

Durante o governo Bush, o jornalista americano Chris Mooney publicou o livro The Republican War on Science, que denunciava a postura anticientífica do Partido Republicano, principalmente em relação ao aquecimento global -- negando-se a reconhecer o amplo consenso internacional de cientistas em torno da questão e agarrando-se aos argumentos mais ridículos e às opiniões mais extremistas para evitar tratar do fenômeno e, em consequência, da necessidade de ajustes na matriz energética dos EUA, ajustes esses que poderiam trazer prejuízos para as empresas petrolíferas e para as comunidades que dependem dessas empresas.

Basicamente, era um caso dos políticos tapando os ouvidos e cantando alto para não ouvir algumas, com o perdão de Al Gore, "verdades inconvenientes" para suas bases eleitorais e, mais importante, para os bolsos de suas fontes de financiamento de campanha.

Imagino que um "Mooney brasileiro" poderia escrever um livro parecido em torno da questão do código florestal. O problema, dada a homogeinização dos partidos políticos no Brasil, seria achar um bom título. A Guerra Comunista contra a Ciência, a A Guerra Petista contra a Ciência ou A Guerra Ruralista contra a Ciência seriam todos verdadeiros, mas apenas parciais.

Porque, não se engane, existe um consenso científico em torno do código, e ele diz que a proposta do deputado comunista Aldo Rebelo, abraçada pela Câmara Federal e, até a undécima hora, tolerada pelo governo, é um desastre não só ambiental, mas também econômico, e uma ameaça à saúde pública. 

Abaixo, cito trechos de estudos realizados por especialistas do projeto Biota Fapesp e e da SBPC

Os ecossistemas florestais do Brasil abrigam um dos mais altos níveis de diversidade de mamíferos da Terra, e boa parte dessa diversidade se encontra nas áreas legalmente protegidas em áreas de domínio privado. As reservas legais (RLs) e áreas de proteção permanente (APPs) representam estratégias importantes para a proteção e manutenção dessa diversidade. Mudanças propostas no Código Florestal certamente trarão efeitos irreversíveis para a diversidade de mamíferos no Brasil. Os mamíferos apresentam papéis-chave nos ecossistemas, atuando como polinizadores e dispersores de sementes. A extinção local de algumas espécies pode reduzir os serviços ecológicos nas RLs e APPs. Outra consequência grave da redução de áreas de vegetação nativa caso a mudança no Código Florestal seja aprovada será o aumento no risco de transmissão de doenças, trazendo sérios problemas a saúde pública no Brasil.

(Mauro Galetti, Departamento de Ecologia, Universidade Estadual Paulista – UNESP; Renata Pardini, Departamento de Zoologia, Universidade de São Paulo – USP, José Maurício Barbanti Duarte, Departamento de Zootecnia, Universidade Estadual Paulista – UNESP; Vera Maria Ferreira da Silva, Laboratório de Mamíferos Aquáticos, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA; Alexandre Rossi, Departamento de Ecologia, Universidade Estadual Paulista – UNESP; & Carlos Augusto Peres, Centre for Ecology Evolution and Conservation, School of Environmental Sciences, University of East Anglia)

* * *
 Os diagnósticos realizados demonstram que existe um passivo da ordem de 83 milhões de hectares 
de áreas de preservação ocupadas irregularmente, de acordo com a legislação ambiental em vigor. 
Estima-se que o impacto da erosão ocasionado pelo uso agrícola das terras no Brasil é da ordem de 
R$ 9,3 bilhões anuais, que poderiam ser revertidos pelo uso de tecnologias conservacionistas e pelo 
planejamento de uso da paisagem, gerando benefícios ambientais. Há necessidade de medidas urgentes dos tomadores de decisão para reverter o estágio atual de degradação ambiental. Para estancar esse quadro, as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais (RLs) deveriam ser consideradas como parte fundamental do planejamento agrícola conservacionista das propriedade (...) Os dados científicos disponíveis e as projeções indicam que o país pode resgatar passivos ambientais sem prejudicar a produção e a oferta de alimentos, fibras e energia, mantendo a tendência de aumento continuado de produtividade das últimas décadas, desde que sejam estabelecidas políticas mais consistentes de renda na agropecuária.

(Grupo de Trabalho do Código Florestal -- SBPC) 

E nem cito o documento dos ex-ministros de Meio Ambiente condenado o código tal como está. Diante dessas constatações, os defensores do código se refugiam em argumentos que fariam corar as pedras -- ou estufar o peito do mais empedernido redneck senador republicano da Era Bush. 

Nessa óptica, um pastiche da visão republicana de que o aquecimento global é um bicho-papão inventado por ONGs internacionais e/ou uma conspiração para minar a competitividade da economia americana, os defeitos do código são um bicho-papão inventado por ONGs internacionais e/ou fruto de uma conspiração, você adivinhou, para minar a competitividade da economia brasileira.

Chega a ser constrangedor ver o espaço nobre das páginas de opinião de grandes jornais ocupado por argumentos que só fariam sentido entre bêbados numa mesa de bar, como o de que os opositores do código são "urbanoides sem experiência no campo" ou de que as ONGs que condenam o código por aqui deviam fazer campanha nos países de origem de seus fundadores. 

(Essa última linha argumentativa tem a mesma legitimidade da de um homem que se queixa de não poder prostituir a filha, já que o vizinho dele enriqueceu fazendo isso.)

Sempre achei que Bertrand Russell estava sendo irônico ao classificar como "revolucionária" sua proposta -- que soa como simples bom senso -- de que, quando os estudiosos de um tema chegam a um consenso, o melhor que os leigos têm a fazer é segui-lo. Mas parece que, quando há interesses poderosos em jogo, o bom-senso é mesmo uma coisa revolucionária.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

A maconha e a marcha

O fato de as chamadas "marchas da maconha" ainda serem consideradas "polêmicas" é um dos sinais do quanto ainda estamos longe de uma cultura democrática digna do nome.

O direito dos cidadãos de protestar pacificamente para pedir mudanças na lei é um dos pilares da democracia moderna -- na Carta de Direitos da Constituição dos EUA, aparece logo no primeiro item, junto da liberdade de expressão e da de religião -- mas, aqui no Brasil, as pessoas ainda parecem achar que liberdade de manifestação é liberdade de manifestar  concordância com o senso comum (ou, pelo menos, com um lobby bem endinheirado).

Claro, em sendo a manifestação uma passeata, as autoridades têm de levar uma série de fatores em consideração antes de autorizá-la, mas esses fatores são (ou deveriam ser) o impacto do evento na vida da cidade e no direito de ir e vir dos demais cidadãos e não, ora bolas, o tema da manifestação em si.

(Cá entre nós, a lei brasileira contra a "apologia do crime" é mais uma mordaça discricionária à disposição do Judiciário do que uma tentativa real de evitar à incitação ao ilícito; aliás, a lei seria muito menos autoritária se se trocasse "apologia" por "incitação" no texto; fica a dica ).

Tendo dito tudo isso, ressalvo que defender o direito à marcha não significa concordar com a petição que a marcha busca promover. O debate sobre a descriminação da maconha (e das drogas em geral) é cheio de paixões e posições hidrófobas -- de ambos os lados, diga-se, embora a ala conservadora tenha mais espaço na mídia.

O argumento mais repetido pelos adversários da legalização da maconha é o da "porta de entrada" -- a maconha seria um primeiro passo para o mergulho no mundo das drogas pesadas. No entanto, um estudo publicado em 2003 demonstra que, embora o efeito "porta de entrada" seja plausível, os argumentos usados para defendê-lo também justificam uma hipótese alternativa -- a de que existe um tipo de personalidade com propensão ao uso de drogas, e que pessoas com esse tipo de personalidade tendem a buscar substâncias cada vez mais pesadas. Diz o texto:

"O estudo demonstra que a associação entre maconha e o uso de drogas pesadas pode ser esperado mesmo se a maconha não atuar como porta de entrada. Em vez disso a associação pode resultar das diferenças de idade em que os jovens têm oportunidade de usar maconha ou drogas pesadas, e variações conhecidas na disposição dos indivíduos de buscar drogas."


De acordo com um dos autores, "pessoas predispostas a usar drogas e com a oportunidade de usar drogas têm maior probabilidade do que outros de usar tanto maconha quanto drogas pesadas (...) A maconha tipicamente vem primeiro porque está mais disponível".

(Eu, de minha parte, me pergunto até que ponto esse efeito "porta de entrada", se é que existe, não deriva exatamente do fato de que a maconha é ilegal. Hoje em dia, o mesmo traficante que oferece cannabis provavelmente também tem acesso a cocaína, por exemplo, e está disposto a oferecê-la ao cliente; mas se os cigarros de maconha fossem legalmente vendidos em padarias, é improvável que a mocinha do caixa também tivesse papelotes escondidos debaixo dos drops de horletã.)



Já um argumento que comumente aparece na boca dos defensores da erva é o de que a maconha pode ser benéfica para a saúde, e certamente é menos maléfica que o cigarro. Embora algumas partes do mundo aceitem o uso de maconha com fins medicinais -- para reduzir a pressão intraocular de pacientes de glaucoma ou como sedativo em casos de doentes terminais -- a alegação de que a cannabis é menos prejudicial que o tabaco não se sustenta.

Estudos publicados nas últimas décadas mostram que a maconha aumenta o risco de câncer de pulmão, que o alcatrão da maconha se acumula mais nos pulmões que o do tabaco e que a cannabis representa um perigo para a sobrevivência de pessoas com problemas cardíacos. Numa nota subjetiva e totalmente pessoal, acrescento que a fumaça da maconha fede muito mais que a do cigarro (ao menos na minha época, era impossível estudar Jornalismo sem acabar exposto a ambos os tipos de nuvem tóxica).

Dada a a falta de substância das alegações de parte a parte, como ficamos?

Uma coisa que causa -- ou deveria causar -- estranheza na questão das drogas é o simples fato de haver drogas proibidas. Na tradição liberal, todo ser humano é proprietário do próprio corpo, e faz com ele o que quer, desde que não cause dano à vida ou à propriedade de outras pessoas. Quem, portanto, é o governo para dizer o que um cidadão pode ou não consumir? Por que homens e mulheres livres e maiores de idade toleram que o Estado determine o que podem ou não introduzir em suas veias, pulmões ou narinas?

Drogas de uso dito "recreativo" afetam o indivíduo e a sociedade. Os efeitos no indivíduo são os que se fazem sentir sobre sua saúde, sua capacidade de gerar renda, seu círculo de relações, seu livre arbítrio; na sociedade, são os que afetam os sistemas de saúde pública, a economia, a segurança pública e, claro, o aparato policial-judicial. O poder do Estado de proibir algumas drogas busca justificativa nessas duas dimensões.

Na dimensão individual, a proibição das drogas se apoia nos argumentos do dano e do vício. O argumento do dano alega que a droga faz mal à saúde, e que o Estado tem o dever de proteger a saúde de seus cidadãos; o do vício, que a droga gera dependência, o que faz com que o usuário deixe de ser um agente livre e, portanto, passe a precisar da proteção paternal do Estado na supressão da substância viciante.

Esses são talvez os argumentos mais fracos pró-proibição. Aceitos, eles requerem não só o veto à maconha, à cocaína e à heroína, mas também ao tabaco, ao álcool e ao café, sem falar na carne vermelha e no chocolate.

Na dimensão social, a proibição se apoia nos custos -- econômicos e emocionais -- da droga, do tratamento dos problemas de saúde que ela causa, da perda de vidas e de produtividade dos usuários e dos elos entre a droga e o crime, principalmente o crime organizado.

O ponto saliente dessa linha argumentativa é que, com exceção da questão do crime organizado, todos os problemas citados também existem em relação ao álcool e ao tabaco, ambas drogas aceitas e toleradas.

O alcoolismo destrói famílias, alcoólatras às vezes reduzem-se a mendigos ou ladrões para sustentar o vício, o álcool gera absenteísmo no trabalho; o tabaco reduz a expectativa de vida, a produtividade, e a nicotina é uma das substâncias mais viciantes conhecidas. Esses custos sociais são assimilados pela comunidade, como um todo, em nome do respeito pela liberdade individual.

Parece-me que o ponto que distingue o impacto social das drogas ilegais das legais -- o crime organizado -- é fruto direto, e não causa, da proibição. Como já disse um historiador americano, antes da Lei Seca, a Máfia prestava serviços aos políticos; depois dela, os políticos passaram a prestar serviços à Máfia.

É por isso que não creio que houvesse traficantes ma Marcha da Maconha: eles certamente não querem a concorrência da Souza Cruz.