Sou só eu que estou achando espantosa a virulência da reação de grupos religiosos contra as iniciativas legislativas e do Executivo de mitigação da homofobia?
Parêntese.
Eu, pessoalmente, me vejo numa situação engraçada nos debates sobre o tal "PL da homofobia" que, fundamentalmente, apenas inclui a orientação sexual na lista de itens protegidos pela lei contra discriminação em vigor no Brasil.
Isso porque sempre achei a lei contra discriminação, da forma como está, uma espécie de Espada de Dâmocles pairando sobre a liberdade de expressão, e agora tenho um bando de cristãos coléricos concordando, de certa forma, comigo. Mas meu ponto é contra a lei em geral, não contra a lista de grupos protegidos por ela, então nossa concordância não vai, realmente, muito longe.
Fecha parêntese.
Voltando ao tema principal da postagem: há um trecho do Velho Testamento que declara a homossexualidade uma "abominação", mas até aí o Velho Testamento também diz que mariscos e camarões são abominações, e nem por isso a CNBB emite éditos contra restaurantes de frutos do mar. A coisa esquenta um pouco mais, porém, quando se chega ao Novo Testamento. Como no caso desta passagem:
O trecho acima é da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 6. A "Bíblia Ave Maria", católica, usa "efeminados" no verso 9, mas há outras traduções diretas do original grego que não hesitam em pôr lá "homossexuais", mesmo.
Enfim, de acordo com o primeiro e mais influente teólogo do cristianismo, graças a quem os cristãos de hoje estão livres da obrigação de circuncidar os filhos, os gays se encontram na mesma categoria dos ladrões, bêbados, avarentos e assaltantes. Barrados do Reino de Deus.
Do ponto de vista prático, no entanto, a Escritura é um impedimento menor do que parece. Há dois milênios que teólogos inventam interpretações criativas para contornar obstáculos bíblicos específicos. Afinal, qual foi a última vez que você viu alguém vendendo tudo o que tem e dando o dinheiro aos pobres antes de ser aceito numa igreja cristã?
Outro exemplo: Jesus foi extremamente claro ao condenar a separação de casais casados. Ele passa uma dúzia de versos do Evangelho de Marcos revogando a autorização, que consta da Lei de Moisés, para o divórcio -- culminando com a famosa frase "não separe o homem o que Deus uniu" (Marcos, 10:9).
Mas todas as igrejas cristãs acharam meios de relevar a injunção; até os católicos, que oficialmente se opõem com unhas e dentes ao divórcio, chegaram à criativa solução de que, mesmo sendo impossível dissolver um casamento, é sempre possível declarar que o casamento não aconteceu de verdade.
Nada impede, portanto, que uma acomodação para acolher os homossexuais surja no futuro (a regra atual, de que os homossexuais são bem-vindos, mas "convidados à abstinência", é de um requinte de crueldade psicológica que só a religião, mesmo, seria capaz de conceber).
Lendo uma biografia do apóstolo Paulo escrita pelo teólogo alemão Gerd Lüdemann, encontrei o que me parece uma pista para a demora na chegada dessa acomodação: Lüdemann nota que a ética cristã é, fundamentalmente, a ética do bom-senso -- não mate, não roube, não cometa fraude, não guarde rancor.
Duas coisas, diz ele, e apenas duas, distinguem a ética dos cristãos dessa lista de platitudes universais: a adoração de Jesus em exclusão a todos os demais deuses e a moral peculiar que se busca impor às práticas sexuais.
Olhando a coisa sob esse ângulo, é possível que a luta pelo "direito à homofobia" não seja apenas um reflexo obscurantista que pode vir a passar com o tempo, mas uma outra coisa -- uma luta pela preservação do pouco que resta da própria identidade.







