sábado, 30 de julho de 2016

"Milagre", carisma e política

Quando pesquisei o capítulo do meu Livro dos Milagres que trata das aparições marianas -- fenômenos em que se diz que a mãe de Jesus surge diante de testemunhas, trazendo mensagens -- dei uma busca em bases de dados internacionais, como o catálogo da Universidade de Dayton, e consultei livros como o trabalho da antropóloga Sandra L. Zimdars-Swartz, Encoutering Mary, para ver se haveria algo a mencionar no Brasil, mas não encontrei nada de especial relevância.

O catálogo do Instituto Internacional de Pesquisas Marianas de Dayton listava, até 2014, sete ocorrências no país, seis ainda em aberto -- isto é, sem decisão de um bispo sobre se a aparição é ou não digna de crédito -- e uma com decisão negativa. Pesquisas subsequentes mostraram que nenhuma delas teve impacto na consciência popular comparável aos casos de que tratei no livro (Guadalupe, Lourdes, Fátima). O fenômeno de devoção mariana mais relevante para a história do Brasil, até agora, foi a descoberta da imagem original de Aparecida, por pescadores, no século XVIII, mas só metaforicamente esse evento pode ser considerado um "milagre".

Esse cenário pode estar prestes a mudar, porém. Lançado há poucos meses, o livro Eu Sou a Graça, do monge beneditino Dom Rafael Maria Francisco da Silva, busca chamar atenção para uma série obscura de aparições de Maria em Pernambuco, entre os anos de 1936 e 1937. Ela é tão obscura, de fato, que sequer é mencionada no catálogo de Dayton, que se pretende exaustivo e reúne quase 400 ocorrências ao longo dos últimos 100 anos.

Mas resgatar e atribuir novos significados a aparições marianas perdidas do passado não é incomum, ainda mais em tempos disputa ideológica e de tensão política: a narrativa em torno dos eventos de Fátima, por exemplo, só veio a tomar a forma presente, com ênfase nos "três segredos", décadas depois das aparições de 1917, quando a publicação da Terceira Memória da vidente Lúcia dos Santos, em 1941, permitiu uma reinterpretação das aparições como um alerta anticomunista. "Autoridades católico-romanas a Europa encontraram, na Virgem de Fátima, uma fonte importante para conter a disseminação do comunismo", escreve Zimdars-Swartz.

A história do fenômeno pernambucano, tal como narrada em Eu Sou a Graça, parece saída do roteiro de algum filme perdido do Cinema Novo: as videntes são duas meninas adolescentes, uma branca e uma negra; o padre que as defende dos céticos e da hierarquia eclesiástica truculenta. José Kehrle, é um imigrante alemão e o confessor favorito de Lampião; a mãe de uma das meninas dá à luz e depois perde o filho recém-nascido, ainda de poucos dias, durante o pânico e o caos causados por um assalto de cangaceiros à região em que vivia a família. De fato, a primeira aparição ocorre quando uma das meninas questiona, após a morte trágica do bebê, quem poderá protegê-las de Lampião, pergunta retórica prontamente respondida pelo surgimento da imagem luminosa de Maria.

Exceto pelos detalhes de cor local, no entanto, as ocorrências no Sítio Guarda, em Pernambuco, em tudo seguem a estrutura apontada por Zimdars-Swartz para o "novo tipo" de aparição mariana inaugurado em La Salette, na França, nos anos 1840, que depois se consolidaria em Lourdes e Fátima e que seria seguido, como uma espécie de gabarito, por inúmeros outros eventos ao  longo da segunda metade do século XIX e por todo o século XX.

Nesse gabarito, a figura de Maria manifesta-se como uma aparição -- isto é, como um objeto concreto, integrado ao ambiente -- e não como uma visão, algo que surge num estado alterado de consciência, num êxtase místico ou vem num sonho; os principais videntes são crianças ou adolescentes, preferencialmente do sexo feminino (e não padres, monges, santos); a aparição se dá num espaço aberto, não numa cela, quarto, dentro de uma igreja, num claustro; o fenômeno é serial (as aparições se repetem ao longo de vários dias); e é público, no sentido de que, à medida que os episódios se repetem, mais e mais pessoas se juntam em torno dos videntes e, por meio deles, tomam conhecimento das mensagens da santa.

Aqui, aliás, há um detalhe importante, que às vezes é minimizado: em todos os relatos-padrão de aparições marianas, de La Salette a Fátima (e em Pernambuco, também), só quem vê e ouve a figura sobrenatural são os videntes eleitos -- geralmente crianças e, quase sempre, liderados por alguém do sexo feminino. As multidões ao redor apenas olham para o vazio e esperam que os escolhidos narrem o que a imagem faz e reportem o que diz. Sob esse um ponto de vista, acreditar numa aparição equivale a acreditar no que uma criança relata a respeito dos gestos e palavras de uma amiga imaginária.

Às vezes, alguma evidência auxiliar é citada, por exemplo curas ou profecias, mas quase nunca são tão sólidas quanto os apologistas querem fazer crer. As mais impressionantes das profecias de Fátima -- por exemplo, a de que a Rússia viria a ser uma ameaça à paz mundial -- embora supostamente tenham sido feitas em 1917, só foram publicadas décadas depois, quando os eventos "previstos" já tinham se consumado.

Perguntas, perguntas

No caso do Sítio Guarda, em Eu Sou a Graça são apresentadas transcrições de conversas em que as meninas videntes reproduzem, em português, as respostas dadas pela aparição a questões formuladas, por padres, em latim, alemão e italiano. O autor parece convencido de que essas respostas, consideradas por ele geralmente corretas, permitem excluir, por completo, a possibilidade de fraude.

Há várias coisas a ponderar aí: a primeira é que "verdade/fraude" representa uma falsa dicotomia. As aparições podem ao mesmo tempo não serem "verdadeiras" (isto é, não serem de fato comunicações factuais do fantasma de uma jovem judia de 2000 anos que teve um filho chamado Jesus) e também não serem "fraudes" (falsidades deliberadas). Calvin, afinal, não está exatamente mentindo quando descreve o comportamento de Haroldo para os pais.

A segunda é que há bastante latitude para questionar o tal caráter "correto" das respostas. Além de algumas delas serem objetivamente erradas, há vários momentos em que a aparição simplesmente parece distribuir "sins", "nãos", silêncios enigmáticos e gestos ambíguos ao acaso, o que requer alguma caridade interpretativa (e um certo contorcionismo teológico) para que se possa considerá-las "corretas".

Não custa nada lembrar que as pessoas que consultam cartomantes e astrólogos, por exemplo, consistentemente declaram ter recebido muito mais informação objetiva e precisa do que o "sensitivo" forneceu de verdade. A mente do ouvinte, de modo muitas vezes inconsciente, preenche lacunas, atribui significados, condensa tergiversações e, o que é crucial, reinterpreta erros e ambiguidades como acertos.

Um terceiro ponto é que é muito comum, nesse tipo de relato, subestimar-se a inteligência das videntes. É compreensível: quando se pretende demonstrar que alguém fala por inspiração divina ou sobrenatural, convém reduzir ao máximo as expectativas quanto a uma possível inspiração mundana ou natural.

Mas, vivendo num meio católico onde havia vários padres imigrantes e em que as missas eram sempre rezadas em latim, não seria surpreendente que Maria da Luz, a mais articulada das duas videntes, tivesse pego uma compreensão, ainda que intuitiva, vaga e fragmentária, de alguns vocábulos e expressões estrangeiros. Somando-se a isso o que certamente denunciavam a linguagem corporal e a expressão facial dos padres interrogadores, e o caráter aleatório de muitas das respostas, os supostos diálogos poliglotas tornam-se bem menos "inexplicáveis".

No geral, as respostas, tal como filtradas pelos clérigos, parecem ratificar o que o padre José Kehrle e seu companheiro na defesa da crença na aparição, o frade Estêvão Roettger, esperavam ouvir, incluindo a confirmação, pela "santa", do caráter milagroso dos fenômenos em torno da mística alemã Therese Neumann. Outros padres e o bispo local, no entanto, não foram persuadidos.

Pânico vermelho

Um ponto levantado por Sandra L. Zimdars-Swartz em seu estudo é o de que aparições marianas tendem a crescer -- no sentido de se tornarem foco de devoção ampla, para além da comunidade original dos videntes, ou mesmo ganhar importância internacional -- quando algum grupo político vê a oportunidade de "sequestrá-las" para sua causa. Aparições podem ser motores eficientes para converter energia religiosa em torque político.

Em seu livro, a antropóloga cita, entre outros casos, o do entusiasmo inicial dos monarquistas franceses pelos videntes de La Salette, ou o contexto de Guerra Fria em que a mensagem de Fátima, com seus "segredos" de tom apocalíptico, ganhou importância e reverberação. Zimdars-Swartz dá ainda especial destaque ao caso de uma aparição ocorrida na Itália, a de San Damiano, na época do Concílio Vaticano II, que se tornou foco de devoção de grupos de católicos ultraconservadores, principalmente de fiéis ligados ao arcebispo franco-suíço (cismático, depois excomungado) Marcel Lefebvre. Talvez não por coincidência, a aparição de San Damiano foi considerada indigna de fé pela diocese local.

O que nos traz à mensagem imputada à aparição pernambucana: ela está carregada de uma preocupação quase obsessiva com o comunismo. "O comunismo virá ao Brasil?",  pergunta o padre Kehrle. "Sim", responde a santa, por intermédio das meninas, ominosamente: no contexto histórico-cultural das aparições, essa era uma péssima notícia. E não só virá, acrescenta ela, como virá com derramamento de sangue e perseguição aos católicos. Mas, no fim, o Brasil será salvo, promete a aparição, pela força de orações penitências.


Medo do "comunismo ateu" estava bem dentro do zeitgeist católico latino-americano da época: não só o Brasil vivera a Intentona de 1935 como, na Espanha da Guerra Civil, a Igreja Católica se via como vítima de uma perseguição anticlerical por parte do governo republicano, apoiado pelos socialistas e pela União Soviética. Desse modo, a aparição estava ligada às preocupações da ala mais conservadora do catolicismo do Brasil de seu tempo. Questão: ela está ligada às preocupações dos católicos conservadores do Brasil do nosso tempo? Em outras palavras, por que o interesse nesse episódio obscuro, e já quase esquecido, da história da religiosidade popular vem sendo retomado nos últimos anos?

A polarização político-ideológica do país, com apelo por uma politização cada vez mais radicalizada do conservadorismo cristão -- seja de matriz católica ou protestante --, pode oferecer a resposta. O autor de Eu Sou a Graça chega a apresentar uma lista dos partidos políticos brasileiros atuais que considera de inspiração comunista e, portanto, indignos do voto católico.

 O que sugiro não é uma teoria da conspiração, mas apenas a observação do que pode muito bem ser um movimento natural na tectônica das ideias: a direita católica, cada vez mais vibrante e articulada, encontrando um estandarte com o qual poderá atrair um número de fiéis mais ligados a fenômenos sobrenaturais ou carismáticos, normalmente menos interessados em política. Se Fátima foi uma arma contra o comunismo na Europa, talvez o Sítio Guarda venha a ser uma contra o esquerdismo brasileiro.

Eu Sou a Graça menciona a existência, anos atrás, de planos para a construção de um complexo turístico no Sítio Guarda, e que só não prosperaram porque a área, hoje, encontra-se incorporada a território indígena. Mas, do modo como sopram os ventos no governo federal, este talvez seja só um embaraço temporário. Será interessante observar a movimentação do lobby pelo reconhecimento eclesiástico das aparições de 1936, ver se a causa avança ou não e por quem será abraçada. Por fim, ouvir qual será o discurso se -- quando? -- a narrativa da aparição de 1936 chegar mesmo ao mainstream.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Nanotecnologia brasileira contra o câncer

Uma equipe multidisciplinar de cientistas, envolvendo pesquisadores da Unicamp e dos Laboratórios Nacionais de Luz Síncrotron (LNLS), Biociências (LNBio) e Nanotecnologia (LNNano) vem desenvolvendo uma tecnologia baseada em nanopartículas que pode fazer com que medicamentos quimioterápicos atinjam especificamente as células do câncer, causando um dano mínimo às células saudáveis do corpo. Os primeiros testes do modelo, em culturas celulares, já foram realizados e são descritos em artigo publicado no periódico internacional Langmuir. A íntegra da entrevista com os pesquisadores você encontra no Jornal da Unicamp.

terça-feira, 26 de julho de 2016

"Fosfolclore" em tempos de teste clínico

Com o início dos testes clínicos, devidamente controlados, da "fosfoetanolamina sintética" pelo governo do Estado de São Paulo, esta talvez seja uma boa oportunidade para tentar organizar um pouco as informações já disponíveis. Principalmente, esclarecer qual é, afinal, a relação entre a substância que o governo paulista passa a testar e o material que vinha sendo estudado pelos órgãos contratados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com resultados decepcionantes. As "fosfos", a despeito de terem todas o mesmo nome, não são todas criadas iguais.

Os defensores mais aguerridos da ideia de que a "fosfo" de São Carlos teria eficácia contra o câncer atribuem os seguidos resultados negativos publicados pelo MCTI ao fato de os ensaios do ministério terem sido feitos com "fosfo da Unicamp", e não com "fosfo da USP". Isso é uma uma meia-verdade -- que, como se sabe, é um estratagema muito melhor para enrolar os incautos que uma mentira completa.

A história começa com o envio, ao Laboratório de Química Orgânica Sintética (LQOS) do Instituto de Química da Unicamp, de cápsulas da suposta "fosfoetanolamina sintética" produzida em São Carlos, segundo o processo que o grupo do professor aposentado Gilberto Chierice tenta patentear.

A equipe do LQOS, encabeçada pelo professor Luiz Carlos Dias, pesa e analisa o conteúdo das cápsulas e descobre, para surpresa de todos, que elas não contêm "fosfoetanolamina com 90% de pureza", como apregoado, mas sim uma mixórdia de componentes, incluindo fosfoetanolamina, sim, mas também um veneno, a monoetanolamina, e outros contaminantes. A reação do grupo de Chierice à publicação desse resultado é apontar "degradação" das amostras durante o processo de análise, mas uma leitura atenta do relatório da Unicamp mostra que a técnica usada, baseada em ressonância magnética nuclear, não produz degradação.

A espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN) é uma técnica que se vale das propriedades magnéticas de certos núcleos atômicos. Não há nenhuma decomposição química envolvida e, o que é ainda mais crucial, trata-se de uma técnica-padrão, amplamente utilizada para a caracterização da estrutura de compostos orgânicos.

Pedido de patente

Menos divulgado entre o público em geral foi o teste realizado, pelo mesmo laboratório, dos procedimentos descritos no pedido de patente de 2008, "Nova Metodologia de Síntese de Fosfoetanolamina". Esse ensaio consta da "Parte B" do relatório entregue pelo LQOS ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cuja "Parte A" consiste da análise do conteúdo das pílulas de São Carlos.

O resultado: um rendimento de fosfoetanolamina da ordem de 30%-40%, bem abaixo dos 90% prometidos na patente, e um amplo cardápio de resíduos, incluindo fosfobisetanolamina e monoetanolamina, dois contaminantes também encontrados -- talvez não por acaso -- nas cápsulas originais. Para caraterizar o produto de sua reação e cravar os 90% de pureza, os autores do pedido de patente afirmam ter usado espectroscopia de infravermelho, uma técnica mais rudimentar e de menor definição que a RMN. O relatório da Unicamp se refere à espectroscopia de infravermelho como "uma técnica obsoleta no que diz respeito a (...) elucidação estrutural e grau de pureza de compostos orgânicos".

Comparação de espectrografia do conteúdo das cápsulas de São Carlos e da "fosfo"
 produzida na Unicamp segundo a receita do pedido de patente


Resumindo, a técnica usada pela Unicamp para afirmar que o pó de São Carlos é só 30% fosfoetanolamina é mais moderna e tem melhor poder definição do que a usada pelo grupo de São Carlos para dizer que se trata de 90% "fosfo". 

Há, portanto, duas linhas de evidência, a análise do material de São Carlos e a síntese do processo que se busca patentear, que convergem para a conclusão de que o que se produzia em São Carlos nunca foi "fosfoetanolamina sintética", e sim uma gororoba química potencialmente tóxica. Essa é uma contradição que, entre outras coisas, põe em dúvida o que seria, afinal, a suposta "fosfoetanolamina sintética" usada nos estudos publicados pelo grupo de Chierice em periódicos internacionais, mostrando diferentes graus de sucesso no controle de tumores in vitro e em animais de pequeno porte. 

Ignorância e Coca-Cola

Os resultados obtidos no LQOS levaram o professor Dias a afirmar, em entrevista à RTV Unicamp, que o grupo de São Carlos "não sabe o que tem nas cápsulas", e que os criadores da "fosfo" na verdade apenas "pensam" que estão fazendo fosfoetanolamina sintética. A reação descrita na patente "não ocorre", afirma o pesquisador, que tem reputação internacional. "Eles estão apenas degradando o material", garante. 

A resposta dos defensores Chierice a essas duas constatações do grupo da Unicamp também é dupla: primeiro, insistem que algo foi feito de errado na análise das cápsulas -- aferram-se ao dado de que a análise revelou a presença de traços de bário na amostra, o que consideram absurdo. O próprio Chierice afirma ter um laudo independente que contesta os resultados da Unicamp, mas até onde sei esse documento nunca veio a público: apenas alguns trechos foram citados num episódio do Programa do Ratinho, que está longe de ser um veículo de peer-review.



Em segundo lugar, acusam os químicos da Unicamp de não terem sido capazes de executar a receita corretamente, daí a discrepância. O "fosfo-folclore", ou "fosfolclore", reúne algumas pérolas a respeito -- uma delas é de que o erro de execução dos químicos da Unicamp produziu a contaminação por bário detectada na RMN. Deixando de lado o fato de que essa contaminação foi encontrada nas cápsulas encaminhadas por São Carlos, não no produto da tentativa de executar as instruções da patente, o bário é um elemento químico, que para ser "produzido" requer reações nucleares, não meras reações de síntese química. Outro folclore é o de que o pedido de patente tem um "pulo do gato" secreto, "como o da Coca-Cola", para evitar que o "segredo" seja roubado. 

Há dois problemas com essa hipótese: o primeiro é que não faz sentido omitir informações num pedido de patente. Se você patenteia uma receita sem sal, mas a receita verdadeira tem sal, você não patenteou a sua receita, e sim uma versão defeituosa dela: na prática, quem fizer a sua receita e, aí, acrescentar sal não vai estar violando a sua patente, porque não foi isso que você registrou. O segundo problema é que a Coca-Cola realmente preserva o segredo de sua receita -- e a forma que encontrou de fazer isso foi não patenteá-la

"Fosfo" da Unicamp e "fosfo" de Cravinhos

Já que a análise do conteúdo das cápsulas pelo LQOS mostrou que elas continham uma mistura de componentes diversos, e não fosfoetanolamina pura, como anunciado, o passo seguinte do grupo de trabalho do MCTI foi pedir à Unicamp que produzisse cada um dos materiais detectados separadamente, para que pudessem ser testados, um a um, contra o câncer.

Essa fosfoetanolamina pura é a tal "fosfo da Unicamp" cujos testes, in vitro, os defensores do pó de São Carlos consideram inválidos, por não se tratar do "produto legítimo". De acordo com o "fosfolclore", todos os testes com resultados ruins podem ser atribuídos ao uso da fosfo purificada, em oposição à mixórdia original. Como escrevi acima, é uma meia-verdade. Há resultados negativos obtidos com a "fosfo" pura da Unicamp, e há resultados bem decepcionantes obtidos com o material original de São Carlos, também, como mostra este relatório, por exemplo.

A diferença fundamental entre os testes realizados com a fosfoetanolamina purificada da Unicamp  e com a fosfoetanolamina "suja" originária de São Carlos é que, no segundo caso, detecta-se alguma atividade antitumoral, mas apenas em concentrações absurdamente elevadas e, ainda assim, com um efeito muito inferior ao dos quimioterápicos tradicionais. Parece haver um consenso entre os cientistas responsáveis pelos testes que esse efeito pode ser atribuído à presença do veneno monoetanolamina na mistura.

E quanto aos testes clínicos patrocinados pelo Estado de São Paulo? Eles estão utilizando "fosfoetanolamina" produzida por um laboratório de Cravinhos (SP) segundo a receita de São Carlos, e sob a supervisão de membros do grupo de São Carlos.

Dadas as incertezas quanto à eficácia da receita registrada no pedido e patente -- se produz, afinal, a fosfoetanolamina 90% alegada pelos inventores ou se a gororoba levemente tóxica obtida pela Unicamp --, seria interessante que houvesse um laudo independente apontando o que, exatamente, foi produzido e encapsulado, a fim de dirimir a dúvida de uma vez por todas. Mas nada nesse sentido foi apresentado ao público até agora, e é de se imaginar o por quê. Esperemos que os pacientes, pelo menos, saibam o que estão tomando.

Para completar o imbróglio, temos ainda a fosfoetanolamina paraguaia, contrabandeada e vendida para pessoas desesperadas. No fim, o substantivo "fosfoetanolamina" deixou de designar uma molécula orgânica específica e virou uma espécie de "abracadabra", uma palavra mágica lançada não sobre amuletos, como a invocação medieval, mas sobre cápsulas azuis e brancas. E, como no caso dos amuletos, cada vez mais se torna uma província de cultistas e espertalhões.