sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Internet nos anos 90: meninos, eu vi

Uma conversa rápida no Facebook me lembrou de que, ano passado, fez 20 anos que comecei a trabalhar com jornalismo na internet -- havia entrado para a equipe online da Agência Estado um pouco antes do início dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Cobrimos os jogos em "tempo real", ou o mais parecido com isso que era possível na época da conexão discada: pegar os resultados das modalidades pela TV ou nas agências internacionais, redigir os textos (curtos!), montá-los no editor HTML e passar pro pessoal da TI (que não chamava TI, e sim "informática") "subir" a edição no FTP -- isso é file transfer protocol pra vocês aí da geração nutella-banda larga. Fazíamos quatro edições por dia. Havia um debate acalorado sobre se valeria a pena fazer uma edição de madrugada (quem fica ligado no computador depois das dez da noite? povo não tem nada melhor pra fazer?).

[NOTA: Edmundo Leite me lembra de que, na verdade, a cobertura dos jogos de 96 teve um esquema especial que não requeria a edição prévia em HTML. Então, o processo que descrevi acima valia para as notícias sobre outros assuntos, mas não para o noticiário olímpico. A interface gráfica -- em que o jornalista copia o texto do Word e joga num formulário online, que faz a formatação do código automaticamente, como o sistema do blogger ou do Facebook -- só se generalizou em 1998, se não estou enganado...]



A cara do site era esta:


Aí fui fuçar no Web Archive e encontrei o que parece ser o mais antigo texto meu publicado online, ainda assinado com meu nome completo, antes, portanto, do editor Robson Pereira decidir que a versão curta, "Carlos Orsi", ficava melhor:


O título da seção, "Direto da Internet", é sintomático: numa época em que a web ainda era uma mídia de nicho, parte do trabalho envolvia apresentar às pessoas coisas legais que elas poderiam encontrar online. Eu fazia questão de incluir, pelo menos, um link por parágrafo. Se hoje uma das principais preocupações dos editores é evitar que as pessoas saiam de seus sites, naquele momento o objetivo era quase o oposto: mostrar para as pessoas que a web era um lugar interessante e que valia a pena passear por ela.

Um ano depois, o lay-out já era outro:



E como a internet era a "mídia do futuro", em 1997 criamos uma seção, chamada Ano 2000, sobre... o futuro! Esse virou um espaço que misturava futurismo e divulgação científica, e que acabei editando. Muita gente colaborava, mas abaixo vai um texto meu:


Já era um artigo cético, o que mostra que certas vocações nascem cedo. Hoje em dia é meio embaraçoso reler essas coisas, mas também não deixa de ser um constrangimento, até certo ponto, divertido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Trump contra a ciência

A comunidade científica dos Estados Unidos vinha prendendo a respiração, esperando pelo pior, desde o anúncio da vitória de Donald J. Trump na eleição para a Casa Branca. Já se sabia, afinal, que Trump é um negacionista do aquecimento global antropogênico e que seu vice, Michael Pence, não acredita no elo entre tabaco e câncer de pulmão. Após a cerimônia de posse, ficou claro que Sean Spicer, o assessor de imprensa da Casa Branca, não acredita em aritmética. O fato de jornalistas não terem perguntado aos membros da nova administração o que pensam a respeito da forma da Terra, de sua posição no espaço relativa ao Sol e, crucialmente, de que tipo de queijo a Lua é feita é, talvez, um ato de caridade para com o Partido Republicano.

Durante o período de transição, Trump logo confirmou os piores pesadelos de seus mais virulentos detratores dentro da comunidade científica. A lista de atrocidades é ampla, mas um exemplo: no início de janeiro, ainda presidente-eleito, convidou Robert Kennedy Jr., um proponente da tese – desacreditada – de que vacinas causam autismo, para encabeçar um comitê sobre “segurança das vacinações”. (Leia a íntegra deste artigo na Revista Amálgama)