sexta-feira, 18 de março de 2011

Messenger em órbita!

A sonda Messenger, da Nasa, entrou em órbita de Mercúrio na noite de ontem. Trata-se do primeiro objeto artificial a assumir uma órbita estável ao redor do menor planeta do Sistema Solar. Orbitar Mercúrio, a meros 46 milhões de quilômetros do Sol, é um desafio de desaceleração -- basicamente, a sonda precisa se livrar de toda a energia que ganhou ao mergulhar no fosso de gravidade do Sol.

(Para quem lê, ou lia, gibis da Marvel, parar na órbita de Mercúrio depois de fazer toda a trajetória na direção do Sol é mais ou menos como o Demolidor tentando se agarrar a um poste de luz depois de cair do alto do Empire State Building).

Por conta disso, a sonda vinha, desde 2007, realizando uma série de manobras na vizinhança de Mercúrio e do Sol para, basicamente, perder velocidade. Agora, em 2011, ela finalmente está voando devagar o suficiente para ficar aprisionada na órbita do planetinha. Antes da Messenger, Mercúrio só havia sido visitado por uma outra sonda, a Mariner 10, em 1975. A Mariner só havia conseguido fotografar metade da superfície do planeta.

Mercúrio é meio parecido com a Lua -- ao menos visualmente -- mas é um mundo cheio de características especiais: sendo o planeta mais próximo do Sol, a temperatura em sua superfície atinge picos de 427º C no lado iluminado e vales de -173º C no lado escuro.

(Para quem duvida do poder do CO2 como um gás do efeito estufa: Vênus, cuja atmosfera é dominada por dióxido de carbono e que fica duas vezes mais longe do Sol que Mercúrio, tem uma temperatura constante de 462º C -- estável, em toda a superfície.)

Durante muito tempo, imaginou-se que Mercúrio teria a rotação travada por efeito de maré: em outras palavras, que manteria sempre a mesma face voltada para o Sol, do mesmo jeito que a Lua sempre mostra a mesma face para a Terra. Hoje, sabe-se que não é bem assim: Mercúrio completa uma volta em torno do próprio eixo a cada 58 dias terrestres, e uma volta em torno do Sol a cada 88 dias terrestres -- ou seja, o ano dura mais ou menos um "dia mercuriano" e meio.

A composição desses dois movimentos, de rotação e translação, faz com que o "dia solar" de Mercúrio -- você pode pensar nisso como o intervalo entre dois meios-dias, como medidos por um relógio de Sol na superfície do planeta -- seja de quase 176 dias terrestres.

Mercúrio é basicamente uma bola de ferro: seu núcleo metálico corresponde a 75% do diâmetro total do planeta, que é de 5.000 km, ou 40% diâmetro da Terra.

Em vez de atmosfera, tem o que a Nasa chama de "exosfera", um tênue halo de átomos expelidos pelo impacto das partículas do vento solar. Além da Terra, Mercúrio é o único planeta sólido do Sistema Solar e ter um campo magnético global. O campo de Mercúrio interage de formas muito interessantes com o do Sol.

Uma curiosidade sobre Mercúrio é que, por convenção internacional, as crateras de Mercúrio recebem nomes de artistas e escritores. Ali há uma Cratera Camões, uma Byron, uma Brahms; Hemingway, Mark Twain e Gabriela Mistral também estão lá, bem como Proust, Shakespeare e Picasso.

As letras e artes brasileiras estão representadas pelas crateras Alencar (homenagem a José de Alencar, nome aprovado em 1979), com pujantes 105 km de diâmetro, e Amaral (homenagem a Tarsila do Amaral, nome aprovado em 2008), com 108 km de diâmetro. Abaixo, a localização da cratera Alencar, a leste de Chopin, sudeste de Shelley e sul de Michelangelo (clique para ampliar):

quarta-feira, 16 de março de 2011

E apresentando: o misoteísmo

Como se já não bastasse toda a confusão terminológica entre ateísmo forte, ateísmo fraco, agnosticismo, deísmo, etc., eis que mais um termo chega à ribalta: misoteísmo. Os leitores de inclinação etimológica certamente já detectaram o prefixo grego "miso", que significa odiar, detestar, ter aversão a, como um misantropo, misógino, misógamo. No caso, então, o misoteu, ou misoteísta, é alguém que tem ódio ou aversão a Deus.

O termo aparece na edição mais recente da revista Free Inquiry -- que alguém com um bom senso de humor já definiu como a "Família Cristã dos ateus" -- que traz uma resenha de um livro chamado Hating God, de Bernard Schweizer. O livro tem como subtítulo The Untold History of Misotheism,  ou "A História Não Contada do Misoteísmo".

(O mesmo número traz um ótimo artigo de Christopher Hitchens sobre a polêmica em torno da posição do papa Bento XVI quanto ao uso da camisinha, desencadeada por um livro publicado na Alemanha, e uma entrevista com o filósofo britânico Stephen Law.)

A tese de Schweizer -- um professor de literatura -- é a de que muitas pessoas, classificadas ao longo da história como ateias ou agnósticas, na verdade caberiam melhor na categoria dos misoteístas. A autora da resenha -- Joyce Salisbury,  uma historiadora -- levanta a suspeita de que o misoteísmo é uma postura mais comum entre personagens de ficção do que entre pessoas reais.

E, realmente, na literatura abundam os misoteístas, começando pela mulher de Jó (autora da única frase sensata de toda a narrativa, "Amaldiçoa a Deus e morre") e passando, claro, pelo Lúcifer de Milton.

A resenha me deixou curioso para ler o livro, e também me pôs a pensar sobre as bases filosóficas do misoteísmo. Que tipo de posição é essa? Imagino que a crença em Deus, tal como proposta pelas religiões monoteístas, implica a aceitação de três proposições:

1. Deus, entendido como um ser onipotente, onisciente e criador do Universo, existe;
2. Deus é bom e é a fonte de toda a lei moral;
3. Deus merece ser adorado e louvado por suas criaturas.

Os religiosos monoteístas argumentam (há séculos e de forma, a meu ver, não muito convincente) que, uma vez aceita a proposição "1", as proposições "2" e "3" decorrem necessariamente. O misoteísta discorda: ele aceita "1", mas acredita no oposto de "2" e "3".

Nesse aspecto, o misoteísmo é uma solução possível para o paradoxo de Epicuro ("Deus não acaba com o mal porque não pode ou porque é maligno") e, diante de tragédias como o recente terremoto  do Japão, soa até razoável.

Ele também oferece uma sofisticação moral que não vemos em muitos cultos religiosos, ao postular que o poder, mesmo o poder infinito, não justifica a adoração e não isenta de crítica. Se há uma ideia capaz de fazer tremer as bases do templo (qualquer templo) é esta. Provavelmente, foi numa tentativa de responder a esta ideia que o Livro de Jó foi escrito, com sua lamentável conclusão de "cale a boca que Eu te devolvo tudo".

Muitos teístas provavelmente consideram que os ateus na verdade são todos misoteístas (se não me engano, Bento XVI ou João Paulo II referiu-se ao ateísmo como uma "reação às injustiças do mundo" ou algo assim), mas tendo a concordar com a autora da resenha: o misoteísmo deve ser mais frequente na ficção que na vida real, já que seu potencial dramático pode muito facilmente levar à paranoia.

Mas, por outro lado, não é paranoia se realmente há Alguém tentando pegar você...

terça-feira, 15 de março de 2011

Uma versão matemática da 'fraude de Sokal'?

Acho que todo mundo já ouviu falar do "Caso Sokal": em 1996, o físico Alan Sokal, devidamente emputecido com o uso irracional e desonesto de conceitos tirados da Física e da Matemática pela tchurma do pós-modernismo acadêmico, enviou à revista Social Text um artigo cientificamente construído para não fazer o menor sentido -- e viu-o ser publicado sem ressalvas.

(Sokal publicou uma avaliação atual do impacto de seu golpe ano passado, no livro Beyond the Hoax: Science, Philosophy and Culture. Quem quiser uma olhada divertida -- ou trágica -- no tipo de bobagem contra a qual le se insurgiu pode começar com Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science e seguir para Fashionable Nonsense: Postmodern Intellectuals' Abuse of Science
onde se encontra, entre outras coisas, a patética tentativa de Jacques Lacan de usar números imaginários como metáfora para sabe-se lá o quê.)

Bom, algo semelhante parece ter acontecido no mundo da matemática: de acordo com o blog Retraction Watch, a revista Applied Mathematics Letters está se retratando -- isto é, declarando inválido -- um artigo que jamais deveria ter sido publicado.

Um matemático consultado pelo "Watch", é difícil dizer "o que é mais engraçado, o artigo ou a retratação". A análise, feita pelo matemático Ben Steinberg, revela que o artigo não se baseia em dados falsos ou tira conclusões inválidas -- os motivos, digamos, "honestos" para uma retratação -- mas simplesmente não faz sentido, do começo ao fim. Para começo de conversa, diz Steinberg, o artigo fala em "lados opostos" -- de uma esfera.

Teria a Applied Mathematics Letters sido vítima de uma fraude à la Sokal? De acordo com o "Retraction Watch", nem a revista e nem o autor do artigo impugnado (intitulado "Nova Teoria das Paralelas") quiseram comentar o caso.

O Kindle, eu e o livro no Brasil

Hoje faz uma semana que recebi meu Kindle, o que significa que já posso andar por aí com uma biblioteca móvel de 72 livros (os títulos que já comprei compatíveis com o aparelho) debaixo do braço. A tecnologia de leitura eletrônica desenvolvida pela Amazon.com já foi devidamente elogiada (e criticada) em espaços com muito mais competência para fazê-lo do que este blog, mas a chegada do Kindle me fez refletir sobre uma questão que já me havia ocorrido lá por volta de 1997, quando comecei a frequentar o site da Amazon: por que as editoras brasileiras me ignoram?

Não estou reclamando (agora) do fato de me ignorarem como autor. Mas, sim, do fato de me ignorarem como leitor. Fazendo um pouco de história econômica pessoal, até o advento do cartão de crédito internacional eu, não importa o quão mequetrefe fosse o meu emprego, sempre ganhava mais do que conseguia gastar: nunca dirigi automóvel, não tive (nem tenho) filhos, minha vida noturna era (e continua) modestíssima. Quando me casei, em 2000, consegui pagar à vista duas diárias num hotel de luxo de Lisboa, mesmo depois de todas as despesas da festa e da viagem, e recebendo salário de repórter.

Durante a última década, no entanto, algumas vezes o salário (já de editor), se não chegou a faltar, veio a parecer curto. Por quê? Livros. Para ser mais exato: livros importados. Talvez os frequentadores deste blog já tenham desconfiado do fato de que sou um leitor compulsivo. Agora, desempregado, minha média semanal de leitura chegou a dois ou três títulos.

Todo o dinheiro que, de 1997 a 2010, deixei de gastar em gasolina, mecânico, seguro, IPVA, fraldas, escola, bonequinho do Barney, tênis com luzinha, band-aid, etc., etc., foi investido em material de leitura. Em alguns momentos, cheguei a sentir uma ponta de culpa pelo déficit comercial brasileiro -- já que mais de 90% desse material veio do exterior.

E por que veio do exterior? Fundamentalmente, porque, salvo pouquíssimas exceções, o material publicado pelas editoras brasileiras não me interessa. Aqui estou eu, um viciado que gasta em livros o que outros viciados gastariam em crack, e a indústria editorial brasileira é incapaz de se beneficiar disso. E agora com o Kindle? Bye-bye, folks!

O problema, obviamente, não é meu, e sim dos caras que vivem de vender livro e que não conseguem vender pra mim -- o que é o equivalente a não conseguir vender coca-cola gelada no Saara. Mas fica a questão: por quê?

segunda-feira, 14 de março de 2011

Na superfície de Encélado..



Imagem feita pela sonda Cassini mostra detalhes da superfície gelada de Encélado, com os anéis de Saturno ao fundo. Dados levantados pela sonda nos últimos anos sugerem que Encélado pode ter grandes massas de água em estado líquido sob a superfície.

Matéria orgânica já foi  detectada nas plumas produzidas por gêiseres que irrompem do polo sul dessa lua, que tem 500 km de diâmetro e reflete de volta ao espaço praticamente 100% de toda a luz solar que recebe.

É mágica!

Talvez o assunto que mais me fascina, ao lado da ciência, seja a mágica -- mágica profissional, feita no palco ou na cara do freguês em bares e restaurantes (a chamada "close-up magic") por artistas que exploram os "bugs" cognitivos do cérebro humano para encantar e divertir.

Mágica é um campo de estudo fascinante, principalmente para a psicologia -- Richard Wiseman já escreveu até um livro sobre o assunto -- e agora a PLoS ONE traz um artigo sobre a "pegada mágica", ou como os mágicos fazem para dar a impressão de que estão segurando alguma coisa, quando na verdade suas mãos estão vazias (sim, você acha que ele ainda está segurando a moeda, quando na verdade ela já foi parar no bolso do fraque).

O paper, intitulado The Magic Grasp: Motor Expertise in Deception (A Pegada do Mágico: Expertise Motora na Enganação) pode ser lido gratuitamente aqui. Entre as principais conclusões do trabalho estão que (a) a maioria de nós, não-mágicos, somos péssimos para fingir ter alguma coisa na mão e (b) mesmo os mágicos são meio desajeitados quando tentam pegar um objeto imaginário quando não há um correspondente real dentro do campo de visão.

De acordo com os autores, isso indica que os sistemas do cérebro usados para coordenar ação e visão podem ser adestrados para funcionar de modo deslocado -- estou vendo a coisa ali, mas vou fingir que a estou pegando aqui -- mas que é muito mais difícil agir de forma convincente ignorando esses sistemas por completo. Ou, nas palavras dos autores:

"Sugerimos que a pantomima da ação de pegar, nos mágicos, é indistinguível das ações reais porque as mesmas transformações visuomotoras subjacentes são programadas usando a informação dos mesmos objetos reais."

Uma lição importante que o estudo da mágica traz é a de como nós, as pessoas em geral, superestimamos nossa capacidade de observação, e como o cérebro, escorado no hábito e na memória, simplesmente preenche as lacunas de nossas observações sem que tenhamos consciência disso.

É por isso, também, que a explicação de um truque de mágica tende a ser frustrante (exceto para os hobbistas, como eu). Na maioria das vezes, a solução do truque é: a coisa foi feita da forma mais prosaica possível, só que quando você estava distraído. Não é a mão que engana o olho. É a mente que, com uma ajudazinha do mágico, distrai o olho e engana a si mesma.

domingo, 13 de março de 2011

Desastre no Japão e oportunismo antinuclear

Há várias razões para questionar a opção pelo uso de energia nuclear -- para citar as duas que considero mais importantes, há o problema da destinação do lixo atômico e o do uso bélico da tecnologia -- mas o estado da instalação nuclear japonesa de Fukushima após o  terremoto-com-tsunami que atingiu o país não é uma delas, ao contrário do que algumas pessoas (incluindo gente que, por dever profissional, deveria saber melhor) andam dizendo.

Digo, se um meteorito gigante atingir a barragem de Itaipu e a inundação subsequente devastar Buenos Aires, isso será motivo para questionar a opção pela energia hidrelétrica? Quando um motorista sofre um ataque cardíaco ao volante, sobe na calçada e mata uma criança, isso nos leva a questionar a tecnologia do motor a explosão interna?

Quem aponta para Fukushima (que, tendo em vista a magnitude do tremor e do tsunami, está se aguentando muito bem, ao menos por enquanto) como sinal dos riscos da energia nuclear se esquece de que toda decisão humana implica riscos. É perfeitamente concebível que uma decisão diferente da adoção da fissão nuclear como fonte de energia tivesse riscos menores, ou mais aceitáveis, mas esse é o tipo de análise que tem de ser feita numa base caso-a-caso.

Usar Fukushima como um argumento genérico contra a opção nuclear me parece tão desonesto quanto culpar a gasolina pelas mortes por atropelamento.

(Para quem quiser saber mais sobre reatores de fissão, há uma boa postagem neste blog; e o físico Michio Kaku está acompanhando a situação de Fukushima, aqui. A imagem que ilustra a postagem veio daqui.)