É mágica!

Talvez o assunto que mais me fascina, ao lado da ciência, seja a mágica -- mágica profissional, feita no palco ou na cara do freguês em bares e restaurantes (a chamada "close-up magic") por artistas que exploram os "bugs" cognitivos do cérebro humano para encantar e divertir.

Mágica é um campo de estudo fascinante, principalmente para a psicologia -- Richard Wiseman já escreveu até um livro sobre o assunto -- e agora a PLoS ONE traz um artigo sobre a "pegada mágica", ou como os mágicos fazem para dar a impressão de que estão segurando alguma coisa, quando na verdade suas mãos estão vazias (sim, você acha que ele ainda está segurando a moeda, quando na verdade ela já foi parar no bolso do fraque).

O paper, intitulado The Magic Grasp: Motor Expertise in Deception (A Pegada do Mágico: Expertise Motora na Enganação) pode ser lido gratuitamente aqui. Entre as principais conclusões do trabalho estão que (a) a maioria de nós, não-mágicos, somos péssimos para fingir ter alguma coisa na mão e (b) mesmo os mágicos são meio desajeitados quando tentam pegar um objeto imaginário quando não há um correspondente real dentro do campo de visão.

De acordo com os autores, isso indica que os sistemas do cérebro usados para coordenar ação e visão podem ser adestrados para funcionar de modo deslocado -- estou vendo a coisa ali, mas vou fingir que a estou pegando aqui -- mas que é muito mais difícil agir de forma convincente ignorando esses sistemas por completo. Ou, nas palavras dos autores:

"Sugerimos que a pantomima da ação de pegar, nos mágicos, é indistinguível das ações reais porque as mesmas transformações visuomotoras subjacentes são programadas usando a informação dos mesmos objetos reais."

Uma lição importante que o estudo da mágica traz é a de como nós, as pessoas em geral, superestimamos nossa capacidade de observação, e como o cérebro, escorado no hábito e na memória, simplesmente preenche as lacunas de nossas observações sem que tenhamos consciência disso.

É por isso, também, que a explicação de um truque de mágica tende a ser frustrante (exceto para os hobbistas, como eu). Na maioria das vezes, a solução do truque é: a coisa foi feita da forma mais prosaica possível, só que quando você estava distraído. Não é a mão que engana o olho. É a mente que, com uma ajudazinha do mágico, distrai o olho e engana a si mesma.

Comentários

  1. Gostei da abordagem da psicologia, nos faz parecer menos bobos assistindo à ilusões.
    Por acaso, ontem à noite assisti uns vídeos linkados pelo Michael Shermer no twitter, e o mais incrível que achei foi do Lance Burton, usando "Sleight of hand". Fantástico! http://www.youtube.com/watch?v=wdnl3eaPspQ

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