O Kindle, eu e o livro no Brasil

Hoje faz uma semana que recebi meu Kindle, o que significa que já posso andar por aí com uma biblioteca móvel de 72 livros (os títulos que já comprei compatíveis com o aparelho) debaixo do braço. A tecnologia de leitura eletrônica desenvolvida pela Amazon.com já foi devidamente elogiada (e criticada) em espaços com muito mais competência para fazê-lo do que este blog, mas a chegada do Kindle me fez refletir sobre uma questão que já me havia ocorrido lá por volta de 1997, quando comecei a frequentar o site da Amazon: por que as editoras brasileiras me ignoram?

Não estou reclamando (agora) do fato de me ignorarem como autor. Mas, sim, do fato de me ignorarem como leitor. Fazendo um pouco de história econômica pessoal, até o advento do cartão de crédito internacional eu, não importa o quão mequetrefe fosse o meu emprego, sempre ganhava mais do que conseguia gastar: nunca dirigi automóvel, não tive (nem tenho) filhos, minha vida noturna era (e continua) modestíssima. Quando me casei, em 2000, consegui pagar à vista duas diárias num hotel de luxo de Lisboa, mesmo depois de todas as despesas da festa e da viagem, e recebendo salário de repórter.

Durante a última década, no entanto, algumas vezes o salário (já de editor), se não chegou a faltar, veio a parecer curto. Por quê? Livros. Para ser mais exato: livros importados. Talvez os frequentadores deste blog já tenham desconfiado do fato de que sou um leitor compulsivo. Agora, desempregado, minha média semanal de leitura chegou a dois ou três títulos.

Todo o dinheiro que, de 1997 a 2010, deixei de gastar em gasolina, mecânico, seguro, IPVA, fraldas, escola, bonequinho do Barney, tênis com luzinha, band-aid, etc., etc., foi investido em material de leitura. Em alguns momentos, cheguei a sentir uma ponta de culpa pelo déficit comercial brasileiro -- já que mais de 90% desse material veio do exterior.

E por que veio do exterior? Fundamentalmente, porque, salvo pouquíssimas exceções, o material publicado pelas editoras brasileiras não me interessa. Aqui estou eu, um viciado que gasta em livros o que outros viciados gastariam em crack, e a indústria editorial brasileira é incapaz de se beneficiar disso. E agora com o Kindle? Bye-bye, folks!

O problema, obviamente, não é meu, e sim dos caras que vivem de vender livro e que não conseguem vender pra mim -- o que é o equivalente a não conseguir vender coca-cola gelada no Saara. Mas fica a questão: por quê?

Comentários

  1. Você ja escutou o nerdcast do blog Jovem Nerd?

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  2. O meu marido também partilha da sua avaliação. Ele comprou um Kindle no mês passado e ficou chocado em ver que as editoras brasileiras chegam a cobrar até R$ 100 por um e-book!!!! E a média é de R$ 30, um absurdo, o mesmo preço de um livro normal.

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  3. Olá Carlos, como vai? Estou montando um blog sobre o kindle, onde postarei novidades, notícias e o que mais aparecer sobre o leitor de e-books da amazon. Se importaria se eu postasse seu artigo no meu blog?
    O endereço é http://brasilkindle.blogspot.com mas está apenas començando.
    Um abraço!
    Renê Fernandes

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  4. Ola Carlos...Nao sabia que nao tinha filhos. Como bom cientista e imagino, "Darwiniano", seria uma pena nao deixar um sucessor, ja que muita gente menos brilhante tem inundado o mundo com seus genes. Penso que uma personalidade com o calibre da sua visao prestaria um grande serviço educando uma, ou umas crianças. É gratificante, acredite.

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