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Mostrando postagens de Maio 20, 2012

The Dragon has landed!

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Bom, não exatamente "landed", mas a cápsula Dragon, criada pela companhia SpaceX, acaba de se ligar à Estação Espacial Internacional (ISS). Trata-se da primeira atracagem de um veículo privado à Estação, e de uma grande vitória para o plano do presidente Obama de liberar a Nasa da tarefa de abastecer a órbita terrestre, permitindo, assim, que a agência de concentre em objetivos mais ambiciosos. A Dragon que fez o aporte histórico desta sexta-feira transporta apenas carga, mas a cápsula pode, em tese, ser reconfigurada para levar astronautas. "Pegamos um dragão pelo rabo", disse um dos astronautas, quando a manobra de captura da cápsula pelo braço robótico da ISS foi completada. Escrevi mais longamente sobre o contexto histórico e tecnológico da missão aqui , mas só para constar: este é o "momento Sputnik" da iniciativa privada. Cabe, agora, aguardar o "momento Gagárin".

Julgando revelações, ao estilo do Vaticano

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Revelações e aparições místicas são filosoficamente interessantes porque levantam, pelo menos, duas questões espinhosas: a primeira é o abismo entre experiência e narrativa -- a pessoa que tem a revelação sente alguma coisa e depois descreve aquilo que sentiu como, digamos, "Deus falou comigo", mas fica em aberto a questão, o que é isso que se descreve como "Deus falando?" O que a pessoa realmente sentiu, afinal? Em poucas situações os limites da linguagem são tão claros (e tão frustrantes). Por exemplo, quando Paulo escreve, na Segunda Carta aos Coríntios , que foi "arrebatado ao paraíso, e lá ouviu palavras inefáveis", ele está descrevendo o quê, exatamente? O vácuo entre fato e relato leva algumas pessoas a imaginar que toda experiência mística é essencialmente a mesma, e que apenas as descrições variam, por conta do contexto cultural do visionário. Esse essencialismo tem defensores tanto entre os místicos (que encaram o suposto núcleo comum da

Abuso sexual e as armadilhas da memória

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Juro que no domingo à noite eu estava assistindo à primeira temporada de The Office no Netflix, mas o tal depoimento da Xuxa ao Fantástico é um daqueles eventos de mídia de que não há como escapar: seja pelo comentário no rádio, a nota no jornal, o bafafá nas redes sociais. Então, pelo que depreendi, ela disse ter sofrido abuso sexual na infância . Ao que se seguiu, compreensivelmente, o coro de "é importante vir a público", "é importante denunciar", a "palavra da vítima tem grande valor", etc., etc. O que, é óbvio, está muito certo. Se a vítima não fala, a pedofilia tende a ficar impune. Afinal, crimes desse tipo geralmente são cometidos em situações de privacidade e mantidos em segredo. E o problema é bem real: de acordo com estudo publicado em 2006 pela ONU, em todo o mundo  7% dos meninos e 14% das meninas menores de 18 anos sofrem algum tipo de abuso sexual. Em números absolutos, isso é um tanto de gente maior que a população do Brasil. Só de cr

O voo do Dragão

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O título desta postagem é idêntico, se não me engano, ao do filme em que Bruce Lee mói Chuck Norris de porrada no Coliseu de Roma, mas não é disso que vou tratar hoje, e sim do lançamento bem-sucedido da cápsula Dragon, a bordo de um foguete Falcon 9, ocorrido durante a madrugada. Se, nos próximos dias, a missão Dragon  se completar também com sucesso, estaremos assistindo a um feito histórico. Caso a Dragon realmente chegue a se acoplar à Estação Espacial Internacional (ISS) no fim de semana, existirão cinco entidades, em todo o Universo, com a capacidade tecnológica necessária para a acessar o único posto orbital tripulado da Terra: os governos russo, americano e japonês, a União Europeia e uma empresa privada . Tanto a Dragon quanto o foguete Falcon são produtos de uma companhia particular, a SpaceX, e o lançamento se encaixa na visão do presidente Barack Obama de "privatizar", ou "terceirizar", o acesso humano à órbita terrestre. Embora a Dragon que ent

Mais alguns correlatos sociais da religiosidade

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Semana passada, por conta desta postagem , acabei montando uma planilha no Google Docs com a taxa de religiosidade de mais de uma centena de países, tal como apurada numa pesquisa Gallup feita na segunda metade da década passada, e com as taxas de homicídio intencional desses mesmos países, segundo levantamento do jornal britânico The Guardian .  Isso permitiu concluir que os países onde 50%, ou mais, da população considera a religião importante têm, em média, três vezes mais assassinatos que países onde menos de 50% da população leva a religião a sério. Agora, já tendo organizado a coisa toda desse jeito, me parece uma pena não explorar um pouco mais esses dados, e compará-los a outros: PIB e IDH me pareceram as escolhas óbvias, e é deles que tratarei nesta postagem. Antes, porém, vale a pena citar algumas limitações. A principal ausência -- são 138 países, ante 187 que costumam aparecer nas listagens de órgãos da ONU -- é o Reino Unido (os números do Guardian, baseados no UN Da