Abuso sexual e as armadilhas da memória

Juro que no domingo à noite eu estava assistindo à primeira temporada de The Office no Netflix, mas o tal depoimento da Xuxa ao Fantástico é um daqueles eventos de mídia de que não há como escapar: seja pelo comentário no rádio, a nota no jornal, o bafafá nas redes sociais. Então, pelo que depreendi, ela disse ter sofrido abuso sexual na infância. Ao que se seguiu, compreensivelmente, o coro de "é importante vir a público", "é importante denunciar", a "palavra da vítima tem grande valor", etc., etc.

O que, é óbvio, está muito certo. Se a vítima não fala, a pedofilia tende a ficar impune. Afinal, crimes desse tipo geralmente são cometidos em situações de privacidade e mantidos em segredo. E o problema é bem real: de acordo com estudo publicado em 2006 pela ONU, em todo o mundo 7% dos meninos e 14% das meninas menores de 18 anos sofrem algum tipo de abuso sexual. Em números absolutos, isso é um tanto de gente maior que a população do Brasil. Só de crianças. Vitimadas.

Mas -- sei que é chato, isso, esse negócio de "mas" -- é preciso tomar cuidado para não transformar um objetivo importante e essencial numa cruzada, numa caça às bruxas. Porque crianças são sugestionáveis, e memórias da infância, quando evocadas por adultos, são facilmente distorcidas e confabuladas.

Um exemplo dramático de sugestionamento infantil é o caso do Pânico Satanista que varreu os Estados Unidos no início dos anos 80, segundo o qual crianças estariam sendo molestadas em rituais praticados por professores e pais que seriam, secretamente, adoradores do diabo. Em alguns casos, crianças simplesmente passaram a inventar histórias para agradar aos investigadores -- intuindo que eles queriam ouvir, deixando-se conduzir pelas perguntas carregadas de insinuações. A possibilidade de um caso de grande repercussão, ou uma mera suspeita, gerar histeria em massa, com supostas "vítimas" pescando detalhes dos relatos de outras, não deve ser menosprezada.

Como diz um relatório do FBI, assinado pelo especialista Kenneth Lanning:

"Crianças raramente mentem sobre abuso ou exploração sexual, se uma mentira for definida como uma afirmação feita com o propósito deliberado e malicioso de enganar. O problema é a supersimplificação da afirmação. Só porque a criança não está mentindo, isso não significa necessariamente que a criança esteja contando a verdade. Creio que, na maioria dos casos, a vítima não está mentindo. Está relatando que acredita ter acontecido".


O que nos traz à questão das falsas memórias em geral, incluindo as da infância que às vezes surgem na mente dos adultos. Um exemplo clássico é o do psicólogo Jean Piaget, que tinha uma memória claríssima de quase ter sido sequestrado quando criança -- incluindo a luta corporal de sua babá com o bandido, e o corte do uniforme do policial que o salvou. Anos depois, porém, a babá confessou que havia inventado tudo. Como Piaget escreveu: "Devo ter, portanto, enquanto criança, ouvido a narração da história... e projetado isso no passado sob a forma de memória visual, que eram uma memória de uma memória, mas falsa".

O próprio Freud já havia notado que muitas memórias adultas de abuso infantil "eram apenas fantasias que meus pacientes inventavam ou que eu, talvez, tenha imposto a eles". Se o arcabouço teórico que Freud desenvolveu a partir daí -- o do Complexo de Édipo -- é altamente questionável, o dado empírico em si, de que memórias, principalmente da infância, podem ser, na verdade, fruto de fantasia, confirmou-se inúmeras vezes nas décadas seguintes.

Mais recentemente, experimentos conduzidos pela psicóloga americana Elizabeth Loftus  demonstraram que é relativamente simples implantar falsas memórias da infância em adultos, por meio de sugestão. Em um caso, a memória implantada foi a de haver encontrado o Pernalonga na Disneylândia.

Tudo isso quer dizer que, diante de uma acusação de abuso sexual infantil, a dicotomia que automaticamente surge -- ou a suposta vítima é uma mentirosa sem-vergonha, ou o acusado é um monstro pedófilo -- não é necessariamente verdadeira.

Parafraseando o especialista do FBI, quando as pessoas decidem acreditar em algo que só afeta a elas mesmas, qualquer crença é perfeitamente legítima. Mas quando a crença passa a ter efeitos sociais, jurídicos e econômicos, envolvendo até mesmo opróbio e privação de direitos, é preciso ter cautela, manter a cabeça no lugar... E realizar uma investigação competente, sem histeria e sem conclusões preestabelecidas.

Comentários

  1. Parabéns. Você é o primeiro a refletir de maneira neutra o discurso de Xuxa Meneghel sobre os abusos que disse ter sofrido na infância.

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  2. Um espetáculo a descrição, claro ao meu ver. Eu tenho experiencia com essa situação, fiquei surpresa por reconhecer, por admitir que é um capricho ou "fantasia" minha. É certo que esse é o primeiro passo.

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  3. Que texto "genial" .... Agora posso perdoar a pessoa que abusou de mim na infância pois sei que todos essas memórias que tenho são pura imaginação de uma criança. . Ah vá se lascar.... É torço para que nenhuma criança da sua família seja abusada sexualmente, ou melhor, supostamente abusada....Mané

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  4. Concordo Regiane Magalhaes.
    Deveriam estar mais preoculpado com os problemas psiocologicos que o abuso traz para nós.Babacas

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