sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os segredos da tigelinha budista de meditação

Que transubstanciação, que nada: impressionante mesmo é a tigelinha budista, que canta e ferve quando é esfregada, como se vê no vídeo abaixo:



"Impreessionante", claro, não quer dizer "milagroso". Cientistas estão estudando em detalhes as propriedades dessas tigelas, que podem ser vistas como sinos e cobre que entram em ressonância quando goleados ou esfregados.

Em trabalho descrito na revista Nonlinearity, pesquisadores usaram alto-falantes para emitir sons nas frequências de ressonância de cinco tigelas do século V. À medida que o volume aumenta, ondas se formam na superfície da água e colidem entre si, espirrando gotas levando à aparência de "fervura".

Neste link, tambpewm disponível no site ScienceNow, há um vídeo em close da superfície da água.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

No mundo da Lua

A sonda LRO, da Nasa, é u,ma espécie de órfã: ela foi lançada quando a Nasa ainda estava sob a diretriz do governo Bush, de preparar um retorno humano à Lua. Ela está equipada para mapear a superfície lunar em detalhes, em busca de um local adequado de pouso (e tomou parte na épica descoberta de reservas de água no polo sul do satélite).

Criada como precursora de uma missão que acabou cancelada, a LRO, no entanto, continua a produzir imagens fantásticas da Lua. Abaixo, duas da cratera de Tycho, batizada em homenagem a Tycho Brahe, astrônomo que preparou o caminho para as descobertas que Kepler faria mais tarde.


Essa aí em cima é uma panorâmica da cratera; a de baixo é um close do morrinho que aparece no centro da depressão:


Tycho tem 82 km de diâmetro, e o pico central tem 2 km de altitude. A distância da borda ao fundo da cratera é de quase 5 km.

O rosto que lançou mil naus ao mar...

O título desta postagem é um verso do dramaturgo britânico Christopher Marlowe -- que teve a cósmica má-sorte (para um escritor de teatro) de ser contemporâneo de Shakespeare -- sobre Helena de Troia. De toda a tradicional história da Guerra de Troia, talvez o ponto mais inverossímil, para ouvidos modernos, seja a causa atribuída ao conflito: a fuga de uma mulher casada, Helena, com o amante, o príncipe Páris (o casal que ilustra esta postagem aliás).

No entanto, uma pesquisa recente dá ao casus belli Helena-Páris um novo sopro de plausibilidade: parece que, de fato, a visão de uma mulher bonita torna os homens mais violentos, fanfarrões, destemidos... e propensos à guerra.

Descrito em matéria da revista Scientific American, o estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Chinesa de Hong Kong, mostrou imagens de mulheres a homens e avaliou como a exibição das fotos afetava o grau de concordância do macho da espécie com frases belicosas.

Houve uma correlação estatisticamente significante entre a visão de mulheres bonitas e a concordância com os lemas guerreiros; já as fotos de mulheres feias (tratadas no texto, educadamente, como "não atraentes") não aumentaram a valentia de ninguém.

(Pensando bem, a última vez em que quase me meti em pugilato, lá nas trevas primordiais da adolescência, foi por por causa de uma menina. Que, de acordo não só com minha opinião pessoal, mas também agora com a ciência, era de fato muito bonita...)

Mulheres não se sentiram mais belicosas ao ver fotos de homens, fossem eles lindos ou nem tanto.

Antes de inspirar o estudo chinês (o "abstract" pode ser lido aqui) o verso de Marlowe levara Isaac Asimov a propor uma unidade para medir beleza feminina, o "mili-helena": a quantidade de formosura necessária para lançar uma nau ao mar!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Explosão populacional em Ruanda, na Nature

Este é o tipo de notícia que surpreende por demonstrar a enorme capacidade de resistência da humanidade como espécie – e que entristece ao pôr em evidência a capacidade, aparentemente ainda maior, do ser humano para cavar a própria cova: 17 anos após ser palco de um genocídio que matou 800.000 pessoas, a nação africana de Ruanda vive um boom econômico – ameaçado, no entanto, pela explosão populacional.

É o que diz um comentário publicado nesta semana na revista Nature, que traz um dossiê especial sobre a África. De acordo com o artigo, Ruanda tem uma população de mais de 11 milhões de habitantes numa área menor que a da Bélgica, e uma das 20 maiores taxas de natalidade do mundo: na zona rural as mulheres têm, em média, 6,3 filhos; nas áreas urbanas, 4,9. Oitenta por cento da população do país é rural, e a típica família camponesa de oito pessoas geralmente vive numa área de meio hectare.

A explosão populacional ameaça a principal indústria do país, o turismo: a falta de terra arável para o crescente número de habitantes leva à devastação dos parques e à caça ilegal.

Levar políticas de planejamento familiar à população é uma tarefa complicada, dizem os autores do comentário – o especialista em saúde pública Josh Ruxin e Antoinette Habinshuti, vice-diretora para Ruanda da organização Partners in Health – por questões culturais, políticas e, adivinhe só, religiosas.

“A Igreja Católica administra cerca de metade dos centros de saúde do país e se recusa a oferecer anticoncepcionais, até mesmo a homens portadores de HIV”, escrevem ou autores, acrescentando que grupos internacionais de ajuda humanitária evitam incluir programas de planejamento familiar em seus pacotes de apoio a Ruanda para evitar polêmicas com... adivinhe só. Pois é.

A despeito disso, “alguns programas governamentais chegaram a montar centros de planejamento familiar junto às portas das instalações católicas”.

Em 2008, o Tribunal Penal Internacional condenou o padre católico Athanase Seromba à prisão perpétua por seu papel no genocídio de 1994. Seromba foi acusado de comandar o assassinato de 1.500 pessoas da etnia tutsi.

Em 2001, duas freiras beneditinas tinham sido condenadas, na Bélgica, por auxiliar no massacre de um grupo de refugiados que havia se escondido da turba na garagem do convento.

Quando da condenação, o Vaticano solidarizou-se com as duas – o porta-voz do papa João Paulo II, Joaquín Navarro-Valls, manifestou “surpresa” ao ver uma culpa tão grande “lançada sobre os ombros de tão poucos”.

A posição oficial de João Paulo II quanto ao papel de religiosos católicos no genocídio foi a de que a Igreja não pode ser responsabilizada pelos crimes de seus membros, mas que os criminosos deveriam ser punidos.

É apenas justo notar que outras denominações cristãs também desempenharam um papel terrível no genocídio. Um pastor da Assembleia de Deus, Elizaphan Ntakirutimana, foi considerado culpado de cumplicidade no massacre pelo Tribunal Internacional. E um bispo anglicano, Samuel Musabyimana, morreu sob custódia, aguardando julgamento.

Mas também é justo notar que, antes do genocídio, Ruanda era considerada “a mais cristã das nações da África”, com uma população de 50% de católicos e 12% de protestantes. Tanta cristandade não ajudou os ruandeses a evitar a tragédia de 94. E parece que é o maior obstáculo aos esforços de se evitar uma nova.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Aventuras Secretas de Sherlock Holmes

Quando Arthur Conan Doyle anunciou, na década de 20 do século passado, que não escreveria mais histórias de Sherlock Holmes, o então jovem americano August Derleth pediu permissão para levar o personagem adiante. Autorização negada, Derleth partiu para criar seu próprio detetive londrino, Solar Pons.

Nos quase 100 anos desde o fechamento do cânone sherlockiano, muitos outros autores, das mais diversas partes do mundo, sentiram a mesma tentação que se apossara de Derleth -- e, com a entrada da criação de Conan Doyle em domínio público, pedir permissão deixou de ser uma necessidade.
A safra brasileira nessa linhagem específica era bastante mirrada -- os frutos mais conhecidos são O Relógio Belisário, de José J. Veiga, e O Xangô de Baker Street, de Jô Soares. 

Mas agora isso vai mudar: a Editora Draco anunciou o lançamento, em sua "temporada 2011/2012", da coletânea de contos Sherlock Holmes - Aventuras Secretas, organizado por mim e por Marcelo Galvão.
Com trabalhos de Octavio Aragão (expandindo o conto apresentado na coletânea Ficção de Polpa: Crime!, da Não Editora), Alexandre Mandarino, Rosana Rios, Cirilo Lemos, Lúcio Manfredi e Romeu Martins, além de um conto de cada um dos organizadores, Aventuras Secretas expande o universo sherlockiano, aprofundando o olhar brasileiro sobre o personagem, seu criador e seu lugar na história.
Os contos vão desde mistérios ao estilo vitoriano à investigação de o que poderia ter acontecido se Holmes e Watson jamais tivessem ido morar juntos, passando pela última aventura de Holmes e a revelação de o que, afinal, o detetive conversou com o dalai-lama em sua visita ao Tibete.

O livro, projeto nascido de uma ideia original de Octavio Aragão, também marca a primeira iniciativa "oficial" do grupo de entusiastas sherlockianos Isadora Klein Amateur Mendicant Society (ou IKS, para encurtar).

E prova que, no mundo de hoje, é mais fácil organizar e publicar uma coletânea de contos de primeira linha do que reunir um grupo de amigos para tomar vinho e discutir literatura -- o principal objetivo estatutário da IKS, que continua sem ser atingido.
Mas temos esperanças: quem sabe, no lançamento? Esperamos vocês lá!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Livro dos Milagres vem aí!

Quem acompanha este blog há mais tempo sabe que dediquei os primeiros meses deste ano a escrever uma obra de não-ficção, O Livro dos Milagres -- uma mistura de ensaio, reportagem e divulgação científica sobre, como o título diz, eventos supostamente "milagrosos". Alguns excertos da obra até já deram as caras por aqui (por exemplo, nesta postagem e nesta outra).

É com inegável orgulho, portanto, que anuncio que assinei, neste fim de semana, o contrato para publicação da obra! Ela até já aparece na página de próximos lançamentos da editora Vieira & Lent. Esperamos (a editora e eu) vê-lo publicado em outubro. O índice de capítulos é este aqui:


1. O problema dos milagres
2. Abrindo o Mar Vermelho
3. Visões e êxtases
4. O nascimento virgem
5. Ressurreição
6. O Sudário de Turim
7. Relíquias de sangue
8. Aparições de Maria
9. O fenômeno de Lourdes
10. Aparições e segredos em Fátima
11. Padre Pio e seus estigmas
12. O poder da oração
13. Falando em línguas
14. Cura pela fé
15. Milagres pagãos
16. Possessão demoníaca
Posfácio: Mas você tem certeza?


E os assuntos tratados vão da entomologia forense à psiquiatria, passando por história, mitologia, arqueologia, astronomia, ocultismo, filosofia, neurociência e literatura. A editora me disse que se trata de um livro "corajoso", e talvez até seja -- mas não deveria, de fato.

Não há uma só linha de pequisa científica original em todo o livro: só o que ele faz é coligir e apresentar fatos que estão em domínio público há décadas (em alguns casos, como a denúncia da natureza fraudulenta do Sudário de Turim, há séculos) mas que, por alguma razão, ainda são considerados "chocantes" ou "surpreendentes" pelo senso comum.

Em meus 20 anos de jornalismo, desenvolvi uma profunda antipatia por um tipo de conteúdo -- muito comum em livros e, infelizmente, cada vez mais frequente em canais de TV por assinatura que teoricamente se dedicam a "divulgar ciência" -- que pode ser chamado de "feira de mistérios", que consiste em insinuar soluções sobrenaturais para questões que, muitas das quais, já foram satisfatoriamente respondidas por meios perfeitamente prosaicos, como a imortal "quem construiu as pirâmides?" (resposta: os egípcios).

O Livro dos Milagres é uma tentativa de transformar essa irritação em algo construtivo. Sei que será a proverbial gota no oceano, mas estou muito entusiasmado em ver o projeto ganhar corpo. E espero que vocês gostem de lê-lo -- afinal, agora preciso dar um jeito de financiar meu próximo livro.