sexta-feira, 28 de junho de 2013

Reforma política: palpite do Nobel

Já que se está falando tanto em mudança no sistema de eleição parlamentar no Brasil, acho que vale a pena compartilhar o que ouvi, lá nos idos de 2010, do ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007 Roger Myerson, que estava fazendo um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos).

De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só aí, preenchidos pelos candidatos, de acordo com a escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do eleito: seu voto pode acabar pondo no Parlamento alguém em quem você jamais votaria. Segundo, porque induz o candidato a buscar "clientelas", ou rebanhos de votantes cativos -- o que leva à formação de coisas como bancada evangélica, bancada ruralista, etc.

O "primeiro sistema pior possível", de acordo com Myerson, seria o de eleição proporcional por lista fechada (o mesmo que os defensores do financiamento público exclusivo andam propalando, pelo que vejo por aí). Isso porque, nesse caso, o candidato não teria incentivo nenhum para agradar ao eleitor, seja o independente ou o que faça parte de um "rebanho": se o que importa é estar no topo da lista definida pelo comando do partido, então o negócio é colar bem firme na genitália externa dos caciques, e o povo que se dane.

 Claro que sempre dá para interpretar as "clientelas" políticas criadas pelo sistema atual como sendo "grupos de pressão legítimos". É o que os defensores do voto proporcional aberto geralmente fazem: com o voto distrital puro, quem iria representar os interesses mais gerais das mulheres, dos negros, dos gays, dos sem-terra, no Congresso?

Também é preciso chamar a atenção para as distorções a que o sistema distrital é vulnerável, como o desenho perverso de distritos onde grupos populacionais importantes, como as periferias pobres, sejam sempre subrepresentados e, portanto, se vejam incapazes de eleger representantes.

Mas me parece que anda faltando uma análise do sistema político nos termos propostos por Myerson, de teoria dos jogos e estrutura de incentivo: o político que almeja o poder olha para a lei eleitoral como um atleta profissional olha para as regras de seu esporte: em busca da melhor forma de explorá-las, e de manipulá-las a seu favor.

Não adianta ficar berrando que queremos gente honrada, com visão do bem comum, etc., se as regras não ajudarem gente assim a conquistar a vitória. Se elas favorecem celebridades ocas, traficantes de favores ou puxa-sacos de caciques, são essas pessoas que, no fim, acabarão eleitas.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Teorias da conspiração

A reportagem de capa da Galileu de julho é de minha lavra (ainda se usa isso, "minha lavra"?), e trata de teorias da conspiração. Além de apresentar e explicar dez das teorias mais populares no mundo atual -- dos reptoides de David Icke ao Climategate -- também discuto um pouco da psicologia por trás das formulações conspiratórias e, algo especialmente relevante no Brasil atual, dos efeitos sociais que essas teorias têm quando ganham livre curso na sociedade.

Teorias da conspiração são daninhas porque corroem as ferramentas fundamentais da democracia, que são a negociação e o diálogo. Se o "outro" é um conspirador, então nada do que ele diz é verdade e suas intenções não são realmente as que ele apresenta: a única forma de lidar com ele é pelo confronto.

Ao eliminar a possibilidade  de discordância honesta, a visão conspiratória divide os adversários em inimigos e inocentes úteis, com quem não tem conversa respeitosa, mas apenas ódio (para os primeiros) e desprezo (para os segundos). É por isso que toda vez que ouço alguém falar em "PiG" ou "Ditadura Gayzista", sinto um frio na espinha.

Da obra de Michael Shermer (que também me concedeu uma breve entrevista por e-mail), saem algumas dicas para distinguir conspirações reais -- que existem, e também prejudicam a sociedade -- das formulações fantasiosas.

Enfim: como já deve ter dito algum publicitário por aí, mais informação nas bancas!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mestre Richard Matheson, lenda

Richard Matheson, que morreu no fim de semana, é, dependendo do tipo de relação que se mantém com o mundo da ficção científica literária, do cinema e da televisão, ou o escritor mais importante de quem você nunca ouviu falar, ou uma lenda, uma assombração.

No primeiro caso, você é apenas um consumidor eventual desse tipo de coisa -- alguém que lê um trabalho aqui, outro acolá, acompanha esta série ou aquela outra, este ou aquele filme, sem muito interesse. Se é assim, talvez não saiba que praticamente todas as ideias legais que nos últimos 50 anos viraram clichês, da ocupação da Terra por mortos-vivos à visita de casas mal-assombradas por caçadores de fantasmas high-tech nasceram em obras de Richard Matheson. Ao lado de HP Lovecraft, Matheson é o grande arquiteto do inconsciente coletivo da narrativa pop norte-americana (e, por extensão, mundial).

No segundo caso, você é alguém que tem um interesse mais profundo por essas coisas -- séries de TV, filmes, livros de aventura, vampiros e fantasmas -- e já notou que, nove em cada dez vezes que algum episódio, alguma história, realmente lhe chama a atenção, desperta uma fagulha, balança a zona de conforto o suficiente para que você se dê ao trabalho de puxar o fio da meada -- quem escreveu isso? de onde veio essa ideia? inspirada por quem? -- cedo ou tarde (um número surpreendente de vezes, bem cedo) o fio passa por Richard Matheson.

Ele foi o roteirista dos filmes de terror de Roger Corman estrelados por Vincent Price, baseados na obra de Edgar Allan Poe. Foi o autor dos melhores episódios de Além da Imaginação, além de ter criado a narração com que Rod Serling abria a série ("Você está entrando num mundo..."). Também escreveu o que talvez tenha sido a mais enxuta e bem-resolvida (em termos de roteiro) adaptação audiovisual de Drácula, estrelada por Jack Palance. Sua obra inspirou o primeiro longa-metragem de Steven Spielberg, Encurralado, além de inúmeros outros filmes, como O Incrível Homem Que Encolheu,  Em Algum Lugar do Passado e o recente Gigantes de Aço, com Hugh Jackman.

Seu romance I Am Legend, de 1954, é a base, não só de toda a indústria de "invasões de zumbis" que se seguiu, como também de todas as histórias envolvendo "vampiros científicos" -- as tentativas de reinterpretar o mito do vampirismo sob um prisma de ficção científica (um vírus, uma mutação genética, etc.).

Outro romance seu, Hell House (1971), fez o mesmo pela casa mal-assombrada, traduzindo os tropos do terror espiritualista em termos de ficção científica. Talvez a primeira história em que um grupo de "caçadores de fantasmas científicos" tenta exorcizar uma casa amaldiçoada seja o romance The Haunting of Hill Hose (1959), de Shirley Jackson, mas o livro e Matheson é mais visceral e, também, mais tecnológico.

A visceralidade talvez seja o aspecto da obra de Matheson que mais se perdeu nas diversas transposições do literário para o cinematográfico. Isso fica bem claro em O Incrível Homem que Encolheu, onde o filme de Jack Arnold, de 1957, mesmo sendo uma obra fantástica, não toca na angústia sentida pelo protagonista por conta de sua castração, progressiva e inevitável, trazida pelo encolhimento geral do corpo. E quem assistiu a outra adaptação, Amor Além da Vida, sabe como o filme é edulcorado.

O texto de Matheson é muito mais cruel do que as adaptações cinematográficas romantizadas. Um bom exemplo de seu estilo é o conto Born of Man and Woman, que também tem várias das características que depois iriam se tornar marcas registradas das séries de TV em que ele se envolveu, como Além da Imaginação.

Lembro-me de ter lido uma entrevista de Matheson, nos anos 90, em que ele contava a briga que tinha sido convencer seu editor a manter o título do romance I Am Legend ("Eu Sou Lenda"), em vez de I Am a Legend ("Eu Sou uma Lenda") ou I Am the Legend ("Eu Sou a Lenda"). Ele explicava que a ideia era deixar claro que o protagonista do livro havia se tornado algo irreal, difuso -- mera "lenda" -- e não uma figura épica ("a lenda") ou uma história exemplar ("uma lenda").

Pondo de lado o triste fato de que nenhum dos responsáveis pelas versões brasileiras da história -- em livro ou filme -- parece ter se dado conta da sutileza, fico com a impressão de que a escolha (e a briga) foi profética: por meio de sua obra, Matheson tornou-se lenda, algo que perpassa toda a cultura, afetando mesmo quem nunca ouviu falar nele.

domingo, 23 de junho de 2013

Picareta lançada!


Acabo de voltar do Rio de Janeiro (a foto acima foi tirada da janela do quarto do hotel), onde participei do evento de lançamento do livro Pura Picaretagem, escrito em parceria com o físico Daniel Bezerra. Visitar o Rio é sempre um prazer, ainda mais podendo contar com a hospitalidade do amigo e colega escritor de ficção-científica Gerson Lodi-Ribeiro e sua mulher, Cláudia; e da conversa sempre estimulante de Octavio Aragão, a cabeça por trás de alguns dos projetos mais instigantes do quadrinho nacional. Além da companhia e da boa conversa de vários amigos com quem praticamente só tenho contato via internet.

Como eu e minha mulher, Renata , ficamos hospedados no Leblon, as manifestações que sacudiram a cidade não nos afetaram muito -- mas o suficiente, por exemplo, para que um taxista se recusasse a levar a Renata até o hotel, no início da noite de sábado, deixando-a meio perdida em meio aos manifestantes que cercavam a morada do governador Sérgio Cabral.

Saber que a manifestação é, em princípio, pacífica não refresca muito a cabeça de quem é de fora da cidade cai de para-quedas no meio dela, mas no fim tudo deu certo, passado o susto. De qualquer modo, deixo meu agradecimento à Rê por ter me acompanhado ao Rio, mesmo sabendo das circunstâncias.

O livro foi lançado na Livraria da Travessa do Shopping Leblon (daí minha escolha de local de hospedagem), e é possível que o público atraído pelo evento tenha sido menor do que o potencial por causa, novamente, das manifestações. Mas, enfim: o evento estava marcado há mais de um mês, e há modos muito piores de se ver atropelado pela marcha da história.

Falando em manifestações e Rio de Janeiro, aliás, o melhor diagnóstico para os eventos recentes que encontrei vem do carioca Nelson Rodrigues: o povo pode não saber por que está batendo, mas o governo sabe por que está apanhando. E falando no livro, neste domingo saiu a primeira apreciação de que tenho notícia,  publicada no Jornal de Jundiaí.



A foto acima mostra eu e o Daniel, durante o lançamento. Alguém achou estranho o fato de o paulista estar de jaqueta jeans e o carioca, de blazer, mas minha explicação é: "Eu estava indo ao Rio de Janeiro, bolas!" (Octavio Aragão também me deu uma bronca sacaneada por eu ter aparecido de bermuda e sandálias para nosso almoço, mas qual a graça de um estereótipo se não se pode vivê-lo de vez em quando?).