terça-feira, 18 de junho de 2013

Crises de representação

Em seu livro Cérebro e Crença, o historiador e psicólogo Michael Shermer comenta que Galileu Galilei morreu convencido de que Saturno era, na verdade, um planeta triplo: olhando pelo telescópio, o grande gênio da revolução científica vira o corpo central cercado por dois arcos -- os arcos dos anéis --, um à direita e um à esquerda, e concluíra que se tratava de três planetas geminados.

Galileu, explica Shermer, viu os anéis com os olhos, mas não conseguiu vê-los com o entendimento. Sem uma teoria a respeito de corpos planetários cercados por anéis capaz de lhe dar sentido, a evidência do telescópio foi tomada como representando uma outra coisa.

A ideia, que até soa sofisticada, de que nossas teorias circunscrevem a capacidade que temos de interpretar o que está diante dos nossos olhos, na verdade não passa de um corolário do velho provérbio que diz que, para quem tem um martelo, todos os problemas se parecem com cabeças de prego. Que foi exatamente o que me veio à mente quando comecei a ler as exegeses, à esquerda e à direita, sobre o que está acontecendo no Brasil, a partir da onda de protestos contra o aumento da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo: ideólogos com martelos à mão, correndo feito baratas tontas, batendo em qualquer coisa que tenha uma vaga semelhança com um prego.

Esta é a primeira das crises de representação: a representação da evidência diante de nossos olhos. Certo, ela está aí, mas é evidência de quê?  As tentativas de enquadrar os eventos das últimas semanas no esquema do eterno Fla-Flu PT-PSDB são especialmente penosas de se ver, assim como são constrangedores os diversos "foda-se" que aparece nas redes sociais, como "fodam-se os 20 centavos, isto é sobre..." ou o inverso, "foda-se quem diz que não é pelos 20 centavos..."

Cada novo "foda-se" que vejo surgir em minhas timelines é uma tentativa de sequestrar a movimentação, de unificar sua voz. A multiplicação das fodas metafóricas só mostra que a coisa não está funcionando.

Se eu fosse arriscar uma chave interpretativa para o que aconteceu ontem pelo Brasil, diria que foi um movimento de retomada simbólica do país, precipitado pela ação violenta da PM paulista da última quinta-feira: se as pessoas que marcharam nesta segunda-feira estavam dizendo alguma coisa em comum, para além de sua cacofonia polissêmica, o que diziam é: "Estas ruas são nossas". Não da polícia, do prefeito, do governador, do deputado. Nossas. Dos brasileiros sem-bancada, sem-lobby, sem-mandato, sem-renúncia fiscal.

O que me traz à segunda crise de representação: a crise da representação política. A frase "não me representa" é, talvez, o mais novo slogan viral no Brasil.

Numa democracia ideal -- algo que só existe como construto teórico -- cidadãos encaminham sua queixas e reivindicações ao Estado por meio de representantes eleitos (vereadores, deputados) ou de instâncias técnico-burocráticas (como o Judiciário) e ou são atendidos, ou recebem uma negativa acompanhada de uma justificativa respeitosa e, na medida do possível, satisfatória.

Nas democracias reais, esses intermediários entre o cidadão e o poder tendem a ser monopolizados por grupos de pressão organizados em torno de minorias bem articuladas -- lobbies -- capazes de mobilizar grandes volumes de recursos de campanha e de votos. É um processo que, à medida que se aprofunda, deixa os interesses difusos da maioria -- e do indivíduo -- a descoberto.

A questão das tarifas de transporte coletivo é, nesse caso, emblemática: os funcionários, devidamente sindicalizados, fazem/ameaçam greve e conquistam aumento de salário, e ficam satisfeitos; as empresas têm aumento de tarifa, o que deixa os empresários satisfeitos; e o partido do governo, seja qual for, continua a contar com os votos dos trabalhadores, o aparelho dos sindicatos e o dinheiro dos empresários, o que também o deixa muitíssimo satisfeito.

Só o passageiro, que é quem paga a conta, que fica a ver navios -- ou, no caso, ônibus lentos e lotados.

Uma hora, isso há de dar no saco. E se a hora for a mesma em que o mesmo passageiro é exortado, e de modo muito pouco sutil, a entrar numa onda de euforia sintética, fabricada para enriquecer os outros -- como no caso da Copa do Mundo que se avizinha -- o saco corre mesmo o risco de estourar.

Crises de representação política são perigosas: o fascismo nasce da ilusão de que é possível conectar o povo diretamente ao poder, encarnado num líder carismático, sem intermediários. Mas também são oportunidades para repensar os meios e formas de intermediação e de pressão. No momento, parece que estamos conseguindo evitar o risco. Que consigamos, também, aproveitar a oportunidade.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Jornada nas Estrelas: Além da Escuridão

Isto aqui está cheio de spoilers. Além da Escuridão é um filme que não dá para discutir direito sem entregar pontos que algumas pessoas podem considerar "sensíveis" do enredo -- talvez seja por isso que a esmagadora maioria das resenhas que vi por aí me pareceu tão insatisfatória --, então, fique avisado.

Ainda comigo? Certo. Começo confessando que tenho um fraco pela série original (ou clássica) de Jornada nas Estrelas. Tenho todos os DVDs, além dos episódios em desenho animado e uma ampla seleção de livros de bolso inspirados pelo seriado, incluindo a série de contos escritos pelo anglo-americano James Blish com base nos roteiros dos episódios originais. Então, o que segue é colorido por um conhecimento mais ou menos íntimo do "cânone" da série que a nova iteração da franquia no cinema busca recriar.

Em termos desse cânone, Além da Escuridão é uma recriação/fusão das duas aventuras em que o antagonista principal é Khan Noonien Singh, um super-homem amoral, criado por engenharia genética, dotado de força sobre-humana, gênio militar napoleônico e ambições idem. Sem entrar em muitos detalhes sobre a mitologia da série, Khan e um grupo de quase 100 seguidores são encontrados, congelados no vácuo espacial, pela nave Enterprise no episódio Semente do Espaço.

Ao fim do episódio, que foi ao ar em 1967, ele e seus sequazes são deixados num planeta selvagem, onde Khan pretende construir uma civilização à sua imagem e semelhança. Em 1982, o personagem retorna, após o fracasso de sua tentativa de domar o planeta Ceti Alfa V, no longa-metragem A Ira de Khan. Em ambas as aparições, o personagem é interpretado por Ricardo Montalbán.

Em Além da Escuridão, Khan é encontrado congelado no espaço não por James T. Kirk, mas por homens
a serviço de um almirante corrupto da Frota Estelar. Em vez de optar por isolar Khan do restante da galáxia, como Kirk fez no episódio original, esse almirante decide contratar Khan como uma espécie de assessor especial, usando os seguidores do super-homem como reféns, para garantir sua lealdade. Desta vez, o vilão não é interpretado pelo mexicano Montalbán (que morreu em 2009), mas pelo britânico Benedict Cumberbatch, o protagonista da aclamada série Sherlock, da BBC.

Cumberbatch é o melhor ator dos dois, mas não tem nem a imponência física nem o carisma de Montalbán. Supre essas deficiências construindo um Khan que, ao contrário do original, não é sedutor ou magnético, mas francamente assustador.

Voltando ao enredo: Khan se rebela, comete um atentado terrorista contra instalações da Frota, foge. Kirk e a tripulação da Enterprise recebem a missão de segui-lo ao planeta onde se refugiou e matá-lo à distância, com o uso de um torpedo teleguiado especial. O capitão se recusa a fazê-lo, optando por uma abordagem mais arriscada para prender o criminoso e levá-lo a julgamento. O almirante corrupto não pode permitir que isso aconteça -- e aí reside o conflito central do filme.

Agora: imagino que toda pessoa que já teve de conviver, por mais de cinco minutos, com um fã de Jornada nas Estrelas já deve ter sido submetida a uma longa arenga sobre os méritos sociais e políticos da série: como ela apresentou o primeiro beijo entre um homem branco e uma mulher negra na televisão americana; como a tripulação da nave era diversa, com orientais, russos (isso era 1968!) e até mesmo um mestiço alienígena em papéis de destaque; sobre como o ambiente do seriado era profundamente laico (em nenhum dos inúmeros momentos de desespero ou suspense um dos protagonistas reza ou pede ajuda divina; todas as cerimônias de casamento que aparecem são civis). Mais do que isso, como os enredos de diversos episódios funcionavam como fábulas sobre a realidade da época: guerra fria, tensões raciais, contato entre culturas divergentes.

Além da Escuridão é um digno herdeiro dessa tradição: despindo o enredo de seus trajes de fantasia espacial, o que temos é um pequeno grupo de heróis que se recusa a usar um drone para cometer um assassinato político -- ainda que contra um terrorista sanguinário -- e, em vez disso, opta por enfrentar seus superiores e levar o homem para ser julgado.

No clima atual da política dos Estados Unidos, onde terrorista bom é terrorista morto e o presidente vem a público defender assassinatos por controle remoto, eu diria que se trata de que uma premissa excepcionalmente corajosa, ainda mais para um filme que se pretende um blockbuster e, por conta disso,  precisa apelar para o gosto das massas.

E os apelos à galera estão lá, obviamente: muita ação, muitas explosões, muitas cenas majestosas de naves espaciais deslizando entre as estrelas, alguma (semi)nudez feminina gratuita, muito barulho e hipérbole para esconder os furos e as marmeladas do roteiro (que são menores que os da película anterior, aliás). Um crítico lamentou dizendo que Além da Escuridão parece um filme de Michael Bay. E às vezes até parece, mesmo. Mas, por trás disso, bate o coração do criador original da série, Gene Roddenberry.

Quando a Enterprise recebe a missão de caçar e matar Khan, o engenheiro-chefe da nave, Montgomery Scott, reage com indignação: "Isso é uma missão militar! Nós não éramos exploradores?" Num momento em que o cinema "sério" americano se dedica a justificar e glamurizar assassinos e torturadores, resta aos espetáculos de pulp-science-fiction , cheios de alienígenas e efeitos especiais gerados por computador, reafirmar os valores da humanidade.

Muito se tem debatido, entre os fãs da franquia Jornada nas Estrelas, sobre os méritos (ou deméritos) dessa reencarnação cinematográfica da série original. Há quem diga que o trio responsável -- JJ Abrams, Alex Kurtzman, Roberto Orci (nenhum parentesco) -- drenou o conceito, reduzindo-o a uma casca vazia. Discordo: dá até para lamentar a recauchutagem  pela qual a casca passou, mas o espírito ainda está lá. E, por isso, este velho fã agradece.