sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Receitas de sucesso: ciência aplicada à literatura

Creio que a maioria dos leitores deste blog sabem que "dobro" minha carreira de jornalista e divulgador de ciência com a de escritor de ficção. E é nessa capacidade, de ficcionista, que venho assistindo já há algum tempo a um fenômeno que acabou atiçando meu lado divulgador: a venda de "receitas de sucesso" para escritores iniciantes e/ou aspirantes.

Claro, não há nada de inédito em escritores consagrados darem conselhos aos novatos -- aliás, ouso dizer que uma das coisas mais difíceis do mundo deve ser convencer alguns escritores consagrados a não dar conselhos aos novatos: ninguém sai por aí publicando os frutos da própria imaginação sem uma dose razoável (anda que disfarçada) de vaidade e arrogância como combustível, e se há uma gratificação específica da vaidade intelectual é a possibilidade de angariar discípulos.

Mas a onda das "receitas de sucesso" de distingue do aconselhamento puro e simples, primeiro, porque assume um caráter de relação comercial -- o que, poderíamos dizer, já existe de qualquer forma em oficinas literárias e cursos de escrita criativa -- mas também, e principalmente, por se basear em  receitas estruturadas, listas de passos a seguir. Em resumo, fórmulas.

Fórmulas não são novidade na literatura: eu mesmo sou um fã declarado do Master Plot de Lester Dent, e um de meus sonhos não realizados é, um dia, segui-lo à risca. Às vezes, o desafio de manter-se fiel a uma fórmula consagrada pode ser um importante estímulo à criatividade: é por isso que a poesia não consegue (e nem deve) se livrar de estruturas como a do soneto, por exemplo. E, claro, há quem a credita (como eu) que mesmo as obras da dita "alta ficção literária original" também não passam de reiterações de uma cesta de fórmulas batidas.

As novas fórmulas que vejo sendo oferecidas aos jovens autores -- principalmente de terror, fantasia e mistério, três gêneros em que também milito -- se distinguem das que citei no parágrafo acima por duas razões: a primeira, que talvez possa ser considerada uma distinção até certo ponto tênue, é que se propõem como fórmulas de sucesso comercial: não são manifestos estético-literários, não são "regras do jogo" para gêneros literários (como os Dez Mandamentos do Detection Club), não são nem dicas pessoais. Têm menos a ver com literatura, em si, do que com vendas e marketing: não tratam da produção de um bom texto ou de uma boa história, mas de um produto vendável.Até aí, no entanto, dá pra argumentar que mesmo o meu "Master Plot" favorito também já tinha essa pegada.

Mas a segunda é mais notável: as fórmulas agora aparecem como listas numeradas, ao estilo de best-sellers corporativos como "Os Dez Golpes Mortais do Kung-Fu Executivo" ou "Os Sete Hábitos dos Líderes Maravilhosos" e outras pataquadas assim.

E é aí que o meu lado escritor de ficção científica encontra o de divulgador de ciência: toda essa literatura, baseada na identificação de figuras bem-sucedidas e na busca de fatores comuns entre essas figuras, é pseudocientífica. Metodologicamente inválida, para ser mais preciso. Porque esse tipo de método -- ver quem faz sucesso, procurar fatores comuns e atribuir o sucesso a esses fatores -- sofre de duas limitações, relacionadas entre si: viés de sobrevivência e caráter exploratório.

Viés de sobrevivência é o fato de serem pré-selecionados para análise os livros que já fizeram sucesso -- que já "sobreviveram". Isso pode parecer lógico (afinal, o que se pretende é destilar os fatores que levam ao sucesso), mas na verdade é um erro grave: por exemplo, suponha que todos os livros bem-sucedidos da amostra tenham uma cena de sexo no primeiro capítulo. Dá para concluir que sexo no início da obra garante boas vendas?

Talvez. Mas, e os livros que tinham cenas de sexo no começo e encalharam? Será que existem? E se existirem em maior número que os de sucesso? E se as cenas de sexo nos best-sellers não tiverem nada a ver com o sucesso dos livros, e sua presença neles for mera coincidência? E se um dos "livros de sucesso" só foi um sucesso porque o autor tem uma família grande, ou porque todos os membros de sua igreja compraram exemplares para dar de presente? O método escolhido não permite controlar nada disso.

Ao pré-selecionar as obras que já foram bem-sucedidas, a amostragem acaba viciada. A forma correta de fazer isso seria formular uma hipótese -- "sexo nas primeiras dez páginas ajudam um livro a vender mais", digamos -- e, a partir daí, acompanhar o mercado para ver se ela se confirma ou não. Começar olhando para quem já virou best-seller é inverter o processo.

É por esse motivo que listas do tipo "os hábitos das pessoas altamente eficientes" (ou "as regras para um primeiro capítulo matador") são quase inúteis: não é válido juntar um grupo de "pessoas eficientes", ver o que elas têm em comum e saltar para a conclusão de que essa comunalidade é o que lhes garante eficiência. O método correto envolve gerar uma hipótese -- "o fator X torna as pessoas mais eficientes" -- e, numa população, acompanhar quem tem e quem não tem X, esperando para ver quem se mostra mais "eficiente", seja lá como se pretenda medir isso.

Escrevi que as listas que partem do sucesso para explicar o sucesso são "quase" inúteis. Esse "quase" está ligado à segunda limitação das fórmulas, o caráter exploratório. Olhar para uma amostra viciada pelo viés de sobrevivência é inútil para produzir conclusões, mas pode ser útil para gerar hipóteses. Isso é o que cientistas chamam de estudos exploratórios: quando se olha para umas base de dados em busca de padrões ou fatores comuns. Esses padrões e fatores, então, podem ser convertidos, não em conclusões, mas em hipóteses que ainda precisam ser checadas com base em dados independentes.

Então: percebemos que alguns livros com cenas de sexo logo no começo vendem bem. Formulamos a hipótese de que cenas assim criam best-sellers. Testamos a hipótese acompanhando as listas de mais vendidos (e de menos vendidos também, como apontou o Roberto Takata) de ficção durante, digamos, seis meses -- esse seria o chamado estudo confirmatório -- e aí vemos se ela se sustenta ou não.

Então, quando você ver um sujeito tentando lhe vender o "segredo dos meus 23 best-sellers", desconfie: esse autor só tem dados exploratórios. Você corre o risco de pagar só para virar cobaia de um estudo confirmatório.

Que, se me permitem um palpite, no caso específico da literatura nunca vai confirmar nada: a fórmula  básica, intuitiva, do best-seller comercial mudou muito pouco desde que Caríton de Afrodísias  escreveu o que se supõe ter sido o primeiro de todos, no século I EC, e o fato é que muito mais livros são escritos seguindo-a do que os que realmente chegam à lista de mais vendidos. Eu apostaria de que a lista de obras encalhadas que seguem à risca "receitas de sucesso" é ordens de grandeza maior que a de livros pessoais/experimentais/idiossincráticos que têm o mesmo fim.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vegetarianos como alvo

Passei um carnaval num hotel com restaurante vegetariano. Nada contra, e é sempre interessante conhecer pratos alternativos. Provavelmente por causa dessa orientação gastronômica da casa, havia algumas revistas de nicho, voltadas para o público vegetariano, no saguão e, movido por curiosidade profissional, me pus a folheá-las.

Tomei um susto: eu nunca tinha visto tanta pseudociência, e nem pseudociência tão perigosa, quanto a que encontrei nas páginas de publicidade dessas publicações. Nem mesmo em revistas de estética e "bem-estar" feminino, e quem conhece esse tipo de periódico, com seus anúncios de suplementos milagrosos de colágeno, suas promessas de rejuvenescimento via micro-ondas e de "cura" quântica da celulite sabe do que estrou falando.

O público vegetariano é assediado por mascates que prometem coisas que vão da mera tolice (remédios florais para "nervosismo e agitação") à mentira deslavada (um anúncio jura que o consumo de algas marinhas faz maravilhas pela saúde porque, afinal, "os seres do mar não envelhecem e sua fecundidade não é afetada pelos anos de vida") e que chegam a um nível de irresponsabilidade quase homicida ("como reverter o diabetes naturalmente" usando "nutrição espiritual"). Além disso tudo, havia ainda o apenas ridículo, como diagramas de supostas "fotos Kirkian" (imagino que o infeliz publicitário queria dizer "Kirlian"), mostrando o "antes" e "depois" da administração de florais.

A questão que surgiu, imediatamente após "onde está a Anvisa nessas horas?", foi: por que vegetarianos? O que faz do grupo o público-alvo preferencial desse tipo de bobagem? O que os magos da publicidade acreditam que os vegetarianos têm em comum, além do hábito de não consumir carne?

Há muitos motivos que levam uma pessoa a se tornar vegetariana. Estudos a respeito, como este e este, apontam razões como preocupação ética com os animais, questões ambientais, gosto pessoal e considerações religiosas. Mas as revistas que vi no hotel, e principalmente os anúncios nessas revistas, sugerem um traço cultural que talvez esteja submerso em "considerações religiosas", mas que possivelmente também toca, até certo ponto, os outros motivos: vitalismo.

Na história da ciência, "vitalismo" é a teoria de que o que distingue os seres vivos da matéria inanimada seria um fluido, a "força vital". Essa "força" estaria por trás de uma suposta geração espontânea de vida (por exemplo, transformando lixo orgânico em larvas de mosca). A "força vital" poderia existir em várias modalidades -- a de um tigre seria diversa da de um coelho -- e o desequilíbrio entre os diferentes modos estaria na raiz de diversas doenças. A morte seria a extinção da força vital de um corpo, ou sua transferência para outros corpos.

Como teoria científica -- isto é, como hipótese racional articulada com base em evidências, para explicar um conjunto de fenômenos naturais -- o vitalismo está morto e enterrado há mais de cem anos.

O golpe de misericórdia costuma ser atribuído a Louis Pasteur, mas diversos desenvolvimentos paralelos, tanto anteriores quanto posteriores, como a descoberta da existência real de átomos e moléculas, a definição do Número de Avogadro, a análise do movimento browniano por Albert Einstein e, não menos importante, os avanços da biologia e da bioquímica a partir da formulação da Teoria da Evolução e da redescoberta do trabalho de Mendel sobre hereditariedade só fizeram acumular mais pás de cal sobre o cadáver vitalista.

Mas o vitalismo tem um certo apelo intuitivo que é difícil de eliminar. A ideia de que seres vivos têm "forças" ou "auras" que definem suas propriedades, e que essas propriedades podem ser trocadas ou transmitidas por meio de "fluidos" (hoje em dia, graças às interpretações bastardas da física quântica, fala-se muito em "energias" e "frequências") parece lógica e autoevidente para muitas pessoas. A maioria das religiões tem algo de vitalista, ainda que, em alguns casos, vestigial (como a veneração católica por relíquias de santos, por exemplo).

Também há uma certa afinidade emocional entre a crença no vitalismo e a preocupação com o tratamento ético dos animais e o meio ambiente. A ideia de que não existimos realmente em corpos separados, mas que na verdade somos todos parte do mesmo "campo de força vital" ajuda a escorar uma consciência ambiental mais firme. O problema, claro, é que é perfeitamente possível encontrar motivos ruins para atitudes boas. Este é um caso.

Ninguém precisa engolir a narrativa vitalista para justificar uma preocupação com a natureza: há ampla evidência científica de que estamos, todos os seres vivos do planeta, no mesmo barco, mesmo que não sejamos todos "frequências de luz divina". Se a ideia de uma origem comum é mais emocionalmente satisfatória, existe a evolução -- ou, para quem prefere narrativas mais grandiosas, a cosmologia. Para além das considerações de saúde a favor de um consumo moderado de carne, há razões éticas e filosóficas de peso a favor de uma dieta vegetariana, e que passam longe de qualquer especulação vitalista.

Mas todos tendemos a olhar com simpatia para teses e hipóteses que confirmam nossas crenças e preferências pré-existentes. Se essas teses nos fazem sentir especiais e superiores, melhor ainda. Para quem tem uma visão romantizada da natureza, é fácil aceitar, por exemplo, que os alimentos ditos "orgânicos" são mais saudáveis, embora não exista evidência disso, ou engolir estudos que sugerem que os transgênicos são ruins, mesmo que se trate de trabalhos desacreditados pela comunidade científica e de péssima qualidade. Tendemos a alocar o benefício da dúvida seguindo nossos preconceitos.

Por conta disso tudo, imagino, vitalismo e vegetarianismo parecem sofrer de atração mútua: embora um não seja necessário para o outro (dá para construir uma defesa vitalista do consumo de carne, baseada, por exemplo, nos supostos poderes da "força vital" dos animais), no fim são sistemas que convivem de modo confortável. Mas assimilar ideias falsas porque elas parecem confirmar aquilo em que queremos acreditar (ou que preferimos fazer) abre a porta para todo tipo de vulnerabilidade. Como a explorada pelos anúncios que vi.