Receitas de sucesso: ciência aplicada à literatura

Creio que a maioria dos leitores deste blog sabem que "dobro" minha carreira de jornalista e divulgador de ciência com a de escritor de ficção. E é nessa capacidade, de ficcionista, que venho assistindo já há algum tempo a um fenômeno que acabou atiçando meu lado divulgador: a venda de "receitas de sucesso" para escritores iniciantes e/ou aspirantes.

Claro, não há nada de inédito em escritores consagrados darem conselhos aos novatos -- aliás, ouso dizer que uma das coisas mais difíceis do mundo deve ser convencer alguns escritores consagrados a não dar conselhos aos novatos: ninguém sai por aí publicando os frutos da própria imaginação sem uma dose razoável (anda que disfarçada) de vaidade e arrogância como combustível, e se há uma gratificação específica da vaidade intelectual é a possibilidade de angariar discípulos.

Mas a onda das "receitas de sucesso" de distingue do aconselhamento puro e simples, primeiro, porque assume um caráter de relação comercial -- o que, poderíamos dizer, já existe de qualquer forma em oficinas literárias e cursos de escrita criativa -- mas também, e principalmente, por se basear em  receitas estruturadas, listas de passos a seguir. Em resumo, fórmulas.

Fórmulas não são novidade na literatura: eu mesmo sou um fã declarado do Master Plot de Lester Dent, e um de meus sonhos não realizados é, um dia, segui-lo à risca. Às vezes, o desafio de manter-se fiel a uma fórmula consagrada pode ser um importante estímulo à criatividade: é por isso que a poesia não consegue (e nem deve) se livrar de estruturas como a do soneto, por exemplo. E, claro, há quem a credita (como eu) que mesmo as obras da dita "alta ficção literária original" também não passam de reiterações de uma cesta de fórmulas batidas.

As novas fórmulas que vejo sendo oferecidas aos jovens autores -- principalmente de terror, fantasia e mistério, três gêneros em que também milito -- se distinguem das que citei no parágrafo acima por duas razões: a primeira, que talvez possa ser considerada uma distinção até certo ponto tênue, é que se propõem como fórmulas de sucesso comercial: não são manifestos estético-literários, não são "regras do jogo" para gêneros literários (como os Dez Mandamentos do Detection Club), não são nem dicas pessoais. Têm menos a ver com literatura, em si, do que com vendas e marketing: não tratam da produção de um bom texto ou de uma boa história, mas de um produto vendável.Até aí, no entanto, dá pra argumentar que mesmo o meu "Master Plot" favorito também já tinha essa pegada.

Mas a segunda é mais notável: as fórmulas agora aparecem como listas numeradas, ao estilo de best-sellers corporativos como "Os Dez Golpes Mortais do Kung-Fu Executivo" ou "Os Sete Hábitos dos Líderes Maravilhosos" e outras pataquadas assim.

E é aí que o meu lado escritor de ficção científica encontra o de divulgador de ciência: toda essa literatura, baseada na identificação de figuras bem-sucedidas e na busca de fatores comuns entre essas figuras, é pseudocientífica. Metodologicamente inválida, para ser mais preciso. Porque esse tipo de método -- ver quem faz sucesso, procurar fatores comuns e atribuir o sucesso a esses fatores -- sofre de duas limitações, relacionadas entre si: viés de sobrevivência e caráter exploratório.

Viés de sobrevivência é o fato de serem pré-selecionados para análise os livros que já fizeram sucesso -- que já "sobreviveram". Isso pode parecer lógico (afinal, o que se pretende é destilar os fatores que levam ao sucesso), mas na verdade é um erro grave: por exemplo, suponha que todos os livros bem-sucedidos da amostra tenham uma cena de sexo no primeiro capítulo. Dá para concluir que sexo no início da obra garante boas vendas?

Talvez. Mas, e os livros que tinham cenas de sexo no começo e encalharam? Será que existem? E se existirem em maior número que os de sucesso? E se as cenas de sexo nos best-sellers não tiverem nada a ver com o sucesso dos livros, e sua presença neles for mera coincidência? E se um dos "livros de sucesso" só foi um sucesso porque o autor tem uma família grande, ou porque todos os membros de sua igreja compraram exemplares para dar de presente? O método escolhido não permite controlar nada disso.

Ao pré-selecionar as obras que já foram bem-sucedidas, a amostragem acaba viciada. A forma correta de fazer isso seria formular uma hipótese -- "sexo nas primeiras dez páginas ajudam um livro a vender mais", digamos -- e, a partir daí, acompanhar o mercado para ver se ela se confirma ou não. Começar olhando para quem já virou best-seller é inverter o processo.

É por esse motivo que listas do tipo "os hábitos das pessoas altamente eficientes" (ou "as regras para um primeiro capítulo matador") são quase inúteis: não é válido juntar um grupo de "pessoas eficientes", ver o que elas têm em comum e saltar para a conclusão de que essa comunalidade é o que lhes garante eficiência. O método correto envolve gerar uma hipótese -- "o fator X torna as pessoas mais eficientes" -- e, numa população, acompanhar quem tem e quem não tem X, esperando para ver quem se mostra mais "eficiente", seja lá como se pretenda medir isso.

Escrevi que as listas que partem do sucesso para explicar o sucesso são "quase" inúteis. Esse "quase" está ligado à segunda limitação das fórmulas, o caráter exploratório. Olhar para uma amostra viciada pelo viés de sobrevivência é inútil para produzir conclusões, mas pode ser útil para gerar hipóteses. Isso é o que cientistas chamam de estudos exploratórios: quando se olha para umas base de dados em busca de padrões ou fatores comuns. Esses padrões e fatores, então, podem ser convertidos, não em conclusões, mas em hipóteses que ainda precisam ser checadas com base em dados independentes.

Então: percebemos que alguns livros com cenas de sexo logo no começo vendem bem. Formulamos a hipótese de que cenas assim criam best-sellers. Testamos a hipótese acompanhando as listas de mais vendidos (e de menos vendidos também, como apontou o Roberto Takata) de ficção durante, digamos, seis meses -- esse seria o chamado estudo confirmatório -- e aí vemos se ela se sustenta ou não.

Então, quando você ver um sujeito tentando lhe vender o "segredo dos meus 23 best-sellers", desconfie: esse autor só tem dados exploratórios. Você corre o risco de pagar só para virar cobaia de um estudo confirmatório.

Que, se me permitem um palpite, no caso específico da literatura nunca vai confirmar nada: a fórmula  básica, intuitiva, do best-seller comercial mudou muito pouco desde que Caríton de Afrodísias  escreveu o que se supõe ter sido o primeiro de todos, no século I EC, e o fato é que muito mais livros são escritos seguindo-a do que os que realmente chegam à lista de mais vendidos. Eu apostaria de que a lista de obras encalhadas que seguem à risca "receitas de sucesso" é ordens de grandeza maior que a de livros pessoais/experimentais/idiossincráticos que têm o mesmo fim.

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