quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Saiu Solarpunk!

O incansável Gerson Lodi-Ribeiro avisa que já está à venda, na Amazon brasileira, a edição kindle de Solarpunk, antologia de ficção científica compsota por contos que giram em torno do tema de fontes alternativas de energia. O volume inclui meu conto Soylent Green Is People!, sobre biotecnologia, e quem já estava por aqui na década de 70 provavelmente há de se lembrar da referência explícita do título.

Solarpunk fecha uma trilogia iniciada por Vaporpunk e continuada em Dieselpunk, ambas antologias retrofuturistas -- isto é, que imaginam o futuro a partir do passado ou, então, que recriam o passado a partir do futuro -- em que também estou presente. Solarpunk distingue-se das predecessoras exatamente por ter esse caráter retrô menos acentuado.

O que nos traz à questão: tudo bem, série de antologias de histórias girando em torno das fontes de energia predominantes no século 19 (vapor, carvão), 20 (petróleo) e 21 (solar, esperamos). Mas, por que cazzo tudo isso seria "punk"?

Antes de avançar, deixo o aviso de que bibliotecas inteiras já foram escritas a respeito da apropriação do termo "punk" para demarcar tendências estéticas. A Wikipedia tem até uma lista. A mim me parece que esse é o tipo de debate que pode ser estimulante num bar às 3 da matina, mas quando as pessoas começam a escrever artigos acadêmicos e a brigar a respeito, alguma coisa se perdeu, possivelmente o senso de humor. (Antes que me apontem o dedo, lembro que isto é uma postagem de blog, não um artigo acadêmico -- e certamente, não uma briga. Avante, pois.)

Em princípio, "punk", diria eu, virou um sufixo genérico que significa algo como "universo estético/psicológico". Vaporpunk (ou "steampunk"), por exemplo, pretende evocar visões de mogno, ferro fundido, chaminés, ferrovias, bronze, mentalidade vitoriana. "Atompunk" é paranoia anticomunista, Elvis Presley, alienígenas entre nós, Godzilla, formigas gigantes. E assim por diante.

Se o sentido é esse, então, qual seria estética "solarpunk"? Bom, acho que é preciso ler o livro e ver se há algum resíduo comum entre as histórias. Meu conto, especificamente, trata de biotecnologia, num mundo onde as pessoas criam e usam organismos geneticamente modificados do mesmo modo que nós usamos apps de celular hoje em dia. Mas não sei o que os outros escreveram. Minha impressão é de que esta será a antologia mais diversificada, em termos de tom e de alcance, das três.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fundação: a edição definitiva

Hoje é aniversário de Isaac Asimov, um dos mais influentes escritores de ficção científica do século passado. Se estivesse vivo, ele estaria completando 93 anos. Asimov morreu de aids em 1992, vítima de uma transfusão de sangue contaminado. Ano passado, escrevi sobre sua obra mais famosa, a trilogia Fundação original, então esta nota é apenas para registrar a publicação de uma nova edição desses livros, agora pela Folio Society, um grupo britânico que produz edições de luxo de clássicos, literários ou acadêmicos. Abaixo, uma imagem das capaz dos três volumes:


E, aqui, uma amostra das ilustrações internas, também de autoria de Alex Wells:



Para além do trabalho gráfico, no entanto, a principal estrela dessa edição luxuosa é a introdução do livro, de autoria do ganhador do Nobel de Economia Paul Krugman, que já havia declarado várias vezes que a leitura de Fundação havia inspirado seu interesse pelas ciências sociais em geral, e pela economia, em particular. Krugman não é o único ganhador do Nobel de economia a reconhecer a influência de Asimov em sua carreira, aliás, mas certamente é o mais generoso em reconhecer o papel de Fundação em sua vida.

 O texto de Krugman para a edição da Folio foi publicado no jornal britânico The Guardian, e merece ser lido. Nele, o economista não reluta em reconhecer as limitações do estilo asimoveano -- "se você está procurando um desenvolvimento delicado dos personagens, é melhor ir ler Anna Karenina" -- mas também não cai na tentação da condescendência. Quando trata das qualidades do livro, é sem ressalvas irônicas ou piscadelas para a crítica "séria". Por exemplo:

"A despeito da ausência de ganchos narrativos convencionais e, na maior parte, de heróis ou de vilões, os romances da Fundação são profundamente emocionantes -- cheios de suspense, absorventes e, se me permitem, alegremente cínicos. Porque a ausência de ganchos convencionais não significa a ausência de ganchos inconvencionais".

Krugman vê em Fundação, a saga de um grupo de cientistas tentando "surfar" nas ondas da psico-história, que seria a ciência social definitiva, capaz de prever o desenvolvimento das civilizações como a física prevê o comportamento dos gases, um "paralelo irônico" com as histórias de fantasia que giram em torno do cumprimento de uma profecia -- o menino destinado a ser rei, por exemplo.

"Mas se os livros da Fundação são um conto de profecia realizada, trata-se de uma versão muito burguesa de profecia. Não se trata de um conto de um herdeiro secreto recebendo sua herança, ou de um espadachim invencível ganhando o dia com sua perícia. Asimov claramente despreza a aristocracia e o militarismo".

Mas a vitória final não pertence aos burgueses também, nota o autor da introdução: em Fundação, não há vitória final, apenas o devir da evolução humana. "Os romances da Fundação não tratam realmente da galáxia, nem de viagens espaciais. Eles tratam da verdadeira fronteira final -- a compreensão de nós mesmos, e das sociedades que criamos."