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Mostrando postagens de Março 19, 2017

Bárbaros, mas boa gente

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Análise de ossos de cemitérios húngaros do século 5 EC, localizados na fronteira do que era então a província romana de Panônia, indica que a entrada na Europa Oriental dos nômades hunos, nos anos finais do Império Romano, envolveu não apenas saques e violência, mas também estratégias pacíficas de coexistência. Pesquisadores britânicos e húngaros analisaram a composição isotópica – os diferentes tipos de átomos de um mesmo elemento – do colágeno dos ossos e do esmalte e da dentina dos dentes dos corpos encontrados.

Essa composição, explicam os autores do trabalho publicado no periódico de livre acesso PLoS ONE, permite deduzir hábitos de dieta. Além disso, uma variação grande na composição isotópica num mesmo esqueleto sugere um modo de vida nômade, em que o indivíduo consome alimentos de diferentes origens geográficas ao longo da vida.

A análise mostrou que ambas as populações, tanto os agricultores sedentários da fronteira da Panônia quanto os nômades/invasores hunos, tinham dietas a…

O baixo-ventre da divulgação científica

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A língua inglesa tem uma palavra, underbelly, que comumente é vertida como "baixo-ventre", mas que comporta também o sentido metafórico, meio intraduzível, de face sórdida, oculta, podre e vulnerável de alguma coisa. A expressão sempre me faz pensar no lado de baixo de uma tora caída na floresta, em contato constante com o solo úmido, decompondo-se em gases malsãos e alimentando criaturas assustadoras de todo tipo.

Uma característica perturbadora do underbelly é que, assim como sua tradução literal, o baixo-ventre, ele é parte indissociável do corpo principal: um não existe, não vive, sem o outro. Todas as profissões têm, imagino, seu underbelly, aquela parcela de profissionais que não podem simplesmente ser descartados como corruptos ou renegados como charlatões,  mas dos quais os colegas de boa-fé e boa reputação gostariam de se afastar o máximo possível.

Na minha área específica, a divulgação-barra-jornalismo de ciência, o underbelly é formado pela ampla categoria que co…

"Professor Fraude", num conselho editorial perto de você

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Um grupo de pesquisadores poloneses apresenta, em artigo de opinião publicado na Nature, o resultado de uma “operação secreta” realizada para testar a idoneidade de centenas de publicações que se apresentam como periódicos científicos com revisão pelos pares, e põe em evidência a proliferação de periódicos predatórios, mais preocupados em recolher taxas de publicação dos autores do que em apresentar ciência de qualidade.

Depois de descrever como estavam assustados com os convites, quase diários, que recebiam para integrar os conselhos editoriais de periódicos obscuros, os psicólogos Piotr Sorokowski, Agnieszka Sorokowska e Katarzyna Pisanski, juntamente com o filósofo Emanuel Kulczycki, relatam como criaram uma cientista fictícia – Anna O. Szust, ou “Anna Fraude”, em polonês –, com um currículo fraco e cheio de inconsistências. Em nome dessa “Professora Fraude”, enviaram e-mails a 360 periódicos, oferecendo os serviços dela como editora.

“O perfil era tristemente inadequado”, explica…

Pressão, inexperiência, caráter? Causas de viés de ciência

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Cientistas em início de carreira, trabalhando em grupos pequenos ou com colaboradores distantes e publicando em periódicos com revisão pelos pares são os que mais correm risco de divulgar resultados exagerados ou inválidos, aponta artigo sobre vieses e distorções na literatura científica publicado no periódico PNAS. O artigo também aponta que a integridade pessoal (ou falta dela) do pesquisador individual tem um peso maior na produção de falsos resultados do que a pressão social no meio acadêmico por mais publicações.
Com o título “Meta-assessment of bias in Science” (“Meta-avaliação do viés na Ciência”), o trabalho tem entre seus autores John P. Ioannidis, do Centro de Inovação em Meta-Pesquisa de Stanford (Meta-Research Innovation Center at Stanford, ou METRICS, na sigla em inglês), que há vários anos se dedica a expor as distorções da literatura científica.

Neste novo trabalho, Ioannidis e coautores debruçaram-se sobre uma série de meta-análises de diversas áreas. Como meta-análise…

Micróbios astronautas no sistema TRAPPIST-1

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Se a vida surgiu em pelo menos um dos sete planetas localizados em órbita da estrela TRAPPIST-1, há uma alta probabilidade de que ela tenha se espalhado pelos demais, aponta estudo publicado no repositório de artigos científicos de exatas ArXiv. Os trabalhos lançados no ArXiv ainda não passaram por revisão pelos pares, mas são oferecidos para discussão pela comunidade acadêmica e podem acabar sendo aceitos por periódicos estabelecidos.

Os autores do artigo, da Universidade Harvard e do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, propõem um modelo para calcular a probabilidade de ocorrência de eventos em que rochas ejetadas ao espaço por um planeta, após o impacto de um cometa ou asteroide, transportem micróbios viáveis para outro, num processo chamado “litopanspermia”. Leia nota completa no Telescópio.