sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Tá tudo bem não entender o que se passa

"It is okay to say 'I don't know' " é uma frase fácil de se encontrar em depoimentos de cientistas. Ela reflete o que talvez seja a tensão fundamental do temperamento científico -- a coexistência de uma profunda curiosidade e de uma alta capacidade de tolerar incertezas. É normal não entender o que está acontecendo. É melhor saber que não se sabe do que sustentar um falso diagnóstico.

O problema é que conviver com a incerteza agride o que talvez seja um dos impulsos humanos mais fundamentais, a necessidade de controle. Não necessariamente controle dos outros, mas controle das nossas circunstâncias: onde estamos, quem somos, o que podemos esperar do ambiente que nos cerca. Se esses controles fundamentais vão embora, a sensação de segurança desce o ralo e a tentação de fazer besteira atinge níveis insuportáveis.

"Fazer besteira", no caso, é uma categoria de amplo espectro: pode ser pegar um fuzil e tomar uma meia dúzia de reféns, mas não precisa chegar a tanto. Um artigo publicado em 2008 na revista Science concluía, por meio de uma série de experimentos psicológicos, que a percepção de falta de controle aumenta a probabilidade de uma pessoa "perceber padrões ilusórios, incluindo ver imagens em ruído, encontrar correlações espúrias nos dados do mercado de ações, perceber conspirações e desenvolver superstições".

Os parágrafos acima foram motivados pela minha experiência das redes sociais nos últimos dias. Entre o quase-linchamento do garoto no Rio, a morte do cinegrafista da Band, a prisão do suspeito dessa morte, na Bahia, e a aparição de "Sininho", muita gente parece convencida de que tem "algo mais" acontecendo -- só não se sabe o quê. Há a percepção de falta de controle, e seus correlatos surgem em seguida: padrões ilusórios, correlações espúrias, teorias de conspiração. E essas são coisas perigosas.

Enquanto eu apurava a reportagem sobre conspirações que escrevi para a Galileu de julho do ano passado, encontrei, seguidas vezes, ensaios e estudos alertando para os riscos do conspiracionismo. A melhor síntese aparece em um texto clássico, o ensaio  The Paranoid Style in American Politics, escrito pelo historiador Richard Hofstadter e publicado originalmente em 1964: "Como um membro da vanguarda que é capaz de perceber a conspiração antes que ela se torne óbvia para o público desavisado, o paranoico é um líder militante. Ele não vê o conflito social como algo a ser mediado e negociado, como o político profissional. Como o que está em jogo sempre é um conflito entre o bem e o mal absolutos, o que é necessário não é negociação, mas a vontade de lutar até o fim".

O resultado é a desumanização do adversário: o diabo, afinal, não tem direitos. Em seu livro Brainwashing, a neurocientista Kathleen Taylor trata dos mecanismo que levam algumas pessoas a considerar que outras são "torturáveis". Ela discorre um pouco sobre o que chama de Ideias Etéreas -- coisas como Igualdade, Justiça, Deus, Liberdade -- e nota que "Ideias Etéreas geralmente vêm manchadas de sangue. Valorizadas acima da vida humana, facilitam os processos pelos quais, primeiramente, os fins passam a justificar os meios e, em segundo lugar, as pessoas que não aceitam a supremacia da ideia passam a ser vistas como menos que humanas".

A confluência entre um clima de paranoia e discursos recheados de Ideias Etéreas é uma receita de tragédia -- ou, no mínimo, de grandes bobagens. Daí o apelo desta postagem: entre a tentação de comprar uma teoria conspiratória toda feita de viés de confirmação e admitir que não se sabe WTF está acontecendo, o mais saudável, para a sociedade e a democracia, é a segunda alternativa.

Claro, alguém poderia dizer, o fato de você ser paranoico não quer dizer que "eles" não estejam mesmo querendo lhe pegar -- e, bolas, sem um modelo global do que está acontecendo, como é possível agir? como posicionar-se? Seria este artigo parte de uma conspiração para promover a apatia?

Minha suspeita é de que, no cenário em que vivemos, a busca por um "modelo global" é exatamente o que paralisa: num clima de incerteza e de ânimos acirrados, apenas a visão pontual é eficaz. E o que é visão pontual? Coisas assim: matar é crime; destruir patrimônio público ou privado é crime; criminosos devem ser punidos; pessoas só devem ser consideradas criminosas e punidas quando houver prova suficiente; a punição deve se dar dentro da lei; abuso de poder policial deve ser coibido; castrar a democracia, proibindo manifestações de rua ou cerceando a liberdade de expressão, é errado.

Cada uma das proposições acima é "óbvia", mas todas elas vêm sendo desafiadas, ou relativizadas, por conta dos "modelos globais" conspiratórios que andam emergindo. Uma hora é preciso calar a boca dos "fascistas"; noutra, é preciso "castigar marginalzinho" à revelia da lei que, afinal, "só passa a mão na cabeça de bandido". E ir à rua para xingar o governo, a Fifa ou a Coca-Cola é "terrorismo".

Assim, pelas beiradas, as proposições fundamentais da convivência democrática vão sendo atacadas em nome de alguma Ideia Etérea -- Ordem, Justiça, Paz -- e do combate a alguma conspiração totalizante do Mal. É oquei não entender a "conjuntura". Mas é importante entender o que está em jogo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Feliz Dia de Darwin!

Hoje é o dia em que se celebra o aniversário de Charles Darwin, comemorado internacionalmente como Darwin Day. Já que o Brasil vive, no momento, uma ofensiva de marketing que busca dar um verniz de respeitabilidade intelectual à tese criacionista -- e que faz isso atacando a evolução, já que o criacionismo, em si, não tem nada de positivo a oferecer -- nada melhor que aproveitar a data para esclarecer alguns pontos que muitas vezes são obscurecidos, não raro de modo proposital, nos debates populares sobre o assunto.

Vou tratar de uma questão bem específica, e bem básica, aqui: o conceito mesmo de evolução. No linguajar comum, a palavra muitas vezes é usada como sinônimo de desenvolvimento, uma mudança gradual para um estado melhor, mais complexo, mais bem-acabado.

Evolução biológica, no entanto, não tem nada a ver, necessariamente, com essa acepção positiva de desenvolvimento: dependendo das pressões do ambiente, espécies podem perder em complexidade e sofisticação, como parece ter acontecido com certos parasitas que deixaram de lado sistemas necessários a coisas como digestão e, no caso dos vírus, até à reprodução, "terceirizando" esses serviços para o hospedeiro.

A definição moderna de evolução, que é diferente da que Darwin tinha lá no século 19, mas que deriva diretamente dela, diz que se trata de um processo de mudança na frequência dos genes presentes nas populações, à medida que as gerações se sucedem. "Evolução é o processo que resulta na mudança do conteúdo genético de uma população ao longo do tempo", define  o Knowledge Project da revista Nature.

Essa mudança é causada pelos mecanismos de mutação (genes mudam sob influência de fatores externos, como radiação, ou por erros durante o processo de cópia), migração (indivíduos vindos de fora introduzem novos genes na população), deriva genética e seleção natural.

Assim como a mutação, a deriva genética é um processo guiado pelo acaso: por exemplo, se a única família com genes para olhos azuis de uma vila estiver fazendo piquenique na beira de um rio, bem na hora em que a represa estoura, esses genes acabam eliminados da população -- e por puro azar! Seleção natural, porém, é outra história: foi a descoberta desse mecanismo que imortalizou Charles Darwin e Alfred Russell Wallace.

O conceito de seleção é fundamentalmente simples, mas revolucionário e, nas palavras do filósofo Daniel Dennett, "perigoso". Quando trabalhava no Estadão, ajudei a bolar um videogame para ilustrar a ideia, mas o princípio geral é o seguinte: se existem diferentes características hereditárias em uma população que vive num ambiente de recursos limitados, é de se esperar que algumas dessas características favoreçam o acesso aos meios necessários para que o organismo se reproduza, enquanto que outras serão prejudiciais.

Ao longo do tempo, isso faz com que as características favoráveis se disseminem na população e as prejudiciais, desapareçam. Dessa forma, a frequência genética se altera e a evolução acontece.

Há muitas sutilezas implícitas aí. A principal é a que já foi citada -- evolução não requer, necessariamente, "desenvolvimento" ou "aperfeiçoamento", no sentido que damos a essas palavras no dia-a-dia: a seleção natural só requer que os indivíduos da população sejam capazes de deixar descendentes viáveis, que por sua vez também sejam capazes de deixar descendentes viáveis. Ela não busca estruturas perfeitas, mas apenas "boas o suficiente" para esse propósito.  Como no caso de alguns parasitas, se é mais fácil ter filhos dispensando o aparelho digestivo e grudando no intestino de um mamífero desavisado, que assim seja.

A segunda é a de que não existem espécies "mais evoluídas" que outras: todas as populações capazes de sobreviver e prosperar no mundo atual são igualmente "evoluídas", já que respondem de modo competente aos desafios ambientais. Um corolário disso é que mudanças de ambiente podem virar de cabeça para baixo qualquer tentativa de hierarquizar espécies por "grau de evolução". Os bem adaptados de hoje podem vir a ser os desesperados de amanhã. Mesmo características que valorizamos, como inteligência, podem, um dia, se mostrar inúteis, redundantes ou contraproducentes, como o aparelho digestivo do parasita citado acima.

 E já que mencionei inteligência: a seleção natural é um fantástico simulador de "design inteligente", como muita gente já notou. Alguns criacionistas tentam apelar para argumentos matemáticos, afirmando que processos naturais, guiados pelo acaso, são incapazes de acumular a informação necessária para permitir a construção e a evolução de seres vivos.

Por isso é importante lembrar, sempre, que a seleção natural não é o mesmo que acaso: ela acontece sob pressão do ambiente. Isso faz com que o processo tenha uma espécie de memória, dada pelas diferentes taxas de sucesso na luta para passar os genes adiante: a reprodução diferenciada registra, numa espécie de banco de dados genético, quais as características -- os genes -- que são favoráveis, e quais são deletérias.

É essa "memória" que permite o acúmulo de informação nos genomas: as partes ruins são apagadas, as boas, conservadas e disseminadas. Lembrando que "bom" e "ruim" são, no caso, termos relativos à condição ambiental específica, que pode mudar -- mas que, geralmente, só muda de forma muito lenta.

E, falando em design inteligente: a evolução por seleção natural também exclui a ideia de teleologia, a hipótese de que certas características dos seres vivos foram "feitas", de modo premeditado, para desempenhar uma determinada função.

Características são criadas ao acaso, e então fixadas ou descartadas por conta de sua utilidade, mas essa utilidade nasce da interação com o meio, não é dada a priori. Pode, portanto, mudar com o tempo: um órgão ou molécula que ajudava em determinado processo nas gerações ancestrais pode acabar "cooptado" para outros fins, mais tarde. Em um conto protagonizado pelo detetive Mr. Pond,  G.K. Chesterton põe na boca de seu herói um argumento clássico contra a evolução: "Para que serve meia perna?"


A resposta é que meia perna talvez não seja útil para galopar pelos campos ou correr 100 metros em menos de 9,5 segundos, mas pode servir muito bem como nadadeira, por exemplo, ou para ajudar um anfíbio a se arrastar pelo chão, como no caso do tiktaalik (acima), um dos vários exemplos de fóssil transicional disponíveis. Meia perna,  meio olho ou meio cérebro podem ser úteis o bastante para merecer reprodução na geração seguinte, onde serão filtrados por uma nova rodada de seleção natural -- e assim por diante.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Resenha de uma história da cientologia

"A imagem dos profetas fundadores de religiões parece melhorar com a distância. Zoroastro e Moisés são quase universalmente reverenciados como grandes sábios; Jesus e Maomé, que chegaram mais tarde, têm lá seus críticos ferozes, mas no geral comandam amplo respeito – em certas partes do mundo, de fato, é crime falar mal dessas augustas personagens. Já Joseph Smith, que fundou o mormonismo no século 19, não é levado a sério por ninguém de fora de sua igreja..." Assim começa minha resenha do livro "A Prisão da Fé", uma história da Igreja da Cientologia, publicada no site Amálgama.