sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Complexo de Frankenstein, transumanismo e religião

"Complexo de Frankenstein" é uma expressão cunhada por Isaac Asimov para se referir ao medo instintivo que muitas pessoas têm de inovações tecnológicas, principalmente de inovações que parecem violar "prerrogativas divinas". Victor Frankenstein, claro, é o caso arquetípico, o homem que ousou criar vida. Mas o "complexo" já pode ser divisado muito antes, no mito de Prometeu e na narrativa da Torre de Babel.

Com o passar dos séculos e a ascensão das mídias de massa, acabou se tornando um dos clichês mais batidos da ficção científica: o castigo inevitável visitado naqueles que humanos que, tomados de arrogância intelectual, ignoram seu devido lugar na ordem da criação, reciclado à náusea em inúmeros filmes B e seriados de televisão.

 E o complexo vai muito bem, obrigado. Levantamentos recentes do Instituto de Pesquisa Pew não só mostram que a maior parte do público americano  está mais "preocupada" do que "entusiasmada" com as perspectivas de avanços biomédicos como implantes cerebrais para melhorar funções cognitivas (69% contra 34%), edição genética para eliminar doenças hereditárias em bebês (68% contra 49%) e  sangue sintético (63% contra 36%) como apontam que esse nível de preocupação, chegando à rejeição pura e simples, cresce com o nível de comprometimento religioso das pessoas.

Como a tabela ao lado mostra, a maioria das pessoas de alto comprometimento religioso mostra-se disposta a rejeitar o uso de manipulação genética até mesmo para reduzir os riscos de saúde dos próprios filhos. Algumas das tecnologias presumidas na pesquisa, como implantes cerebrais e sangue sintético, cruzam a fronteira do chamado "transumanismo", a ideia de que a tecnologia poderá levar a uma transcendência da condição humana. É um tema caro à ficção científica, e com o qual já trabalhei.

A pesquisa Pew detectou uma preocupação (apontada por 73% dos respondentes) com o risco de que tecnologias de "ampliação" ou "aperfeiçoamento" da performance humana venham a agravar desigualdades sociais, mas temores mitológicos também têm um papel importante. Cerca de 30% dos oponentes do uso de edição genética para reduzir o risco de doenças futuras em bebês saudáveis citaram como motivo uma interferência indevida no "plano de Deus":



A tabela acima mostra uma série de razões para rejeitar a edição genética humana que parece saída de uma produção especialmente ruim de Roger Corman; "Nada de bom pode vir de mexer com a natureza"; "não é natural"; "mexer com o DNA é cruzar a linha". Aparece ainda a falácia do declive escorregadio ("onde vamos parar?"), e também algumas objeções razoáveis -- por exemplo, a preocupação com o equilíbrio geral do genoma -- mas que, do ponto de vista lógico, apontam mais para a necessidade de mais pesquisa do que para uma rejeição absoluta da tecnologia em si.

Em linhas gerais, são objeções num espírito muito semelhante ao das elencadas, ao longo da história, contra vacinas, para-raios e, numa linguagem enganosamente "sofisticada", transgênicos: o de existe uma ordem divina (ou natural, dependendo da sua metafísica favorita) que não deve ser afrontada.

Uma coisa é opor-se a mudanças irresponsáveis ou claramente deletérias num statu quo que, ainda que imperfeito, ao menos é tolerável. Outra é presumir que qualquer mudança será necessariamente catastrófica, e que o statu quo já é o melhor dos mundos possíveis Ou, alternativamente, que a razão humana é incapaz ou insuficiente para melhorá-lo). É a essa segunda posição que me refiro quando falo em "temores mitológicos".

É tentador ver, nessa correlação entre religiosidade e rejeição a tecnologias "transumanas", uma confirmação da tão propalada correlação em religião e obscurantismo científico. Por exemplo, veja-se esta tabela:


Se essa rejeição de natureza religiosa configura "obscurantismo" ou não, no entanto, o fato é que ela tem impacto sobre políticas públicas de pesquisa. Edição recente da Science, por exemplo, traz uma peça de opinião lamentando os embaraços causados por uma provisão da legislação norte-americana que proíbe certos tipos de estudo envolvendo a edição genética de embriões humanos. Embora não haja prova concreta de que a intenção do Congresso americano em vetar, liminarmente, esse tipo de estudo seja inspirada por temores religiosos -- ou "mitológicos", como escrevi acima -- os resultados da pesquisa Pew são, para dizer o mínimo, sugestivos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Lendo o cérebro

Grupo de pesquisa da Unicamp desenvolve tecnologia que permite associar a captura de dados do eletroencefalograma (EEG) ao monitoramento, em tempo real, do fluxo sanguíneo no córtex cerebral. As tecnologias mais usadas até hoje para estudar a atividade cerebral, como a ressonância magnética funcional (fMRI) ou a tomografia por emissão de pósitrons (PET), na verdade não medem diretamente a ação do cérebro: em vez disso, registram o consumo de oxigênio ou o fluxo de sangue para cada área do órgão, partindo do princípio de que, quando usamos mais intensamente uma parte do cérebro – por exemplo, a região ligada à linguagem – a demanda local por energia aumenta, e é atendida por uma dilatação dos vasos próximos e aumento do fluxo sanguíneo. Esse efeito é conhecido como acoplamento neurovascular.

“O acoplamento pode parecer óbvio hoje em dia, mas só foi inicialmente descrito no final do século 19”, explica o pesquisador Rickson Mesquita, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp. “É algo que tem uma importância muito grande, porque hoje as principais técnicas usadas para estudar o cérebro são baseadas na resposta vascular à atividade. Que essa resposta existe, hoje é óbvio. Como ela é, é uma questão extremamente complexa”.

O grupo de Mesquita conseguiu juntar o EEG à Espectrometria Óptica de Difusão (DOS), técnica que usa fibras ópticas para injetar luz sob o escalpo e, a partir da aplicação de modelos matemáticos ao comportamento da luz que é refletida de volta, deduz o fluxo sanguíneo. “Como consequência direta desse trabalho, já começamos a mostrar que o acoplamento neurovascular é altamente não linear”, disse o pesquisador. “A gente vê que, quando há respostas integradas, o cérebro parece ser mais eficiente do que seria previsto só a partir da soma das respostas individuais. Começamos a perceber que a resposta é altamente não linear, mas é algo que estamos caracterizando agora". Leia a entrevista completa no Jornal da Unicamp.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Teoria do orgasmo feminino

A existência do orgasmo feminino na espécie humana tende a ser vista como um mistério, do ponto de vista biológico: enquanto o masculino está diretamente ligado à emissão dos espermatozoides, que têm papel fundamental na reprodução da espécie, o feminino parece desconectado de qualquer tipo de função reprodutiva, já que a liberação dos óvulos pelas mulheres segue um ciclo mensal, e não está ligada ao momento do intercurso. Além disso, o orgasmo feminino sequer é uma experiência universal: em pesquisas, poucas mulheres dizem experimentá-lo toda vez que fazem sexo.

Entre as hipóteses propostas até hoje há a de que a experiência ajuda as mulheres a selecionar parceiros geneticamente saudáveis, mas mesmo essa explicação falhou em convencer muitos cientistas. Agora, artigo publicado no periódico Journal of Experimental Zoology propõe investigar a função do orgasmo feminino humano a partir da reprodução de outras espécies de mamíferos.

O trabalho, encabeçado pela pesquisadora Mihaela Pavlicev, sugere que, entre as fêmeas dos primeiros mamíferos a evoluir, a ovulação era desencadeada pelo ato sexual, da mesma forma que a ejaculação masculina ainda é. “O orgasmo feminino humano está associado a uma onda hormonal similar às ondas (...) em espécies com ovulação induzida”, diz o artigo. “Sugerimos que o homólogo do orgasmo humano é o reflexo que, ancestralmente, induzia ovulação. Esse reflexo tornou-se supérfluo com a evolução da ovulação espontânea, potencialmente liberando o orgasmo feminino para outros papéis”. (Leia mais notas sobre descobertas científicas no Telescópio do Jornal da Unicamp)