Desastre no Japão e oportunismo antinuclear

Há várias razões para questionar a opção pelo uso de energia nuclear -- para citar as duas que considero mais importantes, há o problema da destinação do lixo atômico e o do uso bélico da tecnologia -- mas o estado da instalação nuclear japonesa de Fukushima após o  terremoto-com-tsunami que atingiu o país não é uma delas, ao contrário do que algumas pessoas (incluindo gente que, por dever profissional, deveria saber melhor) andam dizendo.

Digo, se um meteorito gigante atingir a barragem de Itaipu e a inundação subsequente devastar Buenos Aires, isso será motivo para questionar a opção pela energia hidrelétrica? Quando um motorista sofre um ataque cardíaco ao volante, sobe na calçada e mata uma criança, isso nos leva a questionar a tecnologia do motor a explosão interna?

Quem aponta para Fukushima (que, tendo em vista a magnitude do tremor e do tsunami, está se aguentando muito bem, ao menos por enquanto) como sinal dos riscos da energia nuclear se esquece de que toda decisão humana implica riscos. É perfeitamente concebível que uma decisão diferente da adoção da fissão nuclear como fonte de energia tivesse riscos menores, ou mais aceitáveis, mas esse é o tipo de análise que tem de ser feita numa base caso-a-caso.

Usar Fukushima como um argumento genérico contra a opção nuclear me parece tão desonesto quanto culpar a gasolina pelas mortes por atropelamento.

(Para quem quiser saber mais sobre reatores de fissão, há uma boa postagem neste blog; e o físico Michio Kaku está acompanhando a situação de Fukushima, aqui. A imagem que ilustra a postagem veio daqui.)

Comentários

  1. Pois é, o desastre de Bhopal matou muito mais gente que o de Chernobyl, mas ninguém falou em extinguir a indústria química.

    ResponderExcluir
  2. Ótimo post, muito oportuno para esse momento. Acho importante ressaltar que a numa usina nuclear somente existe radiação no núcleo do reator e mesmo lá a radiação não é tão alta assim, para se ter uma idéia o corpo de uma garotinha que morreu devido ao acidente em goiania emitia cerca de 1000 vezes mais radiação do que o reator da usina de Angra. A energia nuclear é uma energia limpa, apesar do problema do lixo, que não é tão grande quanto se imagina, pois a maior parte do lixo produzido é de baixa radioatividade (como luvas e macacões, dos funcionarios que entram no reator), pois não polui o ar, precisa de um espaço relativamente pequeno, e de baixo impacto ambiental, por exemplo em Angra nunca foi detectado nenhum caso níveis de radiação acima do normal na fauna e flora marinha da região. Como você bem diz no texto os protestos contra a energia nuclear que se apóiam no caso da usina de Fukushima é puro oportunismo

    ResponderExcluir
  3. Orsi, falo de orelha, mas acho que a probabilidade de um meteorito gigante cair na barragem de itaipu é bem menor do que a de um terremoto de grande magnitude atingir o Japão. Talvez o primeiro se um caso de" se", o segundo de" quando" vai ocorrer, ou de incerteza e risco, pra usar a expressão da economia.

    Concordo que, como argumento contra o uso da energia nuclear em si, o caso de Fukushima não serve, mas deveria soar um alerta para construção de usinas em regiões como o Japão.

    Abs.

    ResponderExcluir
  4. Oi, Caio! Acho que a analogia com o meteorito se sustenta (embora ainda com uma certa hipérbole) por conta da magnitude do terremoto -- foi um dos cinco ou seis mais intensos de toda a história, afinal. As instalações nucleares japonesas foram projetadas para suportar terremotos, inclusive terremotos intensos.

    ResponderExcluir
  5. Das formas de produzir energia elétrica em grande escala atualmente existentes, a nuclear é certamente a menos impactante. A imensa quantidade de GHG emitida pelas inúmeras termoelétricas movidas a combustíveis fósseis está efetivamente causando, ou ainda causará, muito maior estrago.

    ResponderExcluir
  6. Olá, Carlos. Talvez um dos problemas seja também construí-las beira-mar, onde a possibilidade de ser atingida por terremotos de larga escala seja maior. Sei do uso da água do mar para resfriar os reatores, mas pode-se usar água de rios também.

    Gostaria de compartilhar o espaço para colocar o meu post que informa como fazer doações a vítimas de terremotos. Desde já agradeço e desculpe um possível oportunismo.

    Abraços!

    http://nihil-animus.blogspot.com/2011/03/doacoes-para-as-vitimas-do-terremoto-e.html

    ResponderExcluir
  7. Passei os últimos dias grudado nas notícias de Fukushima, Carlos. Apesar de muito (muito) grave, a situação de Daichi parece estar ao menos gerenciável.

    A grande tragedia da geração de energia nuclear no mundo é uma de Relações Públicas. Permanece a opção mais limpa, barata -- e duradoura, apesar de não-renovável -- dentre todas as outras.

    -Daniel Bezerra

    ResponderExcluir
  8. Concordo, Daniel. Fukushima, de fato, aumentou meu respeito pela tecnologia nuclear. Fiquei imaginando o impacto de um desastre desse tamanho sobre uma hidrelétrica...

    ResponderExcluir
  9. Se pararmos para pensar na magnitude da catástrofe, com terremoto de intensidade quase 9; tsunami batendo na usina, réplicas do terremoto e sei lá mais o quê... é um testemunho à engenharia e ao bom planejamento. Tudo considerado, é um tremendo sucesso.

    -Daniel Bezerra

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência