Uma versão matemática da 'fraude de Sokal'?

Acho que todo mundo já ouviu falar do "Caso Sokal": em 1996, o físico Alan Sokal, devidamente emputecido com o uso irracional e desonesto de conceitos tirados da Física e da Matemática pela tchurma do pós-modernismo acadêmico, enviou à revista Social Text um artigo cientificamente construído para não fazer o menor sentido -- e viu-o ser publicado sem ressalvas.

(Sokal publicou uma avaliação atual do impacto de seu golpe ano passado, no livro Beyond the Hoax: Science, Philosophy and Culture. Quem quiser uma olhada divertida -- ou trágica -- no tipo de bobagem contra a qual le se insurgiu pode começar com Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science e seguir para Fashionable Nonsense: Postmodern Intellectuals' Abuse of Science
onde se encontra, entre outras coisas, a patética tentativa de Jacques Lacan de usar números imaginários como metáfora para sabe-se lá o quê.)

Bom, algo semelhante parece ter acontecido no mundo da matemática: de acordo com o blog Retraction Watch, a revista Applied Mathematics Letters está se retratando -- isto é, declarando inválido -- um artigo que jamais deveria ter sido publicado.

Um matemático consultado pelo "Watch", é difícil dizer "o que é mais engraçado, o artigo ou a retratação". A análise, feita pelo matemático Ben Steinberg, revela que o artigo não se baseia em dados falsos ou tira conclusões inválidas -- os motivos, digamos, "honestos" para uma retratação -- mas simplesmente não faz sentido, do começo ao fim. Para começo de conversa, diz Steinberg, o artigo fala em "lados opostos" -- de uma esfera.

Teria a Applied Mathematics Letters sido vítima de uma fraude à la Sokal? De acordo com o "Retraction Watch", nem a revista e nem o autor do artigo impugnado (intitulado "Nova Teoria das Paralelas") quiseram comentar o caso.

Comentários

  1. Putz, fantásticos o "Higher Superstition" e o "Fashionable Nonsense". Aliás, pegando carona no teu post anterior a esse, não é incrível que consigamos vários desses livros a custo de CENTAVOS de dólar no mercado de usados da Amazon? Graças ele, no ano de 2010 passei a ter mais livros em inglês do que em português -- porque além de nossas editoras deixarem de traduzir muita coisa que me interessa, quando traduzem costuma ser com aquele precinho salgado.

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