"Fosfolclore" em tempos de teste clínico

Com o início dos testes clínicos, devidamente controlados, da "fosfoetanolamina sintética" pelo governo do Estado de São Paulo, esta talvez seja uma boa oportunidade para tentar organizar um pouco as informações já disponíveis. Principalmente, esclarecer qual é, afinal, a relação entre a substância que o governo paulista passa a testar e o material que vinha sendo estudado pelos órgãos contratados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com resultados decepcionantes. As "fosfos", a despeito de terem todas o mesmo nome, não são todas criadas iguais.

Os defensores mais aguerridos da ideia de que a "fosfo" de São Carlos teria eficácia contra o câncer atribuem os seguidos resultados negativos publicados pelo MCTI ao fato de os ensaios do ministério terem sido feitos com "fosfo da Unicamp", e não com "fosfo da USP". Isso é uma uma meia-verdade -- que, como se sabe, é um estratagema muito melhor para enrolar os incautos que uma mentira completa.

A história começa com o envio, ao Laboratório de Química Orgânica Sintética (LQOS) do Instituto de Química da Unicamp, de cápsulas da suposta "fosfoetanolamina sintética" produzida em São Carlos, segundo o processo que o grupo do professor aposentado Gilberto Chierice tenta patentear.

A equipe do LQOS, encabeçada pelo professor Luiz Carlos Dias, pesa e analisa o conteúdo das cápsulas e descobre, para surpresa de todos, que elas não contêm "fosfoetanolamina com 90% de pureza", como apregoado, mas sim uma mixórdia de componentes, incluindo fosfoetanolamina, sim, mas também um veneno, a monoetanolamina, e outros contaminantes. A reação do grupo de Chierice à publicação desse resultado é apontar "degradação" das amostras durante o processo de análise, mas uma leitura atenta do relatório da Unicamp mostra que a técnica usada, baseada em ressonância magnética nuclear, não produz degradação.

A espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN) é uma técnica que se vale das propriedades magnéticas de certos núcleos atômicos. Não há nenhuma decomposição química envolvida e, o que é ainda mais crucial, trata-se de uma técnica-padrão, amplamente utilizada para a caracterização da estrutura de compostos orgânicos.

Pedido de patente

Menos divulgado entre o público em geral foi o teste realizado, pelo mesmo laboratório, dos procedimentos descritos no pedido de patente de 2008, "Nova Metodologia de Síntese de Fosfoetanolamina". Esse ensaio consta da "Parte B" do relatório entregue pelo LQOS ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cuja "Parte A" consiste da análise do conteúdo das pílulas de São Carlos.

O resultado: um rendimento de fosfoetanolamina da ordem de 30%-40%, bem abaixo dos 90% prometidos na patente, e um amplo cardápio de resíduos, incluindo fosfobisetanolamina e monoetanolamina, dois contaminantes também encontrados -- talvez não por acaso -- nas cápsulas originais. Para caraterizar o produto de sua reação e cravar os 90% de pureza, os autores do pedido de patente afirmam ter usado espectroscopia de infravermelho, uma técnica mais rudimentar e de menor definição que a RMN. O relatório da Unicamp se refere à espectroscopia de infravermelho como "uma técnica obsoleta no que diz respeito a (...) elucidação estrutural e grau de pureza de compostos orgânicos".

Comparação de espectrografia do conteúdo das cápsulas de São Carlos e da "fosfo"
 produzida na Unicamp segundo a receita do pedido de patente


Resumindo, a técnica usada pela Unicamp para afirmar que o pó de São Carlos é só 30% fosfoetanolamina é mais moderna e tem melhor poder definição do que a usada pelo grupo de São Carlos para dizer que se trata de 90% "fosfo". 

Há, portanto, duas linhas de evidência, a análise do material de São Carlos e a síntese do processo que se busca patentear, que convergem para a conclusão de que o que se produzia em São Carlos nunca foi "fosfoetanolamina sintética", e sim uma gororoba química potencialmente tóxica. Essa é uma contradição que, entre outras coisas, põe em dúvida o que seria, afinal, a suposta "fosfoetanolamina sintética" usada nos estudos publicados pelo grupo de Chierice em periódicos internacionais, mostrando diferentes graus de sucesso no controle de tumores in vitro e em animais de pequeno porte. 

Ignorância e Coca-Cola

Os resultados obtidos no LQOS levaram o professor Dias a afirmar, em entrevista à RTV Unicamp, que o grupo de São Carlos "não sabe o que tem nas cápsulas", e que os criadores da "fosfo" na verdade apenas "pensam" que estão fazendo fosfoetanolamina sintética. A reação descrita na patente "não ocorre", afirma o pesquisador, que tem reputação internacional. "Eles estão apenas degradando o material", garante. 

A resposta dos defensores Chierice a essas duas constatações do grupo da Unicamp também é dupla: primeiro, insistem que algo foi feito de errado na análise das cápsulas -- aferram-se ao dado de que a análise revelou a presença de traços de bário na amostra, o que consideram absurdo. O próprio Chierice afirma ter um laudo independente que contesta os resultados da Unicamp, mas até onde sei esse documento nunca veio a público: apenas alguns trechos foram citados num episódio do Programa do Ratinho, que está longe de ser um veículo de peer-review.



Em segundo lugar, acusam os químicos da Unicamp de não terem sido capazes de executar a receita corretamente, daí a discrepância. O "fosfo-folclore", ou "fosfolclore", reúne algumas pérolas a respeito -- uma delas é de que o erro de execução dos químicos da Unicamp produziu a contaminação por bário detectada na RMN. Deixando de lado o fato de que essa contaminação foi encontrada nas cápsulas encaminhadas por São Carlos, não no produto da tentativa de executar as instruções da patente, o bário é um elemento químico, que para ser "produzido" requer reações nucleares, não meras reações de síntese química. Outro folclore é o de que o pedido de patente tem um "pulo do gato" secreto, "como o da Coca-Cola", para evitar que o "segredo" seja roubado. 

Há dois problemas com essa hipótese: o primeiro é que não faz sentido omitir informações num pedido de patente. Se você patenteia uma receita sem sal, mas a receita verdadeira tem sal, você não patenteou a sua receita, e sim uma versão defeituosa dela: na prática, quem fizer a sua receita e, aí, acrescentar sal não vai estar violando a sua patente, porque não foi isso que você registrou. O segundo problema é que a Coca-Cola realmente preserva o segredo de sua receita -- e a forma que encontrou de fazer isso foi não patenteá-la

"Fosfo" da Unicamp e "fosfo" de Cravinhos

Já que a análise do conteúdo das cápsulas pelo LQOS mostrou que elas continham uma mistura de componentes diversos, e não fosfoetanolamina pura, como anunciado, o passo seguinte do grupo de trabalho do MCTI foi pedir à Unicamp que produzisse cada um dos materiais detectados separadamente, para que pudessem ser testados, um a um, contra o câncer.

Essa fosfoetanolamina pura é a tal "fosfo da Unicamp" cujos testes, in vitro, os defensores do pó de São Carlos consideram inválidos, por não se tratar do "produto legítimo". De acordo com o "fosfolclore", todos os testes com resultados ruins podem ser atribuídos ao uso da fosfo purificada, em oposição à mixórdia original. Como escrevi acima, é uma meia-verdade. Há resultados negativos obtidos com a "fosfo" pura da Unicamp, e há resultados bem decepcionantes obtidos com o material original de São Carlos, também, como mostra este relatório, por exemplo.

A diferença fundamental entre os testes realizados com a fosfoetanolamina purificada da Unicamp  e com a fosfoetanolamina "suja" originária de São Carlos é que, no segundo caso, detecta-se alguma atividade antitumoral, mas apenas em concentrações absurdamente elevadas e, ainda assim, com um efeito muito inferior ao dos quimioterápicos tradicionais. Parece haver um consenso entre os cientistas responsáveis pelos testes que esse efeito pode ser atribuído à presença do veneno monoetanolamina na mistura.

E quanto aos testes clínicos patrocinados pelo Estado de São Paulo? Eles estão utilizando "fosfoetanolamina" produzida por um laboratório de Cravinhos (SP) segundo a receita de São Carlos, e sob a supervisão de membros do grupo de São Carlos.

Dadas as incertezas quanto à eficácia da receita registrada no pedido e patente -- se produz, afinal, a fosfoetanolamina 90% alegada pelos inventores ou se a gororoba levemente tóxica obtida pela Unicamp --, seria interessante que houvesse um laudo independente apontando o que, exatamente, foi produzido e encapsulado, a fim de dirimir a dúvida de uma vez por todas. Mas nada nesse sentido foi apresentado ao público até agora, e é de se imaginar o por quê. Esperemos que os pacientes, pelo menos, saibam o que estão tomando.

Para completar o imbróglio, temos ainda a fosfoetanolamina paraguaia, contrabandeada e vendida para pessoas desesperadas. No fim, o substantivo "fosfoetanolamina" deixou de designar uma molécula orgânica específica e virou uma espécie de "abracadabra", uma palavra mágica lançada não sobre amuletos, como a invocação medieval, mas sobre cápsulas azuis e brancas. E, como no caso dos amuletos, cada vez mais se torna uma província de cultistas e espertalhões.

Comentários

  1. Ok! Mas há que se verificar se o instituto que testa, a pedido do governo, é mesmo idôneo! Eu não sei! Não sou da área, e creio que mesmo quem seja, não tem como meter a mão no fogo que não esteja havendo alguma manipulação! Agora uma coisa eu digo: muito estranho as campanhas que a Globo faz contra a pilula. Botar alguém pra dizer que se voluntariou para testar medicação contra o câncer e não atingiu a cura e alegar que está cansado de tentar e, por este motivo, a fosfo deve ser impedida... Humpf... Outra: botar Dr Drauzio Varella para alegar categoricamente que é impossível uma unica substancia ser a cura de qualquer câncer...! Bem, acho que de médico respeitado nacionalmente para Deus há uma certa distancia... !! Há de se convir que há algo de ridículo aí! Só uma obs: não sou cegamente a favor da fosfo... só acho tudo muito suspeito!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como vc disse, não é da área e não estudou nada sobre as doenças que chamamos genericamente de "o câncer". Alguns respondem bem à quimioterapia, outros não; há problemas como estadiamento do tumor, localização deste, o comportamento biológico de um tipo de câncer diferente de outro tipo; o acúmulo de mutações entre inúneros outros que estão longe do leigo conhecer. Eu tive a oportunidade de ser químico e depois me graduar em medicina. Na verdade não há campanha contra a pílula, mas a demanda por resultados cientificamente válidos. A leitura dos relatórios, que são de acesso público e gratuito, mostra as metodologias seguidas e são bem claras para quem tem formação científica. Na verdade são muito simples mesmo. Dr Drauzio não tenta ser deus, isso é uma falácia ad hominem, uma observação motivada por fatores emocionais e sem embasamento na realidade da pessoa que ele é. Suspeito é querer aprovar uma substância para tratamento de uma doença sem fazer os testes adequados; alguém está tentando ganhar com essa "queima de etapas" e já foi até noticiado na imprensa, mas nossa gente está emocionalmente tocada pela pedra filosofal da fosfoetanolamina e não prestaram a devida atenção à notícia. Apesar de ter lido os artigos ( notável que um deles afirma que a fosfo teria atbidade contra a leucemia, que afeta diretamente o "sistema imunológico" de seu portador, o que joga por terra uma das falas pró fosfo, aquela de que o "sistema imunológico deve estar intacto": o que significa isso? Que células esoecificamente? Que interleucinas? Que órgãos? De qual estudo veio tal substrato?) neles não há evidência da realização dos ensaios clínicos necessários. Aos emocionalmente afetados, sobram os ataques gratuitos e as afirmações não comprovadas. Enquanto isso, substâncias importantes são deixadas de lado.

      Excluir
  2. Obrigado pelo 'ad hominem'... não conhecia, mas creio que se aplique ao 'emocionalmente afetados' que você utilizou! Não vamos discutir isto!! Bem, repito que não sou cegamente a favor da fosfo... pelo contrário, sou justamente a favor que se teste sim... não sou formado em química e nem em medicina, mas sou formado e conheço sim a necessidade de critérios científicos para se comprovar as coisas! Não sou contra esses critérios, pelo contrario... só questiono algumas argumentações contra a fosfo! Entendo sua argumentação sobre a aplicabilidade da quimio, mas mais uma vez questiono: o que as dificuldades com a quimio teriam a ver com uma substancia totalmente diferente? Repito que minha expectativa é justamente que se teste e se aprove, se cumpre ou não o prometido!!

    ResponderExcluir
  3. O que é mais assustador na "novela" da fosfoetanolamina:a ignorância do "jornalismo" cientifico .1-Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento em metodologia cientifica,sabe que qualquer pesquisa ,para ter credibilidade,tem que ser PUBLICADA em revistas CONCEITUADAS.Ou seja,os testes pseudos-cientificos do MCTI não tem NENHUM valor cientifico.NÃO TEM PUBLICAÇÃO.E o Paulo Hoff só levou em consideração os trabalhos PUBLICADOS(Durvanei Maria),e que foram ACEITOS em Revistas CONCEITUADAS.Tem uma frase que adoro ,usada pelo Durvanei Maria;"Tudo que faço ,PUBLICO".Foi engraçado ver um jornalista levando uma PATADA do Davi Uip!O cara teve a prepotência de comparar o composto com chá de quebra pedra(risos).O Davi disse:'Eu li todos os trabalhos do grupo do prof Chierice(publicados ),e têm EMBASAMENTO .Na certa, o tal Jornalista ,ao invés de pesquisar na NATURE,PUBMED,etc,estava lendo o relatório do MCTI.SURREAL.SÓ NO BRASIL.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O que não está PUBLICADO EM LUGAR NENHUM (para manter o seu gosto por maiúsculas) é o que é, afinal, a "fosfo" produzida pelo método Chierice. O relatório da Unicamp garante que não é fosfoetanolamina, e sim uma mistura de veneno (monoetanolamina) e sujeira, com 30% de fosfoetanolamina no meio. O Chierice diz que tem um laudo que contesta o resultado da Unicamp, mas não PUBLICA. Por quê?

      Excluir
    2. Equivocado,mais uma vez!O ponto de ebulição da monoetanolamina é de 170 graus.O composto é levado a uma temp de 220 graus,então...............Faço um desafio ao Germano,que insiste na mono(18%):TODOS OS LAUDOS apontam o composto como ATÓXICO.Tenho o laudo do CEATOX AQUI.E aí?????18% de monoetanolamina?????Agora,entendo quando o Chierice usa a palavra INFANTIL,quando se refere a comentários de quimicos "conceituados" sobre o composto.Outra coisa!O composto utilizado nos ESTUDOS PUBLICADOS é o mesmo que vcs chamam de ".fosfocoisa".O Calixto recebeu o produto e testou(o resultado vc já viu),apesar de ter usado a posologia ERRADA.Nos artigos ,o composto testado por via-peritoneal(como a cisplatina),mas o Calixto usou o argumento de que as pessoas faziam uso por via-oral.Só esqueceu que a dose preconizada é 3 cap de 500mg diariamente,mas ele utilizou apenas 500mg (por dia) nos camundongos..menos da metade da dose preconizada.Agora,não precisa ser gênio para saber que o resultado com a dose preconizada seria bem diferente da obtida(inibição tumoral de 34%.)

      Excluir
    3. toxicidade depende da dose. Em uma mistura com 18% de monoetanolamina quanto realmente estamos dando? Esse valor está acima da toxicidade da monoetanolamina??
      Sem contar que essa mistureba ai mostra falta de controle de qualidade do processo. Não me espantaria se as concentrações variassem sensivelmente de lote para lote e que nos estudos em que foi citotoxico tivesse mais mono e nos estudo de DL50 mais fosfo.
      Esse papinho do ponto de ebulição é mais uma vez repetição do que foi dito sem fundamento. A reação é feita em sistema fechado? com refluxo? Não há a possibilidade de ocorrer hidrólise da fosfo?

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"