Mundo e Copa em banho-maria

Os mesmos jornais que, no início da semana, noticiavam que a população brasileira estava cagando e andando para a Copa do Mundo da Rússia, hoje não falam de outra coisa -- a ponto de não ter sobrado espaço, nas capas da Folha e do Estado, para a verdadeira notícia mais importante da semana: a aceleração do degelo antártico e sua dramática contribuição para a elevação do nível dos mares. O efeito acumulado nas últimas décadas aparece no gráfico abaixo, publicado pela revista Nature, periódico que nesta semana traz uma série de artigos sobre o estado da Antártida:



O Brasil, especialmente a costa brasileira, é bastante sensível ao que acontece na Antártida Ocidental (a parte esquerda do mapa acima). A ponta de terra mais proeminente ali, a Península Antártica, quase encosta na América do Sul, e era por ali que ficava a base brasileira Comandante Ferraz.

A Folha de São Paulo, que publicou recentemente boas reportagens sobre o impacto do aumento do nível do mar no litoral paulista, perdeu a oportunidade de explorar o nexo entre o que dizem os estudos na Nature e o que seus repórteres viram nas praias do Estado, limitando-se a reproduzir um texto do New York Times sobre o degelo antártico. Porque, né, povo tá ocupado com a Copa.

(Estritamente falando, talvez o derretimento atual da Antártida tenha pouco, ou nada, a ver com a presente crise de erosão no litoral -- a expansão da água do mar por causa das temperaturas elevadas, e a maior disponibilidade de energia nos oceanos, talvez esteja mais relacionada ao problema, agora, do que a perda de gelo antártico, mas seria legal alguém contar isso pra gente, né não?)



Aos números: de acordo com dados de satélite, de 1992 a 2017, a taxa de derretimento da massa de gelo que recobre a Antártida Ocidental subiu de 53 bilhões de toneladas ao ano para 159 bilhões, um aumento de três vezes. Só na Península Antártica, essa elevação foi de 7 bilhões ton./ano para 33 bilhões ton./ano. Isso, meninos e meninas, é quase cinco vezes mais. O impacto disso no nível médios global dos oceanos foi de uma elevação de 8 milímetros. A Antártida contém gelo suficiente para causar uma alta de quase 60 metros no nível dos mares.

"Infelizmente, parecemos estar a caminho de uma perda substancial da massa de gelo nas próximas décadas, com consequências de longo prazo para elevação do nível do mar", disse, em nota, o glaciologista britânico Martin Siegert, do Imperial College London. "Se não estávamos ainda atentos aos perigos trazidos pela mudança climática, este deve ser um enorme sinal de alerta. A menos que reduzamos nossas emissões de CO2 na próxima década, e atinjamos uma economia de zero carbono nas próximas poucas décadas, estaremos amarrados a mudanças globais substantivas".

Siegert é coautor de de outro artigo na mesma edição da Nature, em que projeta cenários para o estado da Antártida em 2070 com base em dois diferentes pontos de partida -- a humanidade toma juízo, ou não. No cenário "sem juízo", a perda do gelo, que hoje descansa sobre o continente antártico, para o mar passa de 20%, gerando custos globais da ordem de trilhões de dólares.O colapso ecológico no continente, causado por fatores como o maior acesso de espécies invasoras e mudanças na química das águas, é trágico: esqueça os pinguins.

Já no cenário "com juízo",  a perda da massa de gelo fica em "apenas" 12%, gerando uma contribuição para a elevação do nível do mar de 6 centímetros (ante cerca de meio metro no cenário anterior). Nesta versão, ainda é possível que tenhamos pinguins no fim do século.

Em outra notícia relevante que o pessoal estava ocupado demais comentando a Copa que ainda nem começou para dar, os Estados Unidos registraram uma série de novos recordes de calor. Segundo a NOAA, o último quinquênio -- período de cinco anos -- foi o mais quente da série histórica para 48 dos 50 Estados da União.




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