Fé, longevidade, burrificação



Semana retrasada tive uma pequena maratona de eventos acadêmicos sobre divulgação científica -- aparentemente, hoje em dia não é de bom-tom, no meio universitário, realizar um seminário, sobre o que quer que seja, sem incluir pelo menos uma mesa redonda tratando do tema, o que parece indicar uma certa angústia, que precisa ser melhor explorada (e explicada). Mas, enfim: em quase todos os eventos do tipo, costuma recorrer uma questão que assume diversas formas, mas que pode ser exemplificada pelo trocadilho "como simplificar sem burrificar"?

Claro, muitas vezes a pergunta embute um quê de arrogância -- o subtexto sendo, "esse negócio que eu estudo é complicado demais, a plebe ignara nunca vai entender" -- mas há inúmeras situações em que a preocupação é legítima e real, principalmente quando a informação vai passar por um filtro midiático: isto é, vai ser reinterpretada  e "re-embalada" com base nos critérios usuais de novidade, alcance, capacidade de atrair e segurar atenção, de entreter, etc., que regem a comunicação de massa.

Um caso recente, e bastante didático, é o do estudo Does Religion Stave off the Grave? Religious Affiliation in One’s Obituary and Longevity, de pesquisadores da Universidade de Ohio,  que acabou caindo no jornalismo popular como Pesquisa Sugere que Quem Tem Fé Vive Mais.

O título jornalístico já começa descaracterizando o estudo: ele não diz respeito à "fé" individual, mas ao envolvimento em atividades religiosas. O que ele conclui é que as pessoas cuja religião é citada no obituário, no geral, morrem em idade mais avançada que as que não apresentam citação do tipo: isso significa não necessariamente que a pessoa tinha "fé", mas sim que era reconhecida -- por quem fez o obituário -- como membro de uma comunidade religiosa. A tradução para o "jornalistês", neste caso, representou uma simplificação que "burrificou" o resultado.

E isso por várias razões, além da óbvia descrita acima. Uma delas é que, assim como a maioria dos trabalhos que buscam ligar religiosidade a longevidade/saúde, o estudo é capaz apenas de apontar uma correlação, e não a forma da suposta relação de causa e efeito. Os próprios autores reconhecem isso, escrevendo que "é impossível desembaraçar a direção do efeito: se o envolvimento religioso aumenta a longevidade ou se pessoas saudáveis tendem a ser mais religiosas".

 Como mais de um crítico dessa modalidade de pesquisa já apontou, ser saudável é um pré-requisito para que alguém seja visto como um membro ativo e praticante de uma igreja: gente doente não está no culto, está acamada em casa, ou internada no hospital. A suspeita de que o envolvimento religioso é sintoma, e não causa, de boa disposição e saúde, na população estudada, ganha reforço em outro achado da pesquisa, que vê parte do suposto efeito positivo da religião mediado por outros fatores que dependem de corpo são, como a prática do voluntariado e envolvimento comunitário.

Além disso, como um amigo apontou, há dados internacionais que vão na direção oposta dessa alegada ligação entre fé e vida longa: a maioria dos 20 países de população mais religiosa do mundo está entre os de menor expectativa de vida. Na verdade, um excelzinho básico cruzando dados de religiosidade e expectativa de vida, numa amostra dos 40 países mais e menos religiosos do mundo, indica uma correlação negativa de 86% entre esses dois fatores.

A versão "burrificada" aqui seria assumir um elo causal indo diretamente da religião para a baixa expectativa de vida, e ignorar hipóteses alternativas -- por exemplo, a de que o desespero (um país com expectativa de vida de 50 e poucos anos certamente está em situação desesperadora) empurra as pessoas para a religião. No mínimo, no entanto, o dado internacional indica que a situação detectada no estudo divulgado pode ser bem específica da realidade sócio-econômica-cultural dos Estados Unidos.

Aliás, a descoberta mais interessante do estudo de Ohio, e que não parece ter sido muito discutida  na mídia, é a do efeito da cultura prevalente no meio para a longevidade de pessoas seculares ou religiosas. Como os autores pegaram obituários de diversas cidades dos EUA, eles aproveitaram para ver como o clima cultural de cada lugar afeta a longevidade, e viram que, nos municípios onde prevalece um clima mais aberto e liberal, a vantagem de longevidade das pessoas religiosas desaparece. O efeito mais pronunciado visto foi o de que pessoas sem religião morrem mais cedo em cidades religiosas e conservadoras. O que me soa um bocado sinistro.

Os autores apontam que esse resultado ligando a "personalidade" das cidades à longevidade dos diferentes grupos ainda é exploratório, e requer confirmação.

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