As aventuras de Hieron de Zenária

Entre as (poucas) pessoas que acompanham com atenção minha obra ficcional, várias costumam se queixar do que consideram um "desperdício" de cenários: neste mundo de dodecalogias com volumes de 500 páginas cada, eu insisto em criar universos ficcionais aparentemente complexos e detalhados que são descartados depois de aparecer em um único mísero conto.

"Você não vai voltar àquele mundo?", perguntam. E não é que eu me recuse a revisitar cenários por princípio, teimosia ou algo do gênero: é que, para mim, o mundo serve à história. Contada a história, ele perde sua razão de ser.

No entanto, existe um mundo que já revisitei algumas vezes: Darach, o continente em que baseei meu cruzamento pós-apocalíptico entre a Era Hiboriana e Zotique, e onde se passam as aventuras de Hieron de Zenária, um cientista errante que percorre os reinos da Terra numa espécie de paralelo com as andanças de um certo cimério.

Até hoje, visitei Darach e Hieron três vezes, em uma novela e dois contos. Por ironia do destino (ou num sinal de que faço bem em não insistir em reaproveitar cenários) essas histórias, espalhadas em fanzines e antologias, estão entre as menos populares que já escrevi.

Agora, no entanto -- e pela primeira vez --, as três estão disponíveis, simultaneamente, em formato e-book: são a novela Flores do Jardim de Balaur, e os contos Escaravelhos e a Filha do Duque de Ev e A Festa de Todos os Deuses. Sei que Festa foi a última aventura de Hieron a ser escrita. Já a ordem entre Flores e Escaravelhos é incerta: não me lembro de qual história escrevi primeiro, nem para qual inventei o personagem.

Assim como as histórias de Conan por Robert E. Howard, elas pinçam pontos distintos da carreira do protagonista -- eu sugeriria que os dois contos pegam Hieron ainda jovem, enquanto que Flores já apresenta o personagem mais adulto, mas posso estar enganado. Tenho, em alguma pasta perdida do HD, um embrião de uma quarta aventura de Hieron, envolvendo um lobisomem e um cenário semelhante ao da peça Romeu e Julieta, mas esse fragmento nunca passou do segundo parágrafo.

Criei Darach e Hieron numa época em que estava totalmente imerso em sword-and-sorcery, passando de modo mais ou menos indiscriminado de Frtiz Leiber para Clark Ashton-Smith e Michael Moorcock, e de volta. Confesso que cheguei até a esboçar um mapa do continente -- duas vezes, e com bem poucas semelhanças entre um e outro, na verdade.

O único ponto fixo era Zenária, uma espécie de Atenas, onde mestres-filósofos treinavam aprendizes nas artes da lógica e da retórica, e de onde partira Hieron, cansado dos debates e embates teóricos de seus mestres, sedento por contato empírico com o mundo. Agora com a disponibilidade simultânea das três histórias, talvez mais pessoas se interessem pelo estudante irrequieto e seu caminho. Quem sabe?


Comentários

  1. Coincidência, comprei o Flores do Jardim de Balaur na sexta-feira se me lembro bem e o li no domingo (13/03/16). Gostei bastante. Avalei com 5/5 estrelas, espero que incentive mais gente a conhecer o livro. Fiquei pensando até se haveria outros contos do Hieron, legal, agora já tenho o que ler. Obrigado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, valeu! Espero que curta as outras histórias também!

      Excluir
  2. Gostei mesmo! O que curti mais é essa mistura de ciência com sobrenatural e como o Hieron vai desbravando a coisa toda, gostei da forma que faz a narrativa. Mas e agora? Posso pedir por alguma sugestão?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ei, Rodrigo, que bom! Fico muito contente. Olha, correndo o risco de estar forçando a barra no marketing pessoal, tenho outras histórias que fazem essa ponte ciência-pesudociência-sobrenatural, todas avulsas e também disponíveis na Amazon, mas a pegada nelas é mais pra ficção científica e terror, não fantasia: a antologia "Campo Total" reúne boa parte delas. Se você lê inglês, dois autores que fazem fantasia mais ou menos na linha do que fiz com o Hieron são Michael Shea e Jack Vance (do Vance tem alguma coisa traduzida, em sebos). Se você quiser explorar mais material nacional, Cirilo Lemos, Octavio Aragão e Lucio Manfredi são boas pedidas pra começar.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência