Antes do Big Bang?

A ideia de um multiverso -- isto é, de que o que chamamos de "Universo observável", tudo que existe entre nós e o horizonte da radiação de fundo deixada pelo Big Bang, é apenas um exemplar dentre muitos (possivelmente infinitos) outros -- anda me perseguindo, ultimamente.

Confesso que fui eu quem começou a persegui-la, quando peguei para ler, no início do ano, o mais recente livro de Brian Greene, The Hidden Reality: Parallel Universes and the Deep Laws of the Cosmos, que já mencionei anteriormente.

Mas o conceito reapareceu, um tanto quanto inesperadamente, em The Fallacy of Fine Tunning, de Victor Stenger (que comentei aqui). Stenger diz que Universos paralelos não são necessários para explicar o aparente "ajuste fino" das leis da natureza que permitem a existência de vida como a conhecemos, mas também não vê razão para rejeitá-los a priori.

Avaliação que me veio à mente por conta de um debate que está rolando no site em inglês da Scientific American, sobre, exatamente, o mérito científico da ideia de outros Universos.

O argumento contrário é fácil de articular: a ciência deve, sempre que possível, evitar apelar para entidades inobserváveis ao construir suas explicações -- uma hipótese científica é, fundamentalmente, uma proposta que que pode ser testada por meio de observações ou, ao menos, por meio de deduções lógicas feitas a partir dos resultados de observações.

Universos fora do Universo observável são, por definição, inobserváveis. Logo, não são entidades adequadas para uma hipótese científica. Fim da história.

Ou não? Em seu breve comentário sobre a questão,  Stenger argumenta que, se um ente inobservável é resultado de uma dedução válida, feita a partir de uma teoria sólida -- que dá conta dos dados observáveis e que já sobreviveu a diversos testes -- não há motivos para rejeitá-lo de cara (claro, ele pode cair se a teoria em que está engastado for abandonada). Um exemplo que ele cita são os quarks, que simplesmente não podem ser vistos isoladamente: não existe um quark sozinho.



Uma das teorias que abre caminho para o multiverso é a da inflação, segundo a qual o espaço passou por um período de expansão extremamente acelerada em algum momento do passado distante. Quando a aceleração diminuiu, a energia que vinha empurrando os pontos do espaço uns para longe dos outros se transformou em matéria e radiação, mais ou menos como a  brecada brusca de um carro produz calor nos pneus. E é essa parada súbita que chamamos de Big Bang.

Sacou? A inflação teria ocorrido antes do Big Bang. Daí o título da postagem. E o que faz a inflação meter o pé no freio é um evento quântico -- o que significa, regido pelas leis da probabilidade. Isso permite supor que a freada possa acontecer em momentos diferentes em locais diferentes, causando vários Big Bangs.

Adaptando a imagem usada por Brian Greene, é como se o Universo em expansão acelerada fosse um pão crescendo no forno, e as regiões "em Big Bang" fossem as bolhas de gás carbônico que se formam na massa. Ou, os buracos num queijo suíço.

(Se me permitem um momento de cabotinismo: a ideia de que Universos são bolhas dentro de uma massa infinita aparece em meu conto A Macabra Morte de McMurdock, escrito muitos, muitos anos atrás...)

A possibilidade do multiverso de bolhas, então, cai ou se sustenta na força da teoria da inflação. Que, ao menos por ora, parece bem sólida. Além da conexão lógica com o Universo inflacionário, no entanto, os "Universos-bolha" podem ter deixado sinais observáveis por aí -- nossa bolha pode ter sentido, por exemplo, os efeitos da colisão entre outras bolhas próximas. Esses sinais apareceriam no pano de fundo de micro-ondas, mais ou menos como os que Roger Penrose diz ter encontrado.

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