A falácia do ajuste fino

Finalmente dei conta de terminar The Fallacy of Fine Tuning, do físico Victor Stenger, livro que, com o perdão do pleonasmo, "encara de frente" os argumentos de que as constantes e leis da Física parecem ter sido "escolhidas a dedo" para permitir a existência de vida inteligente baseada em carbono -- ou seja, nós.

Stenger é o representante das ciências exatas no time dos "novos ateus", o grupo de personalidades públicas do mundo de língua inglesa que resolveu deixar a clássica timidez do ateísmo filosófico de lado e partir para o ataque contra as religiões. Seu livro God: The Failed Hypothesis, que trata a questão da existência do tradicional Deus judaico-cristão-islâmico como uma hipótese científica (e termina por rejeitá-la) chegou à lista de best-sellers do New York Times.

Curiosamente, do grupo dos "novos ateus"  -- Dawkins, Hitchens, Dennett, Harris --, Stenger é o único que continua inédito no Brasil (ao menos, uma busca por seu nome na Livraria Cultura só traz títulos importados). Isso é, até certo ponto, fácil de entender: ele muitas vezes ilustra seus argumentos com equações que podem assustar quem não tem um bacharelado em física ou engenharia.

Mesmo assim, sua linguagem é clara e direta, e ele é capaz de articular ideias com grande precisão (como pode ser visto neste artigo).

Em The Fallacy of Fine Tunning, Stenger faz -- para minha surpresa, confesso -- picadinho da chamada "ressonância de Hoyle", a noção de que o a´tomo de carbono precisa ter um nível de energia extremamente preciso para que o elemento, do qual os seres vivos da Terra são feitos, exista na abundância necessária para sustentar vida.

De fato, diz ele, o nível de energia do núcleo do átomo de carbono descoberto por Fred Hoyle poderia variar em até 15% e, ainda assim, produzir carbono suficiente para permitir que você exista e leia esta postagem.

Em linhas gerais, o livro de Stenger elabora dois argumentos que eu já havia encontrado na obra do matemático Ian Stweart e do biólogo Jack Cohen. O primeiro é o de que as características do Universo só aparentam "ajuste fino" quando analisadas uma de cada vez. Por exemplo, se a intensidade da atração gravitacional entre próton e elétron fosse muito maior, átomos seriam inviáveis. Certo, mas e se essa atração fosse maior e a massa do próton, menor?

Desse modo, nosso Universo capaz de gerar seres humanos não representa um ponto infinitesimal no espaço de todos os Universos concebíveis, mas sim é apenas um ponto dentro de um grande volume de Universos amigáveis à vida como a conhecemos. Para gerar esse volume, basta permitir que diversas constantes físicas variem juntas, em vez de cravar todas e fazer com que apenas uma mude.

O segundo argumento é o de que nós sabemos muito pouco sobre quais as condições necessárias para a vida em geral. Mesmo um Universo onde vida humana seja impossível não é, necessariamente, um Universo sem vida. A afirmação de que vida só é concebível dentro do volume do espaço de todos os Universos possíveis onde as condições são adequadas para que exista química orgânica como a entendemos é arrogante.

Comentários

  1. Não lembro onde li:

    "O Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos. É mais estranho do que somos capazes de imaginar."

    E obviamente a definição de "vida" deve ser bem mais ampla do que a definição de "vida terrestre".

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  2. Microempresário: Isso não é do Mochileiro das Galáxias.

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  3. É lamentável a ausência de livros do Victor Stenger traduzidos para o português. Acho que nem mesmo o "argumento da equação matemática complicada" pode ser usado aqui como motivo, por causa de um grande exemplo que me vem à mente e que merece ser citado: A Mente Nova do Rei, de Roger Penrose.

    O livro do Penrose é recheado de equações herméticas aos não-iniciados em matemática avançada - como eu, que tive que me contentar apenas com os trechos mais palatáveis do livro.

    Acho que Stenger merece ser publicado aqui, nem que tenha que ser por uma editora universitária (uma Unesp da vida, etc...).

    No mais, excelente artigo sobre a questão do ajuste fino, Carlos Orsi!

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  4. Marcelo Porto Allen21 de julho de 2011 12:07

    Eu tendo a pensar nessa questao do "ajuste fino" para criar condicoes de vida no Universo ou na Terra como um vies observacional. Nos so poderiamos existir num Universo ou numa Terra que tivessem condicoes de nos sustentar. O fato de estarmos aqui, ainda que muitas outras possibilidades pudessem ter ocorrido, e' uma decorrencia de que, se nao fosse assim, nao estariamos aqui para fazer essa observacao. Num universo desabitado, nao havera ninguem para perceber isso.

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  5. Se fosse assim pq o sistema solar não contem vários planetas iguais a terra?
    Mesmo o universo, que sequer existiria se suas constantes fossem mudadas...é preciso muita fé para crer no acaso.

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