Adeus, tenente Columbo

Eu não ia postar nada neste feriado, mas a morte do ator Peter Falk, que durante décadas interpretou o tenente Columbo da polícia de Los Angeles na televisão -- primeiro no seriado dos anos 70, e depois uma longa série de especiais -- não podia passar em branco aqui no blog.

Sei que o chique é idolatrar seriados como Sienfeld ou Lost ou, entre os nacionalistas, a obra de Janete Clair ou Dias Gomes, mas para mim o ápice da arte de escrever para televisão foi atingido em Columbo. Existem três  temporadas do seriado disponíveis em DVD no Brasil, e esses são, provavelmente, os discos mais repassados no meu fiel aparelho.

(Quando eu estava na faculdade, irritava minha mãe ao insistir em voltar para São Paulo na tarde de domingo -- cedo demais, ela dizia, por que você não passa mais tempo com a família? A resposta era que o sinal da Record era muito ruim em Jundiaí, e eu não queria perder o episódio de Columbo.)

Mas, enfim, de que se trata? Columbo era um seriado policial inovador na medida em que adotava não o formato "whodunit" (quem cometeu o crime), mas sim "howcatchtem" (sabendo quem é o culpado, como pegá-lo?).

Um episódio-padrão de Columbo tinha cerca de 90 minutos: na primeira meia-hora, o telespectador assistia enquanto o crime era cometido: víamos o motivo, a arma, a oportunidade, as providências do criminoso para esconder seu feito. Nos 60 minutos seguintes, víamos o tenente Columbo descobrir, um a um, todos os erros cometidos pelo assassino -- erros que nós mesmos, os Watsons da poltrona, não tínhamos percebido --  e lançar uma série de armadilhas psicológicas que acabavam levando o assassino a confessar ou a produzir a evidência necessária para condená-lo.

Columbo, diga-se de passagem, não andava armado.

O seriado teve vilões clássicos, como o enólogo interpretado por Donald Pleasance, que mata o irmão que decidira vender os vinhedos da família; o cantor gospel assassino interpretado por ninguém menos que Johnny Cash, o maestro frio e calculista vivido por John Cassavetes; e vítimas memoráveis, como o escritor de best-sellers interpretado por Mickey Spillane.

O seriado nasceu de uma peça de teatro escrita pela dupla Richard Levinson e William Link, na qual um psiquiatra cria um plot perfeito para matar a esposa rica -- ou um plot que parece perfeito, até que Columbo entra em cena. A peça foi filmada, já com Peter Falk no papel, anos antes do detetive ganhar seu seriado. O primeiro episódio da série foi dirigido por um jovem de 25 anos, Steven Spielberg.

Após a morte de Levinson, nos anos 80, Link escreveu um livro, The Columbo Collection, com aventuras do detetive.

As contribuições de Peter Falk à construção do personagem também são famosas: o ator, que tinha um olho de vidro, usava o olho ligeriramente fora de centro para fazer o personagem, dando ao detetive um ar apalermado (a estratégia básica de Columbo era fazer-se subestimar pelos suspeitos); além disso, o sobretudo amarrotado, marca registrada de Columbo, foi outra ideia do ator.

Se bem me recordo, Paulo Francis certa vez escreveu que Columbo era um torturador, pior que os assassinos que prendia -- já que a técnica psicológica do personagem, de induzir o culpado a confessar, muitas vezes envolvia boas doses de crueldade mental: Columbo ou dava a entender ao culpado, por meio de elipses e circunlóquios, que sabia quem ele era e o que tinha feito, causando não pouca angústia, ou se fazia de tolo, gerando um falso senso de segurança que precedia a queda.

E agora, Peter Falk se foi. Ele interpretara Columbo pela última vez em 2003 -- tinha vestido a pele do tenente pela primeira vez em 1968. Por pouco não completou 40 anos como o mais sagaz dos detetives da televisão.

Comentários

  1. so agora fiquei sabendo ja que estou a procura do dvd p presentiar meu pai que e louco pelo tenente colombo

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência