Borges e a Mecânica Quântica

Redijo estas maltraçadas do quarto de um hotel de qualidade duvidosa em Fortaleza, Capita do Ceará. A única cadeira do apartamento é tão baixa que, para alcançar o teclado do laptop, tenho de empilhar os dois travesseiros da cama sobre a almofada da sobrecitada.

Estou aqui a serviço da Unicamp, onde comecei a trabalhar há cerca de um mês, mas não reclamo: além de estar visitando o Nordeste (ainda que com uma conta de despesas que não pagaria o cadarço do pé esquerdo do Sarney, daí o hotel), a redação onde fico na universidade é muito próxima a uma livraria da Editora da Unicamp.

Onde, é claro, acabo deixando parte significativa do salário -- eles estão com uma promoção de poesia clássica fantástica, já comprei um livro de poemas eróticos greco-romanos, uma tradução do Orlando Furioso e uma da Ilíada -- incluindo o livro que dá título a esta postagem, Borges e a Mecânica Quântica, do físico argentino Alberto Rojo.

Definir o trabalho de Rojo para o leitor brasileiro é complicado. Chamá-lo de Marcelo Gleiser argentino faz tanto sentido -- do ponto de vista da qualidade literária -- quanto dizer que Paulo Coelho é o Borges brasileiro. Se tivesse sido publicado por uma das editoras queridinhas do circuito dos cadernos culturais, Borges e a Mecânica Quântica teria sido capa, quiçá alvo de caderno temático; como saiu pela Editora da Unicamp, acaba ficando por aqui, mesmo.

(Eu mesmo só soube do livro porque o vi na livraria dentro do campus.)

À semelhança das obras de divulgação de Carl Sagan ou das saudsodas Antologias de Isaac Asimov, o livro de Rojo é composto de ensaios, mais ou menos organizados me torno de um eixo comum, a interface entre ciência e literatura. O ensaio inicial, da onde sai o título da coletânea, Rojo chama atenção para o fato de que a descrição do jardim de Tsui Pen, no conto O Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam, de Jorge Luis Borges, antecipa, não só conceitualmente, mas também na própria escolha de palavras, a elaboração da teoria dos muitos mundos da mecânica quântica, proposta mais de uma década após a composição da peça ficcional. Informado do fato, diz Rojo, Borges teria reagido com a exclamação: "Como são criativos os físicos!".

Outro ponto de contato entre ciência e letras aparece na descrição de Rojo para o surgimento da hipótese de que a decomposição de cadáveres atrai insetos (em oposição à ideia clássica, aristotélica, de que os vermes são gerados pelo corpo morto). Ela teria nascido de um verso da Ilíada, em que o corpo de Pátroclo é coberto por um véu para evitar a contaminação por moscas e quetais.




Comentários

  1. Carlos, boa noite. Sei que deveria escrever algo sobre o texto "Borges e a Mecânica", mas como não sei outra maneira de me comunicar com você por isso usei este local. Será lançado o filme Apolo 18, e me parece que o assunto é bem interessante, porém uns dizem que é verdade o tema do filme e outros dizem que é mentira, sensacionalismo, etc, você tem alguma informação sobre o tema deste filme?

    ResponderExcluir
  2. Oi, Ivan! O filme é uma peça de ficção -- umaespécie de Blair Witch Project de ficção científica. Pelo que ouvi dizer, parece até que é um bom filme, mas esse papo de que se trata de um documentário é pura jogada de marketing...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"