Da faixa de pedestres ao homem-bomba

Uma pequena joia psicológica é a reportagem desta segunda-feira, no Estadão, sobre o comportamento dos motoristas de São Paulo em relação às faixas de pedestres. O título já dá uma boa ideia do que se vai encontrar no texto: 89% dos paulistanos desrespeitam faixa de pedestre. Mas acreditam estar certos.

O assunto prossegue em outro texto da mesma edição, 4 em cada 10 temem batida se pararem na faixa, cujo teor me fez lembrar de um conceito de psicologia social que encontrei pela primeira vez lendo The Psychology of Terrorism, de John Horgan: o erro fundamental de atribuição.

Basicamente, esse é um viés psicológico que tende a levar as pessoas a atribuir seus próprios erros às circunstâncias, e os erros dos outros a defeitos pessoais deles. Em outras palavras: quando eu tropeço, é porque as calçadas são mal conservadas; já quando vejo outra pessoa tropeçando, é porque ela é uma desajeitada que não olha por onde anda.

O "erro fundamental", diz Hogan, ocorre dos dois lados da questão do terrorismo: tanto do lado dos terroristas e simpatizantes (que veem os ataques como resultado de"provocações") quanto do lado das vítimas e adversários (que muitas vezes encaram os terroristas como "anormais", "loucos", etc.).

Em um grau diferente, não é difícil encontrar a mesma coisa no trânsito. Qual foi a última vez que alguém que você conhece, ao comentar um acidente em que se viu envolvido, reconheceu algum tipo de culpa -- ou deu um "desconto" para a outra parte?

 Exceto em casos envolvendo objetos inanimados -- árvores, postes -- onde a, digamos, neutralidade moral da outra parte é impossível de contestar, é extremamente raro ver um motorista reconhecer o próprio erro.

Ligada ao erro fundamental de atribuição, muitas vezes aparece a falácia do mundo justo. Essa é a ideia de que pessoas que se dão mal na vida mereceram se dar mal.

Agora, é preciso distinguir a falácia da mera constatação de que ações têm consequências, e de que decisões ruins tendem a gerar resultados ruins. A falácia surge quando, primeiro, o fator sorte é ignorado; e, segundo e até mais importante, quando se veem implicações morais nos resultados. O ponto-chave é a noção de merecimento: o multimilionário, a supercelebridade, a mulher estuprada, a vítima do terremoto, os passageiros do avião que caiu, os viciados em drogas têm exatamente o que merecem.

A falácia do mundo justo pode ser reconfortante -- se eu não fiz nada errado, não vou sofrer ou, se estou sofrendo, é para meu próprio bem -- mas também ajuda a justificar crueldade e injustiça -- se o sofrimento daquela pessoa é um castigo justo, não há motivo para ajudá-la.

A ideia tem um evidente apelo religioso, também, sendo praticamente um corolário da premissa de que o mundo é regido por uma justa providência. Mas seu caráter falacioso foi reconhecido há séculos pelos teólogos, que trataram de empurrar o mundo justo para depois da morte.

Comentários

  1. O Cracked acabou de publicar um artigo que fala sobre essas duas falácias, embora não explicitamente. Vale à pena a leitura também:

    http://www.cracked.com/article_19177_5-shocking-ways-you-overestimate-yourself.html

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