segunda-feira, 26 de março de 2012

Têmis, a Justiça cega, viola a laicidade do Estado?


Na linha "desculpas esfarrapadas para não desfazer uma flagrante bobagem", alguns defensores da permanência dos crucifixos em repartições públicas (e, mais especialmente, nos plenários dos tribunais) resolveram se lembrar de que a imagem tradicional da Justiça, que aparece em estátuas e pinturas em diversas cortes -- uma senhora de olhos vendados e com uma balança na mão e uma espada na outra -- reflete, na verdade, a iconografia da deusa grega Têmis, e ninguém parece se incomodar com isso. 

Então, se Têmis não incomoda, por que o Crucificado incomodaria? É óbvio que esses laicistas-militantes-assassinos-terroristas estão só de implicância e sacanagem! 


Devo dizer que não me oponho, em princípio, à retirada dessas estátuas, caso alguém realmente insista que deve haver algum tipo de isonomia in extremis. Muitas delas são realmente feiosas. Mas aí o critério é estético, não jurídico. Na esperança de que a tentativa de se criar uma "questão Têmis" seja provocada mais por confusão e ignorância do que má-fé, explico.

Assim como Hermes (cujo capacete de asinhas virou o símbolo do comércio) ou Atena (coruja, elmo, égide  = sabedoria), sua figura virou uma abstração, um símbolo puro; não é mais objeto de culto, não tem caráter sectário, representando uma facção da sociedade em exclusão às demais; é apenas uma metáfora visual.

O caso do crucifixo, claro, é outro. Os defensores da permanência dele nos tribunais tentam argumentar nessa linha, que a imagem é apenas uma "metáfora visual" de alguma coisa (perdão, misericórdia, whatever), mas qual foi a última vez que você viu alguém ser processado e exilado depois de chutar uma imagem de Têmis na TV, como aconteceu com o pastor que chutou a santa?

Há que se considerar o que os teólogos chamam de Sitz im Leben, o "contexto vivo" do símbolo. 

A ligação entre a imagem atual da Justiça e o culto pagão greco-romano é uma curiosidade histórica, uma nota de rodapé em livros de mitologia. E o símbolo em si é repleto de significados: os olhos vendados, indicando que a Justiça deve julgar igualmente a todos, sem fazer distinções; a balança, sugerindo equilíbrio e justa medida.

Já a ligação do crucifixo com o culto cristão é da própria essência do símbolo, e define todos os significados que se possa ou queira extrair dali. Se a imagem de Têmis representa um ideal universal de Justiça, a imagem de Jesus crucificado representa Jesus crucificado. Figura que, para os cristãos, pode até ter outros significados mais sublimes. Mas nem todo mundo é cristão. O que nos traz de volta à origem do problema, afinal.

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