Têmis, a Justiça cega, viola a laicidade do Estado?

Então, se Têmis não incomoda, por que o Crucificado incomodaria? É óbvio que esses laicistas-militantes-assassinos-terroristas estão só de implicância e sacanagem!
Devo dizer que não me oponho, em princípio, à retirada dessas estátuas, caso alguém realmente insista que deve haver algum tipo de isonomia in extremis. Muitas delas são realmente feiosas. Mas aí o critério é estético, não jurídico. Na esperança de que a tentativa de se criar uma "questão Têmis" seja provocada mais por confusão e ignorância do que má-fé, explico.
Assim como Hermes (cujo capacete de asinhas virou o símbolo do comércio) ou Atena (coruja, elmo, égide = sabedoria), sua figura virou uma abstração, um símbolo puro; não é mais objeto de culto, não tem caráter sectário, representando uma facção da sociedade em exclusão às demais; é apenas uma metáfora visual.
O caso do crucifixo, claro, é outro. Os defensores da permanência dele nos tribunais tentam argumentar nessa linha, que a imagem é apenas uma "metáfora visual" de alguma coisa (perdão, misericórdia, whatever), mas qual foi a última vez que você viu alguém ser processado e exilado depois de chutar uma imagem de Têmis na TV, como aconteceu com o pastor que chutou a santa?
Há que se considerar o que os teólogos chamam de Sitz im Leben, o "contexto vivo" do símbolo.
A ligação entre a imagem atual da Justiça e o culto pagão greco-romano é uma curiosidade histórica, uma nota de rodapé em livros de mitologia. E o símbolo em si é repleto de significados: os olhos vendados, indicando que a Justiça deve julgar igualmente a todos, sem fazer distinções; a balança, sugerindo equilíbrio e justa medida.
Já a ligação do crucifixo com o culto cristão é da própria essência do símbolo, e define todos os significados que se possa ou queira extrair dali. Se a imagem de Têmis representa um ideal universal de Justiça, a imagem de Jesus crucificado representa Jesus crucificado. Figura que, para os cristãos, pode até ter outros significados mais sublimes. Mas nem todo mundo é cristão. O que nos traz de volta à origem do problema, afinal.
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