Videntes de São Paulo

Já escrevi pelo menos uma vez neste blog criticando a tendência da grande imprensa brasileira de tratar as pautas que poderiam ser chamadas de paranormais -- da astrologia à ufologia, passando por temas como profecias, êxtases religiosos, tarô, curas milagrosas -- com um viés meio etnográfico, limitando-se a descrever os fenômenos num tipo de texto que às vezes se esforça um pouco demais para soar "literário" e com um tom que vai da condescendência metida a besta (geralmente reservada para os fãs de disco voador) à reverência servil (qualquer "milagre" que venha da Igreja Católica). Um enfoque crítico e objetivo parece, sempre, fora de questão.

Mas, veja só, nem tudo está perdido. Neste domingo o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem especial de uma página, intitulada Dos postes às mesas dos videntes de São Paulo que, se repete muitos dos cacoetes da velha abordagem etnográfica -- incluindo o tom "espertinho", a forçada de barra literária, a preferência por fontes "especialistas" crédulas -- pelo menos não tem medo de mostrar a cara feia do mercado de videntes e "amarrações para o amor", e nem tenta relevar a feiura intrínseca dessas práticas com um verniz de relativismo cultural, conforto psicológico ou o que seja. É um avanço.

O que a imprensa brasileira segue devendo a seus leitores é um esforço de reportagem que vá realmente fundo nessas práticas, apontando com números e histórias humanas --  para além da experiência subjetiva da repórter -- o mal que esse tipo de fraude causa, e a crueldade implícita na exploração que faz do desespero e do desamparo de suas vítimas.

O que estou propondo não é, aliás, nenhuma novidade: The New York Times já relegou as narrativas sobre videntes e cartomantes a sua página policial há tempos (por exemplo, aqui e aqui) e o site CNN Money fez uma longa série a respeito de uma fraude internacional de leitura da sorte, aqui. Assim como aconteceu nos Estados Unidos, algum dia, aqui no Brasil, esse tipo de assunto vai ter de sair da crônica de costumes e virar reportagem séria. O texto recente do Estadão é um passo na direção certa. Que tal percorrer o resto do caminho?

Comentários

  1. O mais engraçado foi o mecanismo de publicidade me indicar uma vidente, logo abaixo do texto :)

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