Meu primeiro curso à distância

Concluí, no fim da semana passada, o curso de Introdução à Lógica da Coursera, composto por vídeos e atividades interativas, oferecido por dois professores de Stanford. Além de me capacitar a produzir provas usando indução linear e por contradição, dentro do cálculo lógico de Fitch, permitir-me demonstrar cabalmente que ~(a&b) equivale a (~a|~b) e me ensinar a manipular quantificadores ("qualquer que seja X...", "existe X, tal que...") como um malabarista jogando laranjas para o alto, o curso foi muito útil e interessante sob o aspecto de uma experiência pura e simples.

Foi, afinal, meu primeiro contato "mãos na massa" com educação à distância e, mais especificamente, com a nova onda dos MOOCs, ou Massive Open Online Courses,  tendência que, segundo alguns analistas, pode representar, para as universidades tradicionais, o mesmo que a Amazon.com representou para as cadeias de livrarias dos Estados Unidos, ou que o noticiário online está representando para os jornais e revistas em todo o mundo.

Já há algumas instituições de primeira linha investindo em MOOCs, mais notavelmente Harvard e o MIT, que estabeleceram uma parceria para explorar o campo, a edX. O ponto "Big Bang" da área ocorreu em Stanford, onde em 2011 foi oferecido um curso online gratuito de Introdução à Inteligência Artificial que atraiu 160.000 estudantes -- dos quais 22.000 completaram a disciplina. De lá para cá, o criador desse curso pioneiro, Sebastian Thrun, deixou a universidade para se lançar ao mercado com uma empresa de MOOCs, a Udacity.

O fato de Thrun ter saído da universidade revela um dos pontos de atrito entre o "novo" modelo e o tradicional: as universidades estabelecidas vêm sendo extremamente ciumentas com seus créditos e diplomas. Embora tenha sido criado e lecionado por professores de Stanford, por exemplo, meu bimestre de Introdução à Lógica não valerá nenhum mísero crédito na hipótese (improvável) de eu um dia resolver cursar Matemática nessa mesma instituição. Da mesma forma, embora traga a chancela do MIT e de Harvard, o edX não emitirá créditos ou diplomas acreditados por essas instituições.

As razões por traz disso são tanto econômicas quanto culturais. Sob o aspecto econômico, bolas, se for possível conseguir créditos de Harvard em casa e de graça, para quê pagar para frequentar Harvard? O aspecto cultural é um pouco mais complicado, e envolve desde o arraigado preconceito contra a educação à distância, até resistência burocrática e, suponho, o medo atávico de que o mundo acadêmico seja tomado de assalto por um fenômeno a que gosto de me referir como efeito tenor.

O nome do efeito vem do exemplo que encontrei -- não me lembro onde, mas a historinha não é minha, li isso em algum lugar -- sobre o declínio dos "tenores de bairro". Assim: antes da disseminação do fonógrafo, todo bairro com alguma população italiana expressiva tinha seu tenor, que cantava nas festas de família, quermesses, etc. Com a popularização do registro fonográfico, porém, todo mundo podia ter Caruso em casa, e o tenor do bairro foi para o beleléu.

Agora, imagine que Richard Feynmann -- segundo a lenda, o melhor professor de Física de todos os tempos -- redivivo, começasse a preparar aulas online, com apresentações em vídeo, correção de exercícios automática por software, animações explicativas, fórum de discussão para tirar dúvidas, etc. Imagine, mais, que essas aulas contassem créditos, reconhecidos por instituições de ensino superior de todo o mundo.

Pergunta: quem, em sã consciência, iria querer assistir às aulas de Física do professor da universidade da esquina? A ideia de trocar milhares de professores medíocres e sonolentos por um punhado de verdadeiros gênios da transmissão de conhecimento pode soar tentadora mas, em sua face perversa, o "efeito tenor" pode levar a um descolamento perigoso entre ensino e pesquisa na educação superior.

Afinal, Feynmann era um colosso didático e um pesquisador de nível Nobel, mas essa não é a regra. Por outro lado, não é justo que os estudantes de graduação tenham de suportar (como ocorre hoje em muitos lugares) aulas sem graça só porque os professores são exímios redatores de "papers". Os MOOCs poderão trazer um novo tipo de desequilíbrio entre ensino e pesquisa.


O medo do "efeito tenor" produz como reação a busca por reservas de mercado, e no momento a forma que a reserva toma é esta: os MOOCs não contam créditos. Fica em aberto, no entanto, a questão de como o mercado de trabalho reagirá às "credenciais", como são chamadas, produzidas pelos MOCCs.

Em áreas menos engessadas por exigências de diploma e coisas do gênero, onde competência conta mais que papelada, é possível que os melhores cursos online comecem, em breve, a minar o público dos presenciais. Quando -- se -- o dia chegar em que as barreiras burocráticas passarão a ser vistas como meros baluartes de privilégio, bom, a ver veremos.

Para mim, que tenho uma profunda resistência ao burocratês típico dos meios acadêmicos tradicionais e não estou lá muito interessado em créditos para acolchoar o currículo, os MOOCs são uma dádiva, não dos céus, mas da santa tecnologia. Tanto que já me inscrevi em outro. Sinto-me confortavelmente em casa, nesta era, um tanto quanto paradoxal, do autodidatismo teleguiado.

Comentários

  1. Baseado no teu texto posso imaginar um futuro assim:

    MOOCs se tornam responsáveis pelo grosso do ensino superior, as universidade públicas ficam 'livres' para produzir pesquisa e novos conhecimentos, e servem no máximo como espaço de troca de conhecimentos e auxílio para entendimento das aulas dos MOOCs. Diplomas de MOOCs valem tanto (ou até mais) do que universidades 'tradicionais'.

    Me parece que alunos ganham pois podem estudar o que querem e como quiserem, os professores que não gostam de dar aula podem se dedicar à pesquisa, e os professores que gostam de lecionar podem continuar ministrando os seus cursos, mas vão ter que se esforçar mais para atrair alunos (visando quem sabe terem seus próprios MOOCs).

    Não me parece ruim.

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  2. Acho que os MOOCs não substituirão as aulas apenas criarão uma nova dinâmica de ensino. Como você disse todos vão preferir aprender com Feynmann do que com qualquer outro professor, isso é fato, até eu gostaria. Mas a ciência evolui e novas descobertas tem que ser ensinadas, daí, novos MOOCs surgiram, aulas presenciais serão necessárias para refinar e melhorar as discussões. E quando falo de aula presencial me refiro a aulas ao vivo, incluindo casos de video conferência.

    Na minha opinião aulas expositivas são um saco! Eu acredito que os MOOCs são a salvação dessas aulas. Pense que um professor não mais precisará de ficar repetindo o mesmo conteúdo todo o semestre por anos e anos. Basta gravar um bom MOOC para que todos tenham acesso. A função do professor passa a ser apenas de pesquisador e orientador dos alunos que acompanham os MOOCs. Isso sim é o ideal de ensino.

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  3. Rapaz, essa ideia é simplesmente genial. Sou professor universitário. Pensarei bastante nisso. Abção.

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  4. Carlos. Observando o crescente aumento das faculdades/universidades particulares no Brasil, com mensalidades baixas e qualidade talvez na mesma direção do preço, e onde o que interessa é o "canudo" (ou seja, o diploma), o MOOC não será um concorrente. Afinal para se fazer um EAD a dedicação tem que ser grande e, como vc citou, a vontade de ser "autodidata" deve estar presente. Uma pessoa que vai em direção ao MOOC deve, no mínimo, valorizar o conhecimento, e não somente o certificado de conclusão. Sou engenheiro, e se após a conclusão de um destes cursos on-line eu conseguir aplicar em alguma coisa no meu trabalho, já valeu. Porém tudo que se incia na internet tende a ser cobrado posteriormente (vejamos alguns jornais digitais - e que tradicionalmente são/eram impressos - que estão doidos por cobrar do conteudo on-line; os e-mails que não são grátis; ter o curriculo em um banco de dados pago, etc, etc.).

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  5. A principal vantagem em qualquer ensino com tutoria é a de se facilitar na triagem das informações, em dar o caminho das pedras pros estudantes, o qual o autodidata iniciante sempre tem uma certa dificuldade de descobrir. E também de cobrar o desempenho e avaliar o resultado do ensino.

    É claro que o método de ensino à distância contém muitas das características do ensino presencial, e mesmo nos tempos atuais no ensino médio nem sempre o elaborador das avaliações escritas é a mesma pessoa que ministra as aulas. Porém, uma das principais e mais fortes características do sistema de aulas presenciais é a interação pessoal transversal entre os alunos da turma e destes com os demais integrantes do corpo universitário, o que fatalmente se aniquilaria no ensino à distância. A virtualidade de contacto, p.ex., é enganosa na medida que respostas automáticas podem ser aparentemente mais justas, mas mais sujeitas a acertos aleatórios. E ainda tem o fato que a expressão escrita é necessariamente mais pobre que a oral e de inexistirem sistemas automáticos interativos bons o suficientes para deslindar as dúvidas mais severas de que nem os alunos tem noção direito (e se colocar vídeos para que se atinja uma interação remota com tutores vivos só deslocaria o problema).

    Temo principalmente pela pulverização do ensino, principalmente quanto aos aspectos de se perder o aspecto de "universidade" e recair na superespecialização das "faculdades"; em se continuar a tendência de cada vez mais isolar as pessoas e com isso se perder os aspectos sinérgicos de agregação nos ramos mais profundos do conhecimento; em se reduzir o aspecto de controle inter-pares em favorecimento de uma maior praticidade, ou da infiltração de outros interesses perturbativos como quastões de direito de imagem, remuneração dos envolvidos, e do aprofundamento dos feudos que sabemos existir no meio acadêmico.

    Uma vez questionei um contemporâneo meu do curso de engenharia de uns vinte anos atrás, agora prof. da UFRJ, sobre como eles conseguiam lidar com a maior facilidade de acesso à informação externa na avaliação os alunos, ele me respondeu "...e você acha que nós já não pensamos nisso?".

    Mas isto tudo não compensa o fato de que um maior emprego de palestras e seminários on-line nos temas de interesse seria uma ferramenta muito útil, e que deveria ser melhor aproveitada pelos departamentos universitários.

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