Escrevendo fantasia

Finalmente, saiu: minha novela de fantasia oriental As Dez Torres de Sangue já está à venda, online, para entrega a partir do fim do mês (edição em papel) ou imediata (edição digital, incluindo para Kindle). Este é apenas mais um dos lançamentos literários envolvendo minha pessoa neste ano e, ao lado do meu conto Antropomaquia, que aparece na antologia Fantasias Urbanas, é o único trabalho de ficção que escrevi, a sair em 2012, que não envolve ciência em nenhum aspecto fundamental (embora Antropomaquia seja um híbrido estranho de fc e fantasia, na verdade, mas deixo o juízo final para os leitores).

O que me traz à perene questão das fronteiras entre ficção científica e fantasia. Por um lado, os gêneros são próximos o bastante para serem representados por uma mesma organização profissional no mundo de língua inglesa, a SF&F Writers of America.

Ambos os gêneros também apelam para uma base de fãs percebida como largamente comum -- para ter uma ideia de até onde vai essa percepção, é só lembrar do hilariante episódio em torno do Um Anel de The Big Bang Theory, por exemplo.

E não nos esqueçamos de que Jorge Luis Borges, um autor universalmente identificado com a fantasia (ou "realismo mágico", para sermos pedantes) é também o escritor de ficção mais citado em "papers" científicos.





Mas, claro, além das semelhanças há também diferenças, em alguns casos irreconciliáveis. Entre as principais semelhanças há o fato de ambos os gêneros serem escapistas, não no sentido de alienantes (ficção realista também pode alienar muito bem, se for essa a intenção), mas de oferecerem ao leitor um modelo de realidade que escapa daquele a que estamos acostumados.

Esse caráter de modelo talvez seja o que atrai as sensibilidades mais científicas para a fantasia. Afinal, a possibilidade de postular modelos e investigar suas ramificações e satisfabilidade é uma das principais atrações da ciência.

Já quanto às diferenças, imagino que sejam principalmente duas, uma mais superficial, de vocabulário (espaço, planeta, nave, computador, versus mago, floresta, espada, dragão); outra, mais profunda, é meio como a que separa o jornalismo da literatura: no primeiro caso, sempre há alguém que pode desmenti-lo  se você escrever bobagem.

Não que a fantasia seja um "vale tudo", mas nela a principal preocupação é a consistência interna, a coesão do universo ficcional consigo mesmo, não a externa, uma correspondência e continuidade entre os eventos do universo ficcional e os fatos do mundo tal como descritos pela ciência -- algo que representa uma preocupação importante da ficção científica strictu senso. Um caso a citar é o de Robert E. Howard, que se apaixonou por escrever ficção histórica, mas incapaz de se livrar da preocupação com os embaraços de fatos e datas, resolveu mandar tudo às favas e inventar a Era Hiboriana.

Há casos curiosos em que o vocabulário de um gênero acaba sendo aplicado ao espírito do outro, o que dá margem a discussões intermináveis como "Será Guerra nas Estrelas ficção científica ou fantasia?". Quanto a mim, escrevo fantasia, quando escrevo, em parte para dar um toque extra de exotismo aos cenários, e em parte para explorar certas questões do tipo "o que aconteceria se...?" mais ligadas à mitologia e à religião do que às ciências "duras".

As Dez Torres de Sangue usa a árvore de sefirot da cabala como princípio organizador, com umas pitadas de astrologia e um pouco de mitologia islâmica na mistura. É fundamentalmente uma história de aventura, outra coisa a que a fantasia se presta muito bem -- as constantes narrativas do gênero sendo mais facilmente reconhecíveis que as da ficção científica, o que poupa o autor do risco de se perder em explicações em meio à ação.

Por fim, gostaria de responder, um tanto quanto preventivamente, a uma questão que volta e meia aparece quando pessoas que me conhecem mais por meu ativismo cético-científico descobrem que escrevo ficção envolvendo deuses, demônio,s astrologia e, até, bíons reichianos (para isso, aguarde o lançamento de Tempos de Fúria Redux). A pergunta é, obviamente: "Como assim?" Algumas pessoas chegam a insinuar que haveria algo de profundamente irônico, freudiano, até, nesta minha "vida dupla".

A resposta, perfeitamente simples, é: eu gosto de ficção. E gosto de especular sobre ficção. Mas também gosto que a ficção, assim como a realidade, se mantenha em seu devido lugar.






Comentários

  1. Carlos, o que você acha das Crônicas de Gelo e Fogo? Alguns consideram G. Martin melhor do que Tolkien. Este pessoa aqui por exemplo:
    http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/dez-razoes-pelas-quais-a-guerra-dos-tronos-e-muito-melhor-do-que-o-senhor-dos-aneis
    Eu particularmente acho que As Crônicas tem pouca fantasia para que sejam obras a se comparar.

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    1. Oi, Evandro! Olha, eu realmente não posso opinar, pelo simples fato de que não li o Martin! Mas sempre achei Tolkien superestimado. Meus autores de fantasia favoritos são Howard e Karl Edward Wagner

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  2. Carlos, como faço para me tornar escritor profissional de ficção científica aqui no Brasil?

    Obrigado e abraços!

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    1. Oi, Roni. Depende o que você quer dizer com "profissional". Se for viver de fc, também não sei. Se for conseguir alguma remuneração eventual com o que se produz, diria que o ideal é procurar alguma editora médio/pequena que não cobre pra publicar e tentar trabalhar com ela, ou mesmo lançar seus trabalhos diretamente, por um esquema como o KDP da Amazon. De qualquer modo, é um caminho que tende a ser longo, de avanços lentos e recuos eventuais.

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