O horóscopo e a passeata

No último domingo, a ombudsman da Folha de S. Paulo abriu sua coluna comentando as queixas que havia recebido de leitores que tinham visto, nos vaticínios do horóscopo da semana anterior, propaganda subliminar para limitar a participação das pessoas (ou, ao menos, dos crentes em astrologia) nas passeatas contra o governo de 13 de março. Em defesa do jornal, Vera Guimarães Martins ponderou que existe um padrão quase uniforme nos horóscopos de domingo (qualquer domingo), o de sugerir que o leitor aproveite o dia para descansar e curtir a família. E lembrou que, em 2014, tinham sido os defensores do governo Dilma que haviam implicado com o conteúdo da coluna astrológica.

Se hoje não é difícil concordar com a ombudsman e descartar a manipulação deliberada de vaticínios dos astros para fins políticos, nem sempre foi assim: houve períodos no Império Romano em que mapas astrais de imperadores e de pretendentes ao trono eram poderosas armas de propaganda política. Primeiro imperador, Augusto chegou a cunhar moedas com seu signo lunar (Capricórnio).

O historiador Tácito relata que o imperador Tibério foi alvo de uma conspiração articulada por astrólogos. Houve épocas em que traçar o horóscopo do imperador era considerado crime, e há quem diga que a crescente associação entre a figura imperial e o deus-sol, principalmente a partir do século 3 EC -- e que acabaria facilitando, mais tarde, a conversão do império ao cristianismo -- foi motivada pelo desejo dos imperadores de se colocarem (ou, ao menos, de serem vistos como) acima da influência dos demais astros.

Astrologia também foi uma importante arma de propaganda durante a Guerra Civil inglesa do século XVII, com o astrólogo William Lilly fazendo previsões favoráveis aos republicanos de Oliver Cromwell, o que inflou o apoio ao líder rebelde. Mesmo após a restauração da monarquia, Lilly continuou a ser tido em alta conta, sendo até mesmo consultado por uma comissão parlamentar encarregada de investigar as causas do Grande Incêndio de Londres de  1666.

Hoje em dia, embora ainda haja líderes políticos que se deixam influenciar pela opinião de astrólogos, a opinião pública, em si, parece menos maleável à palavra dos astros do que nos tempos romanos ou na Inglaterra dos Seiscentos. Isso talvez se deva menos à melhor educação do público e mais ao caráter anódino dos horóscopos diários baseados apenas no signo solar, uma inovação que data do início do século passado.

O inventor desse produto específico foi o britânico Alan Leo (1860-1917), principal responsável pela transformação da astrologia em algo compatível com a era industrial, passível de produção e distribuição em massa. Entre outras coisas, Leo também foi o inventor do mapa astral modular, em que parágrafos separados descrevem os efeitos de cada astro em particular e alguns aspectos importantes. Com isso, era possível produzir mapas aparentemente individualizados em poucos minutos, apenas copiando os parágrafos relevantes para a carta que seria entregue ao cliente.

O que não significa que não se possa produzir uma crítica política pertinente dos horóscopos dos jornais: em seu ensaio The Stars Down To Earth, o filósofo Theodor Adorno (1903-1969) analisa algumas colunas astrológicas publicadas nos Estados Unidos e conclui que elas cumprem um papel de instilar conformismo, obediência, complacência e fatalismo. O horóscopo, escreve ele, "paralisa a vontade de mudar as condições objetivas, e relega todas as preocupações para um plano privado ao prometer uma solução por meio da mesma conformidade que evita a mudança". Ou seja: se o horóscopo da Folha foi conformista e desmobilizador no último dia 13, não foi por nenhum motivo particularmente ligado à data. É só o que os horóscopos sempre fazem.

Ah, sim, um minuto para o comercial: há muito mais informação sobre a história e o impacto social da astrologia neste livro que escrevi.

Comentários

  1. Quando leio sobre astrologia, lembro-me sempre do conto A Cartomante, de Machado de Assis.

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