Dando um descanso à Providência

Acho que foi o filósofo Daniel Dennett quem cunhou a expressão "olhar intencional", numa referência à predisposição humana de encarar animais irracionais -- e até objetos inanimados -- como se tivessem intenções comparáveis às nossas. Assim, dizemos que o tempo está bravo, que a árvore podada ficou triste, que o cãozinho sente ciúme.

Para além da expressividade poética, o olhar intencional tem uma utilidade prática: se, como sugerem alguns pesquisadores, a evolução dos poderes mais aguçados do cérebro humano foi estimulada pela necessidade de interação social e da interpretação correta das intenções e desejos dos outros seres humanos ao redor, o, por assim dizer, modo intencional de funcionamento pode representar uma espécie de taquigrafia mental, ajudando na rápida decodificação dos sinais da natureza: se o tempo está bravo, o melhor é buscar abrigo, como faríamos caso um sujeito bravo viesse em nosso encalço.

Mas, como de costume, a diferença entre remédio e veneno está na dose, e a mesma analogia que nos diz que o melhor é fugir de uma tempestade feroz também pode indicar que deve ser possível apaziguá-la da mesma forma que apaziguaríamos uma horda de bárbaros ferozes: com tributos, honras e sacrifícios. Se Org, o Horrendo, se abstém de queimar até o chão os casebres das vilas que lhe oferecem o privilégio de deflorar sua mais bela virgem, talvez Gro, o Deus do Trovão, faça o mesmo?  E como mandar a virgem para o deus? Bom, acendamos uma pira por aqui e...

Nós, civilizados cidadãos do século 21, gostamos de imaginar que já transcendemos ou, pelo menos, domesticamos as tendências mais deletérias ligadas a esse automatismo mental. Mesmo nas ocasiões em que cedemos a ele -- por exemplo, quando praticamos alguma superstição, como bater na madeira -- a tendência é fazê-lo com uma certa dose de autoironia.

Claro, a maioria das religiões organizadas ainda trata a suposta Força Suprema Transcedental e Inescrutável do Universo como se Ela fosse um déspota mesopotâmico da Idade do Ferro, e um com sérios problemas de autoestima, ainda por cima. Mas isso é meramente incidental. Certo?

Cá comigo, tenho a impressão de que o olhar intencional é, de fato, mais insidioso e bem mais difícil de domesticar do que as aparências sugerem. Ele aparece, por exemplo, na chamada visão providencial da história -- a ideia de que o Universo em geral, e a história humana em particular, é guiado por uma Providência (que pode ser Deus, a Mão Invisível do Mercado, a Luta de Classes, a Mãe Natureza, o Espírito Hegeliano, etc., etc.), uma intenção suprema que vai garantir que tudo acabe bem, no dia em que tudo acabar.

Essa Providência tem duas características aparentemente contraditórias: a primeira é que é inútil resistir a seus planos; a segunda é que ela é extremamente vingativa contra quem resiste a seus planos. E essa vingança geralmente recai sobre os inocentes: da mesma forma que o povo do Egito pagou pelo coração duro do faraó, nos dias que precederam ao Êxodo, e os aldeões da Europa medieval eram castigados com pragas e pestes quando o príncipe da vez se mostrava leniente para com judeus e hereges, hoje os desafios ao Mercado e à Natureza (por exemplo) também são pagos com o sangue de gente que nem fazia ideia do que estava acontecendo.

Um efeito da visão providencial, e da falta de mira da Providência na hora de marcar posição, é que ela tende a dividir o mundo em linhas maniqueístas muito claras: nada que os "amigos da Providência" façam para ajudar a avançar o Grande Plano estará errado, não importa o tamanho da atrocidade, e nada que seus inimigos façam, não importa o quanto sejam benéficos os efeitos obtidos, será algo além de um gesto de perfídia.

A visão providencial não escolhe religião ou afiliação política. No debate de questões ambientais, por exemplo, ela marca de modo muito claro os extremistas dos dois campos, um lado achando que Deus ou o Mercado dará um jeito, não importa o quanto estraguemos nosso lar comum, e o outro, que a Natureza ofendida precisa ser aplacada por sacrifícios, mais ou menos como o Deus do Trovão que citei lá em cima.

Não se trata aqui de negar que sistemas complexos -- como os mercados globais ou a ecologia -- tenham sofisticadas redes de feedback delicado, e que portanto é temerário mexer com eles sem primeiro entendê-los bem, ou ao menos tentar entendê-los bem.

Mas é preciso lembrar que esses sistemas não querem nada, não têm emoções ou disposições próprias e, no geral, são totalmente neutros em relação aos valores e propósitos dos seres humanos. Eles não "reagem" quando "irritados", e nem "se vingam" quando "desafiados", simplesmente porque não têm como se irritar, nem como reconhecer o conceito de "desafio".

Se os sistemas em questão são formados por seres humanos (como nações ou mercados) talvez se possa falar de algum tipo de intencionalidade emergente, mas ela é episódica, caótica, bruta, e não deve ser superestimada, sob o risco de embarcarmos nas mais delirantes teorias conspiratórias ou de mergulharmos numa variedade qualquer de fascismo em nome da Vontade Nacional.

A tentação de pensar em termos providenciais é grande, e duvido que exista alguém que não ceda a ela algumas vezes ao dia. Mas, racionalmente, é importante reconhecer que não há nada, nem ninguém, nas rédeas da História. Que a responsabilidade é nossa, e que devemos assumi-la com clareza e cientes de nossas limitações, sem a arrogância que vem da falsa presunção de que agimos inspirados por, sob a bênção de, ou em nome de, alguma Grande Abstração Providencial.

Comentários

  1. Um exemplo de olhar intencional é a expressão "gene egoísta".

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  2. Ótimo texto, Carlos! Muito bom!

    E ainda por cima me fez ter um insight sobre porque talvez muitas vezes os povos primitivos queimavam seus sacrifícios. Onde estão os deuses? Nos céus. E como levar até lá o sacrifício? A fumaça da pira vai fazer isso, levando a "essência" do sacrifício.

    Com certeza não deve ser uma ideia nova no campo, mas pra mim é. :)

    Você teria alguma referência sobre isso?

    E agora outro tópico: você já leu The Evolution of God, do Robert Wright? É um livro que tem despertado meu interesse porque tem uma descrição detalhada da evolução de El, o deus mesopotâmico, até Yaweh; além de uma perspectiva que analisa como as três religiões monoteístas de hoje conseguiram exito em se espalhar por serem mais aptas em um mercado cultural.

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    1. Oi, Thiago! Obrigado! Ainda não li o Wright, mas está na minha lista... ;-)

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    2. Legal Carlos. Se você achar onde importar esse livro, tente se lembrar de mim. :B

      Costumo comprar livros importados na Saraiva, mas este do Wright não consta na lista do site. Se você comprar, divulga onde foi, plz.

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    3. Olha, quando eu comprar o livro, provavelmente será via amazon...

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    4. Valeu pela dica, Carlos.

      Falei ontem com o povo da Saraiva e eles disseram que só vão ter novos exemplares quando a editora publicar uma nova edição dos livros, que não faço ideia de quando vai acontecer.

      Acho que vai ter que ser assim mesmo. Enquanto isso encomendei o Uma História de Deus, da Karen Armstrong, que foi de onde tomei contato com essa evolução mitológica.

      De novo, valeu pela dica!

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    5. Tem esta edição portuguesa no site da livraria cultura:
      http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22662620&sid=17817017814518779244139625

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    6. Muito obrigado pela sugestão, Evandro! Tinha procurado na Fnac também mas não achei lá.

      Vi a versão portuguesa por... 104 reais! o.o'

      Mas na mesma livraria cultura a versão estadunidense sai por até 45,20 - http://www.livrariacultura.com.br/scripts/busca/busca.asp?palavra=The+Evolution+of+God&tipo_pesq=&tipo_pesq_new_value=false&tkn=0

      Vou consultar meus credores e ver se tenho condições de comprar logo esse livro do Wright antes que se esgote!

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  3. Por que não tentam o abebooks e seus numerosos sebos? US$4,50. Baratim, baratim.

    http://www.abebooks.com/servlet/BookDetailsPL?bi=8719362893&searchurl=an%3Dwright%26sts%3Dt%26tn%3Devolution%2Bof%2Bgod

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