Religião, evolução, cérebro, violência

Recebi, via Twitter, um link para uma reportagem publicada no site da revista Galileu a respeito de um estudo sobre a possível ligação entre genética e a predisposição para a fé religiosa. A reportagem não parece ser recente, mas a página em que ela aparece não traz data. O estudo de que fala o texto, no entanto, foi publicado em abril de 2005, então suponho que a matéria tenha saído, originalmente, um pouco depois disso. No entanto, como na internet nada nunca desaparece de verdade, pode ser prudente registrar uma análise do assunto, ainda que tardia, para os eventuais interessados.

O estudo em si, Genetic and Environmental Influences on Religiousness: Findings for Retrospective and Current Religiousness Ratings, tentou determinar quais os "pesos" relativos de fatores genéticos ou ambientais na formação e manutenção da fé religiosa ao longo da vida, usando como base a evolução da religiosidade de pares de gêmeos, sendo alguns univitelinos -- "gêmeos idênticos" -- e outros, apenas gêmeos fraternos.

O truque aí é que, como gêmeos univitelinos têm o mesmo conteúdo genético, é em tese possível usá-los para controlar o efeito da hereditariedade: por exemplo, se a proporção de pares de gêmeos idênticos onde um vira ateu e o outro, coroinha, for igual à de gêmeos fraternos onde o mesmo acontece, então dá para supor que a genética não tem lá muito a ver com a religiosidade. 

O trabalho, no entanto, tem limitações que a reportagem da Galileu omite. Sua conclusão, de que a religiosidade sofre forte influência genética, e que essa influência cresce com o tempo, depende da comparação entre a religiosidade de pares de gêmeos na infância e na idade adulta. 

Mas a constatação feita pelos pesquisadores, de que mais gêmeos fraternos divergem muito mais, em termos de religiosidade, ao longo do tempo do que os univitelinos dependeu crucialmente de avaliações feitas pelos gêmeos, individualmente, sobre como eram seus hábitos religiosos na infância, e em comparações entre esses hábitos e os do irmão gêmeo, na mesma fase da vida.

O problema é que tentar resgatar memórias específicas e precisas da infância é uma atividade especialmente suspeita, por conta da tendência que temos de confabular lembrança e fantasia, como o trabalho de Elizabeth Loftus já demonstrou.

Complicando ainda mais a situação, o número de pares de gêmeos univitelinos separados -- isto é, criados por famílias diferentes -- no estudo foi muito pequeno (apenas oito, num total de 169), o que certamente impede que sejam isolados, das causas puramente genéticas, os fatores psicológicos e sociais envolvidos em crescer na companhia de uma pessoa fisicamente muito parecida com você. 

Os próprios autores do estudo chamam atenção para o fato de que "o resultado pode não ser generalizável para a população americana em geral", embora a Galileu não tenha hesitado em insinuar que ele poderia ser generalizável para a totalidade da espécie humana: "Em suma: sejamos crentes ou céticos, a "culpa", em grande parte, é da nossa genética", sentencia o texto.

De qualquer forma, a constatação de que atitudes mentais provavelmente têm forte componente genético (44% no caso da religiosidade adulta, segundo a exegese que a revista faz do artigo científico) não deve surpreender ninguém, exceto os dualistas mais empedernidos, que acreditam que os processos de conformação da mente são, em essência, independentes dos que atuam sobre o corpo. Para nós, materialistas, a personalidade faz parte do fenótipo, e o fenótipo está enraizado (ainda que não determinado, essa é uma distinção importante e capciosa) nos genes.

Onde a reportagem da Galileu escorrega feio, no entanto, é na tentativa de interpretar o significado do possível componente genético da religiosidade:

"Se a religiosidade está mesmo sob influência da genética, fica implícito que esse traço foi selecionado durante o processo evolutivo. O que nos leva a crer que, provavelmente, trouxe vantagens adaptativas para os primeiros crentes. "

Sim. Talvez. Plausível. Mas não necessariamente. Substitua no parágrafo acima "religiosidade" por "hemofilia" e "crentes" por "hemofílicos" e veja se o raciocínio continua a soar atraente. E mesmo que, em tese, a religiosidade tenha trazido alguma vantagem ao povo do paleolítico, nada garante que ela continue a ser uma vantagem hoje. "Intolerância à lactose" é um exemplo fácil, para efeitos de comparação. Mas a reportagem prossegue, impávida:

"Sabe-se que a espiritualidade já foi associada, por exemplo, com o comportamento altruísta, e a falta dela com índices maiores de criminalidade."

Mas é mesmo?

O mapa abaixo mostra a taxa de homicídio por 100 mil habitantes de vários países, tal como apresentado pelo DataBlog do jornal The Guardian, com base em dados de 2003 a 2005:


E este outro aqui representa a proporção de pessoas que responderam "sim" à pergunta "A religião é importante na sua vida cotidiana?", feita numa pesquisa Gallup realizada entre 2006 e 2008 ("1", no caso, é 100%):



Só de bater o olho já da para ver que a África, o continente onde a religião é, coletivamente, tida como mais importante, é também o mais violento. E a América Latina aparece em segundo lugar nos dois quesitos, com o Brasil e a Colômbia destacando-se em ambos os mapas, como um par de dedões inflamados.

O ranking dos cinco países que mais levam a religião a sério é composto por Bangladesh, Níger, Omã, Indonésia, R.D. do Congo. Suas taxas de homicídio são, respectivamente, 2,3; 20,2; 2,1; 8,9; 35,2. Média, 13,74. Já os cinco países menos religiosos são Estônia, Suécia, Dinamarca, Noruega, República Checa. As taxas de homicídio respectivas são: 6,7; 1,2; 1,1; 0,8; 2,2. Média de 2,4. 

Pobreza? Sim, pobreza pode ser um fator, embora Estônia e República Checa não estejam exatamente nadando em dinheiro. Vamos, então, comparar "bananas com bananas". EUA, onde a religião é "importante na vida cotidiana" de 65% da população, e o Canadá, onde apenas 42% pensam isso. As taxas de homicídio são, respectivamente, 5,9 por 100 mil habitantes e 1,5 por 100 mil. Os pios americanos se matam quase quatro vezes mais que os canadenses incréus. 

Agregando os dados, a taxa de homicídio média dos países onde a religião é importante para mais de 50% da população é de 12,5. A dos países onde a religião é importante para menos de 50% da população é de 4,2. A proporção é de 3:1, próxima da que existe entre EUA e Canadá. 

É verdade que é possível encontrar países muito religiosos e bem pouco violentos (Jordânia: 96,5% acham a religião muito importante, e a taxa de homicídio é de apenas 1,2), e o contrário (Rússia: religião importante para 33% da população, 29,7 assassinatos por 100 mil habitantes), mas o melhor que esses contraexemplos chegam a sugerir é que a religiosidade, na melhor das hipóteses, é irrelevante para a paz social.

 A despeito disso tudo, tinha gente por aí escrevendo que a falta de "espiritualidade" -- um conceito escorregadio, mas não creio que seja forçar muito a barra dizer que pessoas que consideram religião "muito importante" no cotidiano são pessoas que se acreditam de alta espiritualidade -- está ligada a "índices maiores de criminalidade".

Óquei, então.



Comentários

  1. É da edição de fevereiro de 2007. Aparece no canto superior esquerdo, junto com a capa.

    []s,

    Roberto Takata

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    Respostas
    1. Então, eu cliquei na capa, entrei no índice na edição e não vi a matéria lá...

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  2. Steven Pinker também menciona o possível caráter genético da religiosidade em um de seus livros Acho que no Tábula Rasa. Depois que li sobre isto fico tentando detectar esta tendência em pessoas da mesma família. Pelo menos na minha, isto soa bem plausível. Outra percepção minha é que homens tendem a ser mais céticos do que mulheres. Mas isto é só uma conjectura minha.

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