Racionalidade é dever moral?

Ética da Crença é o título de um ensaio escrito no século 19 pelo filósofo e matemático britânico William Clifford, em que ele afirma que "é errado, sempre e em qualquer lugar, acreditar em alguma coisa com base em evidência insuficiente". Um dos pontos centrais do argumento de Clifford era a parábola (por assim dizer) do barqueiro devoto: um homem que acredita, com tamanha fé, que Deus protege seu barco que se recusa a realizar os trabalhos mínimos de manutenção (afinal, o que é o talento de um mero barqueiro diante da mão protetora da Onipotência?). Mas um belo dia o barco afunda, matando todos a bordo.

O senso-comum  diria que a culpa foi da negligência do barqueiro, mas Clifford insiste que a culpa foi da crença: o barqueiro acreditava, do fundo do coração, que Deus protegia seu barco, e sua negligência foia penas uma consequência lógica disso. Ele só foi negligente porque foi coerente com sua fé. A tragédia foi o fim inevitável de uma cadeia lógica iniciada pela crença sem base em evidências.



Ética da Crença atraiu uma crítica furiosa de outro filósofo, o americano William James -- não só um dos pais da psicologia moderna como campo de estudo independente, mas também um ardente patrocinador de estudos de mediunidade -- que ponderou, entre outras coisas, que todo mundo age com base em crenças sustentadas em evidência insuficiente: toda vez que abre uma porta e entra numa sala, por exemplo, você age com base na crença de que não há um assassino esperando-o ali de emboscada, mas qual sua evidência para isso?

O debate Clifford-James constitui, de certa forma, o pano de fundo do debate entre céticos e crentes, racionalistas e esotéricos, ateus e devotos, positivistas-cientificistas e relativistas pós-modernos que se desdobra desde então. "Proporcionar a crença à evidência" soa como uma espécie de solução de compromisso, mas ainda assim a questão de o que conta como "evidência" e qual o termo de proporcionalidade a ser aplicado ainda consume muita tinta (e teclado, e cerveja, e fritas). 

Algo saliente na exposição de Clifford, no entanto, é sua insistência na ideia de que a crença sem prova é imoral. Não apenas errada -- no sentido de que 2+2=5 é errado -- ou contraproducente, mas uma violação de deveres éticas, como as obrigações de respeitar o próximo, de não roubar e matar. Isso não seria um exagero?

Se for, trata-se de uma hipérbole popular. Um conjunto de oito estudos, consolidado em artigo publicado no periódico online PLoS ONE, propõe exatamente uma Escala de Racionalidade Moralizada (MRS, na sigla em inglês), que avalia o quanto uma pessoa considera que usar lógica e evidência na formação de crenças é uma virtude -- e uma obrigação -- moral.

Os autores, psicólogos baseados nos Estados Unidos e Reino Unido, afirmam que seus resultados mostram que a MRS é estável, consistente e se liga estatisticamente a outras posturas – por exemplo, um algo grau de MRS tem correlação negativa com religiosidade ou crença no paranormal. Além disso, pessoas com alto MRS tendem a ver outros, que mantêm crenças consideradas irracionais, como menos morais, buscam se afastar deles, evitá-los ou, em certos casos, gostariam de vê-los punidos.

“A intensidade e persistência com que crenças tradicionais são defendidas contra conclusões científicas parte, acredita-se, da ligação íntima dessas crenças com os valores morais centrais das pessoas”, escrevem os autores. “No entanto, não são apenas os defensores moralmente motivados das crenças tradicionais que têm sido caracterizados como intolerantes nos debates. Defensores da ciência também foram chamados de estridentes, raivosos e intolerantes”.

"Os resultados atuais sugerem que não só os defensores de crenças tradicionais são impulsionados por sua convicção moral, mas que os motivos por trás dos defensores da ciência também podem ter natureza moral", ponderam os autores. "Estes resultados sugerem que eles podem ser motivados pela convicção de que é moralmente errado basear-se em crenças sem apoio em lógica ou evidência. Na medida em que esse é o caso, isso pode ajudar a explicar porque seu estilo argumentativo frequentemente soa raivoso e intolerante".

Pessoal com alta MRS, diz ainda o artigo, também se mostraram especialmente motivadas a doar dinheiro ou trabalho voluntário para organizações que combatem a disseminação de superstições e pseudociências. Os autores apontam ainda que a MRS é distinta de uma mera medição do grau de importância que o indivíduo dá à racionalidade. 

O artigo pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0166332 .


[Esta postagem incorpora e expande informações da Coluna Telescópio do Jornal da Unicamp]

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