Memória da água: seria a poliágua revisitada?

A postagem anterior, sobre a campanha 10²³, já ia um pouco longa demais, e por isso resolvi deixar para tratar do assunto da memória da água num texto à parte -- este aqui.

Como escrevi abaixo, diluições homeopáticas são tão grandes que, no produto final que chega às mãos do paciente, raramente resta uma única molécula capaz de produzir efeito biológico.

Uma teoria proposta para contornar essa dificuldade é a da "memória da água": de algum modo, a informação sobre a substância anteriormente presente em solução ficaria codificada na estrutura do líquido, e poderia ser recuperada mais tarde, no corpo do paciente -- como se a água fosse um DVD e o organismo humano o DVD player, digamos.

A ideia tem uma certa plausibilidade superficial. Água é uma substância singular. Gelo se expande, por exemplo, contrariando a regra de que o frio contrai os corpos. Além disso, a molécula de água tem polos elétricos, o que pode gerar alguns efeitos bizarros (deixe um fio bem fino de água escorrer da torneira; esfregue um pente de plástico no cabelo seco; aproxime o pente da água e veja o que acontece).

A primeira alegada "comprovação experimental" da memória da água foi apresentada à comunidade científica pelo pesquisador francês Jacques Benveniste, em artigo publicado em 1988 na revista Nature. Resumindo, Benveniste disse ter obtido uma reação à presença de anticorpos humanos numa amostra de água diluída a ponto de não haver mais nenhum anticorpo presente.

Uma investigação posterior, no entanto, demonstrou que nem mesmo a equipe de Benveniste era capaz de distinguir entre água de anticorpo superdiluída e água pura -- se não se soubesse, de antemão, qual frasco continha o quê. A reação só ocorria nos frascos onde os cientistas esperavam que ela acontecesse. Ficou claro que Benveniste estava vendo o que queria ver, e não o que realmente estava lá.

A situação ficou mais ou menos assim -- com alguns cientistas ainda alegando ver sinais de memória na água, mas sem conseguir convencer a maioria dos colegas -- até o ano passado, quando a causa ganhou um campeão de peso: ninguém menos que Luc Montagnier, ganhador do Nobel de Medicina como um dos descobridores do vírus causador da aids, o HIV.

Em um artigo científico publicado online, Montagnier descreve como, num experimento envolvendo bactérias, células do sistema imunológico humano reagiram à presença do micróbio mesmo numa solução filtrada a ponto de nenhuma bactéria ou fragmento ter restado na água.

No mesmo artigo, ele relata outro experimento, no qual radiação eletromagnética de baixa frequência parece ter sido capaz de transferir as propriedades de uma cadeia de DNA para um frasco de água pura. Depois de receber a transmissão, a água foi submetida a uma reação de PCR -- usada para ampliar fragmentos de material genético encontrados, por exemplo, em cenas de crime -- e produziu DNA 98% compatível com o presente no frasco emissor.



Descrito assim, o resultado não é nada menos que espantoso. A história da ciência, no entanto, está cheia de experimentos com resultados espantosos que parecem à prova de erros no papel, mas que depois se mostraram tragicamente falhos. Talvez o caso mais pertinente à memória da água seja o da "poliágua".

Na década de 60 do século passado, cientistas soviéticos afirmaram ter produzido uma nova forma de água, com propriedades físicas e químicas diferentes das da água comum. Nessa chamada poliágua, as moléculas estariam ligadas em cadeias, e a substância apresentaria uma consistência gelatinosa.

Centenas de cientistas chegaram a se dedicar ao assunto entre 1968 e 1972, até que se comprovasse que os efeitos miraculosos da poliágua eram fruto de contaminação do líquido -- exatamente a explicação mais plausível, e a mesma que os descobridores soviéticos da substância haviam descartado.

Se os efeitos descritos por Montagnier acabarão se revelando mero excesso de entusiasmo (como no caso Benveniste), contaminação (como na poliágua) ou um fenômeno real, só tentativas de reprodução do experimento por pesquisadores independentes poderão dizer.

Mas mesmo se água for capaz de registrar sinais eletromagnéticos, fica uma questão em aberto: como ela sabe quais sinais? Por que o DNA do tubo de ensaio ao lado e não, digamos, a urina do faraó Tutancâmon? Afinal, a água da Terra já foi reciclada pelos corpos dos seres vivos uma infinidade de vezes.

Aguardemos, portanto, as respostas.

Comentários

  1. A possibilidade de fazer PCR usando água resolveria todos os meus problemas!

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  2. Interessante que Montagnier apela para o teletransporte para explicar como as ondas transferem as informações do DNA de um tubo para o outro... Que pretensão!

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