Violência, não violência, mudança social

Mal foi dada a notícia de sua morte, começou a disputa pelo cadáver de Nelson Mandela. Nas redes sociais, parece que todo e qualquer revolucionário de sofá com uma estratégia favorita sobre como provocar mudanças sociais -- seja por meio de passeatas, terrorismo, resistência pacífica -- passou a peneirar a biografia do líder sul-africano em busca de exemplos para defender sua tese; e todo conservador retinto, que teme qualquer mudança, não importa qual ou de onde venha, também passou a caçar exemplos de que Mandela, o "revolucionário boa-praça", na verdade não passava de um lobo em pele de cordeiro.

Não me parece possível sintetizar a vida de um homem de 95 anos, que passou quase três décadas encarcerado e que se propôs a reconstruir um país inteiro, de modo tão simplista. O argumento, no fim, é menos sobre a identidade de Mandela -- que pode ser explorada em ensaios e biografias mas que, como a identidade de cada um de nós, no fim se reduz a um mistério -- e mais sobre estratégias e meios de mudança: o exemplo de Mandela é cooptado e distorcido para se encaixar nas preferências de quem busca apropriar-se dele e, por tabela, ganhar pontos com um reflexo de sua autoridade moral.

 Mas, fantástico como é, o caso sul-africano, com toda sua complexidade, representa apenas um data point. Há revoluções violentas bem-sucedidas (como a Guerra de Independência dos EUA, a Revolução Francesa, a Revolução Russa) e há revoluções pacíficas bem-sucedidas, como o movimento Poder Popular que derrubou o ditador Ferdinand Marcos, das Filipinas, em 1986, ou as manifestações que frustraram a tentativa do rei do Nepal de se tornar monarca absoluto, em 2006.

Enfim, os exemplos históricos, recentes ou distantes, não parecem endossar nenhum tipo de conclusão ampla, das que cabem num tuíte -- como "violência não leva a nada" ou "sem violência não existe mudança" ou ainda, "revoluções só transformam oprimidos em opressores". Fãs de cada um desses princípios têm inúmeros exemplos a favor para construir casos convincentes, desde que ignorem, polidamente, todos os contraexemplos que também existem.

Mas, parafraseando uma velha frase conhecida entre céticos, estatísticos e cientistas, o plural de exemplo não é informação. Para ter informação, é preciso reunir todos os exemplos (ou o maior número possível deles), sejam contra ou a favor da nossa posição, e sistematizá-los.

Felizmente para nós preguiçosos, no caso da eficácia do uso de violência para provocar mudança social, alguém já fez isso. Você pode ler o "paper" aqui. O título do trabalho é Why Civil Resistance Works ("Por que a Resistência Civil Funciona"), e afirma que, de todos os grandes conflitos entre Estados e agentes não-estatais entre 1900 e 2006, 53% dos movimentos de resistência não-violenta atingiram seus objetivos, o que só é verdade para 26% das campanhas violentas. A vantagem, em termos de taxa de sucesso, é de 2:1 a favor da não-violência. Estratégias terroristas, em particular, são extremamente ineficazes, atingindo seus objetivos políticos em apenas 7% dos casos.

Não-violência, claro, não significa passividade. "Estudiosos identificaram centenas de métodos não-violentos -- incluindo protestos simbólicos, boicotes econômicos, greves, não-cooperação política e social, intervenção não-violenta -- que grupos têm usado para mobilizar públicos a favor ou contra diferentes políticas, deslegitimar adversários, remover ou reduzir a fonte de poder dos adversários", escrevem as autoras do levantamento, Maria J. Stephan e Erica Chenoweth.

Elas acrescentam que uma estratégia articulada e organizada de não-violência pode ser "extremamente destrutiva" para o poder contestado, e que o compromisso com a não-violência ajuda o movimento a crescer e a angariar apoio, interno e externo.

Enfim, o artigo merece a leitura de quem se interessa realmente pelo assunto -- em oposição a quem apenas gosta de dar palpite no fêice. Outra boa fonte para pensar a questão, aliás, é este blog, The Rational Insurgent, geralmente recheado de boas referências bibliográficas.




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