Minha palestra na UFSM

Nesta segunda-feira, dia 22, participei, como palestrante, do lançamento da revista Arco, publicação de divulgação científica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. A editora-chefe Luciane Treulieb me fez o convite via Facebook -- eis aí as redes sociais funcionando -- e, como não me mandaram de volta para casa em lombo de burro (e ainda me pagaram um jantar!), creio que o que eu tinha a dizer não foi lá muito impertinente ou ofensivo. Publico, abaixo, o texto que havia preparado para a palestra e que, como de costume, não corresponde exatamente ao que eu disse, mas chega bem perto. 



“A ciência é importante demais para ser deixada aos cientistas”

Lee Nisbet

Quando a Luciane me convidou para falar com vocês nesta festa de lançamento da revista Arco, o tema que ela sugeriu foi: jornalismo científico e o papel da universidade na divulgação da ciência.

Trabalho com jornalismo científico e divulgação há vinte anos, e estou dentro de uma universidade, a Universidade Estadual de Campinas, há dois. Então, provavelment,e minha experiência tem mais a ver com a primeira parte do tema do que com a segunda. Mesmo assim, vou tomar a liberdade de inverter a proposta: falar primeiro do papel da universidade e, depois, sobre o jornalismo em si.

O que tenho a dizer à universidade sobre seu papel na divulgação da ciência cabe numa frase, a mesma que, supostamente, Dom João VI disse a seu filho Pedro, quando deixou o Brasil: faça-o antes que algum aventureiro lance mão.

Uma das coisas que faço na Unicamp é participar da edição de uma revista sobre ensino superior, e uma questão que encontro com frequência é a de que está havendo uma transição na visão que as pessoas têm da universidade: ela está deixando de ser encarada como uma fonte de bens públicos – conhecimento, estudiosos, profissionais que vão ajudar o país a avançar e a se desenvolver – e passando a ser vista como uma fonte de bens privados: diplomas, que vão ajudar um indivíduo específico, o graduado, a subir na vida.

Notem que essas visões não são excludentes: a universidade sempre fez as duas coisas. Mas o foco, na consciência coletiva, está passando do benefício público para o privado. E, nesse contexto, a universidade pública corre o risco de perder o chão. Porque as pessoas começam a se perguntar: por que o dinheiro dos meus impostos está sendo usado para enriquecer os filhos dos outros?

Hoje em dia é preciso, mais do que nunca, fortalecer a posição da universidade como uma fonte de bens públicos. Não apenas por uma questão de dever, mas de sobrevivência. E a divulgação científica é o tipo de benefício público que a universidade está muito bem posicionada para oferecer. E deve oferecer.

O discurso da ciência, ou a aparência de ciência, é, no mundo atual, uma poderosa arma de venda e de persuasão: de clínicas de estética feminina a lobistas de políticas públicas, todos buscam apropriar-se dele ou simulá-lo, muitas vezes com base em estudos espúrios, estatísticas falsificadas, jargão incompreensível.

A universidade prestaria um enorme serviço ao Brasil se abraçasse a tarefa de preparar a todos – não apenas seus alunos – para dialogar com os que invocam para si, de modo legítimo ou espúrio, a autoridade da ciência. E é isso que a boa divulgação faz. Já a má, que vemos com tanta frequência na grande mídia, apenas prepara mais patos para serem abatidos por charlatões.

Agora, um pouco sobre jornalismo.

Existe uma diferença, que às vezes não é muito clara, entre jornalismo científico e divulgação científica. Uma reportagem, por exemplo, sobre uma grande fraude com verbas de pesquisa é jornalismo científico, mas não será, necessariamente, divulgação.

A divulgação é uma ferramenta de que o jornalismo científico lança mão – no exemplo citado, para explicar a natureza da pesquisa que deveria ter sido feita com o dinheiro roubado – mas não é sua essência.

O jornalismo científico tende a orbitar em torno de um de dois paradigmas: o do jornalismo econômico e o do jornalismo de celebridades. Pensem, por um momento, nos cadernos de economia dos grandes jornais, nos jornais que só tratam de economia, e em seus leitores: são textos normalmente escritos por repórteres familiarizados com o assunto, destinados a um público que, se não é especialista na área, tem um interesse pessoal no tema e conhecimentos básicos a respeito.

E o jornalismo de celebridades? Ele tem, é claro, seu nicho de leitores devotos, mas seu apelo é muito mais amplo: todo mundo corre para ler quando um ator deixa a namorada de olho roxo, ou quando uma cantora aparece com o nariz reformado.

O jornalismo científico que se espelha nesse paradigma é aquele que se alimenta do que os teóricos da comunicação chamam de faits-divers: o fato curioso, incomum, chamativo: o animal de duas cabeças, o monstro do lago, o disco voador.

Esse tipo de conteúdo, no caso da ciência, costumava ser justificado como um trampolim para a divulgação: fala-se no objeto voador não identificado para ter um “gancho” – outro termo do jargão jornalístico – para tratar da observação do céu noturno ou dos movimentos do planeta Vênus.

Mas, da mesma forma que o jornalismo de celebridade raramente aspira às alturas de usar seus personagens para produzir explorações da natureza humana, a narrativa dos faits-divers científico muitas vezes, e cada vez mais, se esgota na busca pelo bizarro, na insinuação, preguiçosa ou mal intencionada, de mistérios onde nenhum existe, ou de soluções maravilhosas e inexistentes para problemas que afligem a todos, como a perda da saúde com a chegada da idade.

Aqui, a divulgação científica que a universidade pode e, se me permitem, deve fazer terá um efeito preventivo: o de desviar a atenção do público, dos faits-divers populista para o jornalismo científico de fato. O primeiro e mais eficaz dos controles da mídia é uma audiência educada, que não só recebe, mas dialoga. E isso é algo que a universidade pode produzir, dentro e fora das salas de aula.

Comentários

  1. Bacana, Orsi. Esta idéia da universidade como "fonte de bens públicos" ou "fonte de bens privados" é uma discussão importante.

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