Guia quântico de defesa pessoal

Depois de três anos em gestação, finalmente saiu: Pura Picaretagem, da editora LeYa, livro que escrevi em parceria com o físico carioca Daniel Bezerra e que é o tal "guia de defesa pessoal" mencionado aí em cima no título. Ou, mais precisamente, um guia de ceticismo para ajudar as pessoas a enfrentar a verdadeira avalanche de produtos e conselhos "quânticos" picaretas que abundam por aí.

Parte filosofia, parte história e , claro, parte ciência, Pura Picaretagem vai dos primórdios da teoria quântica, nascida na Alemanha do fim do século 19, ao humilhante desaparecimento das pulseiras "quânticas" Power Balance, poucos anos atrás, passando pelo auge da febre místico-quântica dos anos 70 e pelo verdadeiro significado da tal da "lei da atração" que, dizem os desavisados (ou mal intencionados) tem sua base no mundo quântico.

Gurus indianos e produtos sensacionalistas de mídia também recebem doses módicas de atenção, antes de serem devidamente despachados.

Fato impressionante: durante as pesquisas para o livro, descobri que, já nos anos 20 do século passado, alguns cientistas previam que as descobertas da física quântica acabariam sendo açambarcadas por místicos e embusteiros: um artigo publicado por um então futuro ganhador do Nobel na revista Harper's fazia o alerta!

Além de toda essa trajetória histórico-filosófica, também apresentamos o que a teoria quântica de fato é, o que há de realmente chocante e contraintuitivo nela e de que modo os cientistas sérios encaram fenômenos bizarros como o emaranhamento quântico e a dualidade onda-partícula.

A ideia para o livro nasceu quando eu ainda estava no Estadão. Depois que publiquei esta postagem no blog que mantinha por lá, o Daniel, que eu já conhecia virtualmente -- ele é o blogueiro do Telhado de Vidro, espaço que todo mundo que gosta deste aqui deveria visitar --, apareceu com a ideia de fazermos um livro apontando onde e como a versão "pop" da mecânica quântica tinha dado estupidamente errado. Quando perdi o emprego, o tempo para pesquisar e escrever, subitamente, dilatou-se. E, graças à inestimável ajuda do amigo e crítico literário Rodrigo Gurgel, nossos capítulos de teste chegaram à LeYa e agora, graças à LeYa, o livro chega às livrarias, já em pré-venda.

Escrever em dupla, ainda mais com um autor em cada extremidade da Via Dutra, é algo que provavelmente só deu certo graças à internet e, claro, à infinita boa disposição do meu colega de autoria. Durante meses fizemos videoconferências semanais, e os esboços dos capítulos iam e vinham pelo Google Docs, anotados por conta disso ou daquilo. Nesse meio tempo, vi publicado, pela Vieira & Lent, O Livro dos Milagres, minha primeira obra de não-ficção a sair, mas na verdade a segunda a ser concebida.

E agora cá estou, de repente autor de duas obras céticas de divulgação científica (ou de uma e meia, já que o Picaretagem é uma coautoria). Tenho planos para mais umas duas ou três: vamos ver se algo disso chega a se completar. As estantes lá de casa estão cheias de obras de referência prenhes de novos livros, que só precisam de alguma disciplina de minha parte para nascer.

O lançamento de Pura Picaretagem será no Rio de Janeiro, terra do Daniel. Dia 20 de junho, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon,  a partir das 19h. Talvez também façamos uma em São Paulo, mas não está certo ainda -- diz a sabedora convencional que 90% das pessoas que aparecem em lançamentos são amigos do autor, e sei que a maioria dos meus amigos paulistanos não gosta lá muito de sair de casa.

O convite para o evento carioca é este aí abaixo:






Comentários

  1. Parabéns pelo livro, Carlos. Bom saber que agora temos material em português para recomendar aos que volta e meia soltam pérolas do tipo "a física quântica vai provar a existência do espírito". :-)

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  2. Muito legal. Não sei se já leu este 'paper', And The Meme Raths Outgrabe: http://anti-matters.org/articles/156/public/156-302-1-PB.pdf

    Trechos: 'It seems that the word “quantum” can be placed in front of almost anything. This word should indicate that quantum effects are involved, at a quantum scale, as in quantum oscillator, quantum computer, etc. But New Age literature has shown a tendency to use it as a synonym for Sheldrake’s adjective “morphic,” because they share the connotation of non-locality, and because the word “quantum” has an impeccable respectability in physics. I suggest the phrase quantum seduction effect for the extra cachet produced by using the word “quantum” where it doesn’t really belong.

    [...]

    The magical powers of analogy and rhyme cannot transfer the respectability of science into difficult areas of the humanities, no matter how good the science involved, no matter how urgent the problems in the humanities, and no matter how excited, concerned, or well known the hierophants may be.

    [...]

    I am far more sympathetic to artists who seek to improve society through their art, than to those who seek to infiltrate the humanities with the sciences, to shore up their positions, often having only the slightest familiarity with the fields involved, however noble they might consider their motives to be. It is unfortunate that our civilization is so deeply split, but efforts to colonize the humanities with reductionist pseudo-science do far more harm than good, and cry out to have their inadequacy and hypocrisy exposed. We have great art; we have great science; we have splendid research bridging the gap between them; we don’t need to descend towards superstition through New Age post-psychiatric speculation.'

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    1. Opa, não conhecia! Mas o trecho final que você citou, sobre o valor da arte em comparação com o da conversa fiada pseudocientífica, é algo que tocamos no livro...

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  3. Passei aqui só para fazer a minha reclamação de praxe: quando sai a versão digital deste livro?

    (em minha defesa, posso dizer que fui um dos que comprou "Estes 15 minutos" para Kindle logo que tu anunciou aqui no blog)

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    1. Oi, marcus! Isso, como de costume, está nas mãos da editora! :-). Parece-me que a Draco, que publica minha ficção, está muito mais ligada ao mundo dos e-books que os meus editores de não-ficção...

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  4. Parabéns pelo lançamento. Precisamos muito de obras desse tipo. Particularmente eu achei o título da postagem mais divertido (e chamativo!) do que o da obra em si, mas entendo que a sua utilização poderia ser interpretada como fruto da própria picaretagem que o livro aborda. Mas quem sabe como subtítulo em futuras edições?

    Pretendo adquirir.

    Abraço!

    PS: Sugestão de postagem: Explicar como foi que de jornalista você passou a escritor de ciência e autor de livros de fantasia. Sei que as pistas estão aí espalhadas mas penso que seria bacana um texto à respeito. E a princípio não encontrei nenhum exatamente sobre isso.

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  5. Parabéns pelo novo livro e sucesso!

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  6. Comprei o seu livro na sexta-feira, 07/06, na Livraria da Travessa no Centro. Jamais tinha ouvido falar dos autores. Mas o folhei e me interessou o conteúdo. Já li toda toda parte da história da física quântica. Só falta a leitura da picaretagem quântica...rs. De parte do que já li, posso dizer que o texto de vocês está ótimo. Fizeram um livro muito bom. Parabéns

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  7. Primeiro, Parabéns pelo livro, acabei de ler e gostei muito. Inclusive da forma como foi descrita a mecânica quântica, pude sanar várias dúvidas que eu tinha a respeito. Mas eu gostaria de te perguntar outra coisa, que não tem que ver diretamente com o assunto do livro, enfim. É o seguinte: é muito divulgado em vários sites e reportagens que o universo apresenta uma expansão acelerada. E essa taxa acelerada de expansão pode ser constatada ao se verificar o aumento do redshift com a distância do objeto observado. Ou seja, quanto mais distante está o objeto (galáxias geralmente), maior o redshift, portanto, mais rápido esse objeto está se afastando. Só que tem um probleminha nessa análise que não vejo ninguém comentar a respeito. Mas você e o Daniel, por estarem mais aprofundados na área, talvez já tenham se deparado com o questionamento que eu vou fazer. Quanto mais distante está o objeto, maior o redshift, e mais tempo a luz emitida por esse objeto levou para nos atingir. Logo, não podemos concluir que quanto mais distante o objeto, mais rápido ele se afasta, mas, ao invés, mais rápido ele se afastava ! Sobre a velocidade de afastamento deste mesmo objeto hoje não podemos dizer nada !!! Assim, não podemos dizer que o Universo não está se expandindo aceleradamente, mas ao invés que no passado ele se expandia mais rápido, só isso !!! Por favor, me responda esta dívida que me inquieta faz tempo já. Muito obrigado pela atenção, e novamente Parabéns pelo livro !!!

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    1. Na mensagem acima, há alguns erros de digitação na última frase, desculpe. Abaixo está a frase sem esses erros:

      Assim, não podemos dizer que o Universo está se expandindo aceleradamente, mas ao invés que no passado ele se expandia mais rápido, só isso !!! Por favor, me responda esta DÚVIDA que me inquieta faz tempo já. Muito obrigado pela atenção, e novamente Parabéns pelo livro !!!

      Aproveito, após esta correção, para acrescentar que, em não se podendo afirmar que o Universo possui uma expansão acelerada, então não há necessidade de se acrescentar uma energia escura para dar conta desta aceleração. Assim resolve-se simplesmente o enigma da energia escura: ela não existe, ponto. Correto?

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    2. Olá, Weber!

      O Carlos me chamou a atenção para sua dúvida e vim aqui tentar esclarecer.

      O que ocorre é que não são as galáxias que estão se afastando de nós -- é o próprio tecido do espaço-tempo que está se esticando entre nós e as galáxias distantes. E esse "estiramento" parece ser tanto maior quanto maior for a distância entre nós o objeto observado.

      Pense em um balão de aniversário. Imagine que você pega uma caneta hidrocor e pinta várias pontinhos no balão vazio. Se você encher o balão depois, vai reparar que os pontos que estão mais próximos entre si vão se afastar mais lentamente uns dos outros que pontos que já começaram distantes entre si. É a mesma coisa.

      E o que acontece quando a velocidade aparente de recesso de uma galáxia excede a velocidade da luz? Bem, nós cessamos de ter informações sobre ela. Ela simplesmente some das nossas vistas. O que sugere que há um pedaço muito maior de Tudo O Que Existe, que simplesmente não podemos ver, porque está longe demais.

      Para maiores esclarecimentos, é só mandar um recadinho no twiter (@Dbohr), ou mandar uma mensagem por aqui.

      Abraços!

      Daniel Bezerra,
      Co-autor, "Pura Picaretagem"

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    3. Muito obrigado Daniel !

      Viu, mas como os cientistas detectaram experimentalmente esse estiramento do tecido do espaço-tempo ? Não foi através da medição do desvio para o vermelho da luz oriunda de galáxias distantes? Tipo, quanto mais distante, maior o deslocamento para o vermelho? Porque se experimentalmente foi assim (é o que é dito em publicações como as que saem na Scientific American, por exemplo), então não se trata de um maior estiramento quanto maior for a distância entre o objeto e nós, mas ao invés, de um maior estiramento quanto mais antigo for o objeto em relação a presente data de observação. Assim, poderia ser dito que o tecido do espaço-tempo se estirava mais no passado do que o faz agora. O problema é que não temos como enxergar o que acontece lá longe agora. É o mesmo problema de quando se observa uma estrela supermassiva distante 10.000 anos luz. Se ela virar uma supernova hoje, só saberemos daqui a 10.000 anos.

      É aí que mora o cerne de minha dúvida. A não ser que esse estiramento do espaço-tempo tenha sido concluído experimentalmente através de outros métodos (os quais não sei) além da observação do deslocamento para o vermelho da luz emitida por objetos distantes.

      Novamente obrigado pela atenção, abraços !

      Weber Cláudio
      Coordenador do Laboratório de Neuropsicofarmacologia da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná.

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    4. Oi, Weber! A aceleração da expansão foi confirmada -- ou, para sermos cautelosos, adotada como hipótese mais plausível -- por causa de observações da luminosidade de supernovas tipo Ia. Essas supernovas são usadas como "velas padrão" em astronomia: sua luminosidade intrínseca é conhecida, então os astrônomos são capazes de calcular, tendo em vista a fração dessa luminosidade que chega até nós, a distância em que se encontram. Em 1997, um amplo levantamento desses astros mostrou que eles eram, na verdade, menos brilhantes do que o esperado se a expansão estivesse a ocorrer a uma taxa constante (ou desacelerando). Existe um artigo em português a respeito aqui: http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=25&pag=1

      Ele cita outras evidências complementares, como dados sobre a radiação cósmica de fundo. Abs!

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    5. Muito obrigado pelo esclarecimento Carlos ! Li o artigo, e a explicação sobre o experimento feito a partir de supernovas Ia eliminou a dúvida que eu tinha. Veja só, em meios de divulgação científica como a Scientific American, eles tentam explicar muito superficialmente, e só falam de desvio para o vermelho das galáxias. Daí quem lê sem pensar direito sobre o assunto, acaba aceitando numa boa.

      Essa explicação baseada no brilho esperado de supernovas eu nunca tinha lido até então, mas é suficiente pra quem não é aprofundado na área (meu caso p.ex.) entender, e sem falhas lógicas.

      Novamente obrigado, abs !!!

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    6. E persiste assim o problema de explicar de que se trata a energia escura. Enquanto isso não ocorre cientificamente, não é muito difícil prever que é só uma questão de tempo para que a temática da energia escura seja cooptada por uma próxima leva de picaretas, assim como foi alvo deles a suposta "quarta dimensão" na era vitoriana e a mecânica quântica atualmente...

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  8. Livro muito bom. Baixei a versão pirata para ler no Kindle e comprei a versão em papel antes mesmo de terminar a leitura digital (só faço isso se eu gostar muiiiiiiiiiito do livro).
    Parabéns ao Daniel, ao Carlos e a LeYa pela publicação de obra tão importante.
    Sou professor de Física no Ensino Médio e com certeza utilizarei o "Pura Picaretagem" nas minhas aulas do 3º Ano.

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    1. Obrigado, professor! Mensagens assim salvam o dia duro deste jornalista... ;)

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