'Eles riram de Einstein, de Galileu...'

Preenchendo uma lacuna imperdoável em minha formação, finalmente estou lendo The Making of the Atomic Bomb, monumental livro de 800 páginas de autoria de Richard Rhodes e que é, possivelmente, a melhor peça de jornalismo científico/história da ciência de todos os tempos.

Rhodes costura, de forma extremamente hábil e com sensibilidade de romancista, os avanços científicos que tornaram a bomba possível; a biografia dos homens (e mulheres) responsáveis por esses avanços; e as condições históricas e sociais que tornaram a bomba real e que levaram a seu uso, começando nos primórdios da física atômica, de um lado, e no papel da ciência na criação de armas (como gases letais e munições) para a I Guerra Mundial, de outro.

Uma das muitas coisas que chama atenção nesse quadro -- e que de que gostaria de tratar nesta postagem -- é o número de ideias tidas como "absurdas" ou "inviáveis" que se mostraram corretas em todo o processo.

Em dado momento, era consenso entre pesos-pesados como Rutherford, Einstein e Bohr que a liberação da energia nuclear não passava de fantasia; Fermi, por sua vez, simplesmente se recusou, durante um bom tempo, a acreditar que havia descoberto a fissão atômica; e mesmo Leo Szilard, o homem que havia patenteado o conceito do reator nuclear antes da eclosão da II Guerra, num dado momento chegou a se convencer de que sua patente era inútil.

(Dado geek aleatório: Szilard, que era húngaro, viajou à Inglaterra pela primeira vez não como cientista, mas como editor, numa tentativa de adquirir os direitos da obra de H.G. Wells para o mercado centro-europeu.)

Estavam todos, é claro, errados. Exemplos assim geram bons momentos dramáticos, e costumam ser lembrados por gente que se vê (ou se imagina) lutando corajosamente contra a ortodoxia científica.

O outro lado da história, porém, é o de que foi a própria "ortodoxia científica" que acabou expondo os erros de seus luminares. E que, uma vez corrigidos, os luminares passaram a trabalhar alegremente com os novos fatos comprovados.

Enfim, o fato de uma ideia ser considerada idiota pelos principais cientistas de uma época não dá a seu autor o direito a reivindicar nenhum privilégio especial, além do de ter gerado uma ideia idiota.

Se o autor estiver certo e os principais cientistas, errados, é o próprio método científico -- o esforço conjunto da comunidade científica -- que vai se encarregar de demonstrar isso. Não existem, a despeito da ampla mitologia sobre gênios incompreendidos e mestres tapados, atalhos intuitivos para a verdade.

E não adianta bater no peito bradando que "Eles riram de Newton. Eles riram de Galileu. Eles riram de Einstein. Eles, agora, riem de mim". Parafraseando Carl Sagan, "eles" também riram de Carequinha e Piolim.

Comentários

  1. Na Psicologia isso também ocorre, as teorias mais "Pop" veem rindo do Behaviorismo de Skinner a bastante tempo, mas experimento a experimento, aplicação a aplicação elas tão tendo que engolir, e muitas tem usado o behaviorismo descaradamente rebatizando os termos e dizendo que foram elas que criaram...

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  2. O Comportamento é função de suas consequencias (que almentam ou diminuem sua probabilidade de ocorrer) e de antecedentes (o contexto em que elas ocorrem).

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  3. Concordo que os exemplos de supostos erros de cientistas e pensadores renomados que posteriormente se mostraram acertos não devam ser usados por qualquer um cujas ideias venham sendo postas em descrédito hoje. Mas continuam muito válidos como lição de humildade e de "audição ativa": Pra quem sabe ouvir, todo mundo é um mestre!

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  4. Temos que tomar cuidado com isso. Muitas vezes nós rimos de teorias novas, ridicularizando-as. Mas temos que levar em conta que em muitas dessas situações, as idéias em questão são realmente ridículas e sem lógica. O fenômeno descrito no texto só pode ser descrito e analisado futuramente. Não dá pra, no momento em que uma idéia surge, ficar elucubrando se é pertinente ou não, se ela um dia vai ser confirmada ou não...Nesse caso, o melhor é fazer é viver o momento e se basear nos saberes que estão em vigor, mas sempre deixando uma porta aberta na mente para analisar novas idéias e esperar por novas evidências.

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