Mais um avanço médico para o Vaticano dar palpite...

Sou só eu que acho a maioria das questões bioéticas envolvendo óvulos e embriões são, na verdade, não-questões, que só chamam atenção porque a mídia insiste em dar voz a uma intensa claque obscurantista, descendente ideológica do mesmo pessoal que, no século XIX, era contra o uso de anestesia no parto, porque no livro do Gênese fica claro que Deus faz questão que as mulheres sofram ao dar à luz (Gn 3:16)?

A dúvida me ocorre diante deste despacho da agência Reuters, dando conta de que médicos britânicos aperfeiçoaram uma técnica que permite transferir o núcleo de um óvulo humano fecundado para outro óvulo, do qual todo o material nuclear foi previamente extirpado.

A técnica permite usar fertilização in vitro para evitar doenças transmitidas pelo DNA mitocondiral. Que, como o nome diz, existe fora do núcleo celular, nas mitocôndrias.

Para além das questões éticas envolvidas em qualquer tipo de nova intervenção médica -- é seguro? os benefícios superam os riscos? -- o procedimento criado pelos britânicos pode fazer acender luzes de alerta na cabeça da turma que adora ver distopias biotecnológicas a cada esquina por, pelo menos, dois motivos.

O primeiro é que crianças geradas de acordo com essa nova técnica terão três pais biológicos: os doadores do DNA nuclear e a doadora do DNA mitocondrial. Aposto minha camiseta do Chuck Norris que isso ainda vai virar novela de Glória Perez, tipo Tarcísio Meira descobre que a Deborah Secco é a doadora do óvulo onde foi implantado o núcleo do embrião que ele gerou com a Vera Fischer.

(Vera Fischer não está mais em idade fértil? bolas, desde quando esse tipo de detalhe deteve a Glória Perez?)

O segundo é que a técnica de transferência nuclear é "filhote" da usada para criar Dolly, a ovelha clonada, em 1996. O fato de esse procedimento estar pronto para ser usado em embriões humanos sugere que a clonagem humana é uma possibilidade técnica cada vez mais próxima. E clonagem humana é, claro, a porta do apocalipse; o pesadelo final. Meninos do Brasil e etc. e tal.

E eu realmente me pergunto por quê. Um clone humano seria apenas mais uma pessoa, com direitos e deveres iguais aos das outras pessoas.

A maioria das distopias envolvendo clonagem partem do princípio de que haveria algum tipo de desumanização social dos clones. Mas o problema, então, não está na tecnologia biológica ou em seu emprego -- e, sim, no comportamento da sociedade em relação a ambos.

Comentários

  1. A questão é de direito de sucessão. A doadora das mitocôndrias tem obrigação alimentar para com a criança gerada e terá direito alimentar quando esta se tornar adulta?

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Suponho que a doação da mitocôndria seja como uma doação de órgãos (organelas, no caso...). Mas é claro que sempre podemos contar com advogados e o Judiciário para complicar a questão!

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  3. Muito bom o teu questionamento e concordo com teu ponto de vista. Porém o que me saltou aos olhos foi o assunto do final do post, sobre clones. Realmente, a clonagem humana não tem exatamente nada de especial, pois sentimentos/comportamentos/pensamentos não são genéticamente transmitidos. Um clone, apesar de ser uma cópia física de outro ser vivo, passa a ser um novo indivíduo, único em suas ações e sentimentos. Como psicólogo comportamental, vejo o ser humano como basicamente um ser em relação: a esmagadora maioria dos comportamentos humanos só surge e se mantem a partir do aprendizado com o ambiente e a sociedade. Parece-me que boa parte da confusão sobre clonagem humana deriva da idéia biologicizada (existe essa palavra?) do ser humano, controlado totalmente por seu histórico genético.

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  4. É o velho dualismo mente-corpo que cai nessa hora.
    Será que o Clone teria uma "Alma"?
    Ou seria apenas um Homunculo?

    A Metafisica das bobagens ainda tem poder de escolha em nossa sociedade burra.

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  5. Olá, blogueiro (a),

    Salvar vidas por meio da palavra. Isso é possível.

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    Atenciosamente,

    Ministério da Saúde
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  6. Cara, a gente se mata porque o outro é negro, porque o outro é gay, porque o outro torce para um time que não é o nosso; imagine se o que nos diferenciasse fosse justamente o método como fomos gerados, a nossa "origem/raíz" (http://www.amalgama.blog.br/03/2011/realmente-precisamos-de-raizes/)?
    O Homem resiste ao que lhe é estranho desde que o mundo é mundo, tá nas nossas raízes; se não há como cortar esse vício de vez, porém, há de existir, ao menos, alguém que entenda que ele é errado.
    Excelente post.

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