O sofrimento dignifica?

É bem possível que um dos memes mais difundidos do planeta -- aparecendo, de uma forma ou de outra, em todas as culturas, seja por meio de dolorosos ritos de iniciação à vida adulta, ou  na valorização do martírio -- seja o de que a dor e o sofrimento são, no fim e ao cabo, bons. Que o sofrimento dignifica o sofredor.

Que o castigo edifica o caráter, fortalece o espírito, engrandece, enfim, a vida. A concordância em torno desse ponto é tão grande que nele até o pensamento de Nietzsche ("O que não nos mata nos torna mais fortes") e o ethos católico ("a gestação do feto anencéfalo dignifica a mãe", nas palavras de um arcebispo) parecem convergir.

Desconfio até de que muito do desprezo com que costuma ser visto o princípio da ética utilitarista, pelo qual o importante é maximizar o prazer e minimizar a dor, deriva mais do temor de que "minimizar a dor" nos reduza todos a um bando de bundões invertebrados do que do receio de que "maximizar o prazer" converta o mundo numa Sodoma embriagada.

Essa admiração atávica pelo sofrimento não deixa de ser curiosa, porém. Afinal, tudo indica que a evolução nos fez capazes de sofrer exatamente porque a dor é aversiva: comportamentos que causam dor nos animais são comportamentos danosos. Ao fazer o animal sofrer, o comportamento passa a ser evitado, e com isso os animais capazes de sofrer vivem mais e têm mais filhos. Faz sentido, então, que a dor seja respeitada. Mas, admirada? Valorizada? Por quê?

A ideia de que a dor, de alguma forma, edifica ou enobrece me parece ter três fontes principais: a primeira é a constatação de que o sofrimento prepara para o sofrimento. É importante, por exemplo, que as crianças aprendam a lidar com a frustração, se esperamos que se tornem adultos funcionais. A dor funciona como uma espécie de vacina moral. Mas, se analisarmos com cuidado esse caso, veremos que usá-lo para considerar que o sofrimento, em geral, é, "no fundo", bom faz tanto sentido quanto achar que um vírus é bom porque, sem ele, não teríamos uma vacina para evitar a doença que ele mesmo causa!

Se dores pequenas nos preparam para os grandes malogros, isso não muda o fato de que, idealmente, o melhor seria que não houvesse dores ou malogros -- da mesma forma que a eficácia das vacinas não torna a existência das doenças infecciosas desejável.

A segunda fonte é o fato de que, como costuma acontecer com os produtos da evolução, nossa capacidade de sofrer e de sentir dor não é perfeitamente ajustada ao fim a que serve, mas é apenas boa o suficiente. Se a dor que sentimos ao tocar uma chama acesa é compreensível em sua funcionalidade -- fazendo-nos recolher a mão rapidamente, e ensinando-nos a não encostar mais no fogo no futuro -- a dor de um paciente terminal de câncer, ou o sofrimento psicológico prolongado após a morte de um ente querido, por exemplo, são mais difíceis de enquadrar num esquema teleológico, onde tudo que se dá destina-se a um determinado fim.

Acontece, porém, que quando alguma coisa ocorre sem razão aparente, seres humanos tendem a inventar uma razão para ela. Assim nascem os mitos, e entre eles, o mito de que toda dor "é para o seu próprio bem", que ganha reforço da ideia, ainda extremamente popular, de que o Universo é regido por uma consciência benevolente. Então: se o mundo é bom e se eu sofro, conclui-se que é bom que eu sofra.

Em linhas gerais, numa curiosa inversão da máxima machista de que "O homem não sabe por que bate, mas a mulher sabe por que apanha", o ser humano não sabe por que apanha, mas o Universo sabe por que está batendo -- e o motivo é sempre o melhor possível. Mesmo que o sofrimento seja atribuído a demônios, na maioria das mitologias populares da atualidade eles só agem com autorização do poder benevolente maior.

 Se esse enquadramento da questão muitas vezes consola e, até, acalma, ele também dá margem a muita perversidade.

Das torturas da Inquisição, passando por toda uma gama de tratamentos "médicos" tóxicos e repugnantes e pela relutância de certos hospitais religiosos, no século 19, em adotar o parto sob anestesia (afinal, o próprio Deus havia decretado: "Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos"), a ideia de que a dor "é merecida" ou "para o seu próprio bem" provavelmente foi a que mais justificou crueldades em toda a história humana.

Este é, no entanto, um preço que muitas pessoas estão dispostas a pagar para fugir das conclusões alternativas: a de que o Universo é deliberadamente cruel, ou a de que o Universo não está nem aí.

A terceira fonte é a constatação de que a capacidade de suportar dor é um sinal de força e um agregador de status. A dor, nesse caso, é valorizada como um elemento de teste, uma peneira, aquilo que "separa os homens dos meninos". Grupos -- de gangues juvenis a sociedades inteiras -- valorizam a dor como sacrifício, como prova de até onde uma pessoa está disposta a ir pela coletividade a que pertence.

Pela dor o indivíduo se eleva acima do grupo e, se o sofrimento é entendido como um sacrifício em nome da coletividade, o sofredor conquista, pelo princípio da reciprocidade, a prerrogativa de exigir que o grupo realize certos sacrifícios (no limite, honras póstumas) em seu benefício. Essa é a dor dos mártires e dos heróis, a dor que, em tese, "dignifica".

No entanto, é preciso notar que a dignidade que vem do sacrifício não é um valor absoluto. Depende, crucialmente, dos códigos do grupo e da ética pessoal: a morte do homem-bomba pode ser uma fonte de honra aos olhos de seus correligionários, mas não passa de um crime obsceno aos olhos do mundo.

E também que a dignidade, por relativa que seja, não reside no sofrimento em si, e sim na disposição voluntária de enfrentá-lo. A própria tradição cristã reconhece isso: do suor de sangue no Jardim de Getsêmani às vidas de santos que preferiram a tortura e a morte à apostasia, a ênfase está na escolha livre e informada.

Só isso já permite pôr de lado, como uma estupenda arrogância (quando não, puro sadismo), a pretensão de se ditar quais, a priori, são os sofrimentos "dignificantes" e, ainda mais, de usar o argumento da "dignificação" para impor comportamentos em lei. Quem sofre porque a lei não lhe dá escolha além de sofrer não é herói. É vítima.

Comentários

  1. Não dignifica nem desmoraliza. O sofrimento, em muitos casos, apenas é inevitável.

    ResponderExcluir
  2. A VIDA é sofrimento constatou o Bhuda

    ResponderExcluir
  3. Não consigo deixar de pensar no primeiro capítulo de Duna, de Frank Herbert, onde a reverenda madre da Bene Gesserit aplica um "teste de dor" a Paul Atreides, filho do duque, sob ameaça de uma agulha envenenada que, ao menor sinal "errado", a reverenda madre aplicaria ao garoto, matando-o em pouco tempo. E ela diz, nesse momento, que a dor, provocada por indução nos terminais nervosos da mão, era "o eixo do teste" que permitiria à Bene Gesserit observar a pessoa e determinar se a mesma era humana ou não. Mais um uso prático da dor...

    ResponderExcluir
  4. Acho que o problema de se pensar em um mundo sem vírus, ou sem malogros e dores, os exemplos citados em certas partes do texto, é que esses mundos são meio que improváveis, para não dizer que não acontecem ;)

    Mas é uma postagem interessante. Sofrer por sofrer não me parece mesmo uma boa ideia.

    ResponderExcluir
  5. "Quem sofre porque a lei não lhe dá escolha além de sofrer não é herói. É vítima." Perfeito!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência