A verdadeira semana gloriosa

O mês de abril realmente comporta uma semana que deveria ser celebrada, com grande alegria (e alguma solenidade), por todos nós, como um memorial das mais altas esperanças e realizações de nossa espécie. Não se trata, no entanto, da assim chamada "semana santa" dos católicos: refiro-me ao período que inclui os dias 12 e 14, aniversários, respectivamente, da primeira viagem espacial e da primeira exibição pública de um telescópio astronômico.

O primeiro aniversário foi amplamente comentado na mídia: em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin partiu para se tornar o primeiro homem a completar uma órbita do planeta Terra, a bordo de uma nave esférica que era pouco mais que uma versão atualizada da bala de canhão imaginada por Jules Verne no século anterior. A Vostok 1 era até mesmo incapaz de pousar em segurança -- Gararin lançou-se ao solo de paraquedas.

É um comentário sarcástico sobre o estado atual da exploração espacial notar que o apogeu -- o ponto mais alto -- da órbita de Gagarin foi de 327 km. Hoje, a Estação Espacial Internacional orbita a Terra a 350 km, em média. Depois de 50 anos, ganhamos menos de 25 km.

(Não ajuda muito saber que a maior distância da Terra já atingida por seres humanos, da ordem de 400.000 km, foi alcançada pela tripulação da Apollo 13 -- isto é, o recorde só aconteceu por conta de um trágico acidente.)

O segundo aniversário passou de forma mais modesta, então cabe alguma explicação: na noite de 14 de abril de 1611, Galileu Galilei realizou o que poderíamos chamar de a primeira "star party" da história: num vinhedo sobre a cidade de Roma, ele ofereceu o uso do telescópio astronômico ao público -- no caso, um público seleto, composto por nobres e clérigos.

Eu realmente não saberia dizer por qual desses dois privilégios venderia, digamos, uma ou duas décadas de minha vida: ser o primeiro homem no espaço ou estar entre os primeiros a olhar por um telescópio -- e sob a orientação pessoal de Gailleu!

Curiosamente, se o voo de Gagarin é, sem dúvida, o ponto inicial da exploração tripulada do espaço, a "star party" de Roma pode muito bem ser vista como o ponto inicial da exploração espacial por instrumentos. E se, cinquenta anos depois de Gagarin, os avanços na frente aberta por ele são pífios, 400 anos mais tarde a senda de Galileu revela-se de uma fertilidade que desafia a imaginação: temos sondas chegando aos limites do Sistema Solar; telescópios orbitais fotografam as primeiras estrelas a surgir após o Big Bang; durante o século XX, instrumentos ópticos cada vez mais precisos permitiram confirmar a Teoria da Relatividade, constatar a expansão do Universo e provar que a Via Láctea é apenas uma galáxia dentre incontáveis outras.


O sucesso estrondoso da exploração por instrumentos é, de fato, apontado como um argumento contra os programas tripulados. Numa escala de dólar por bit -- o custo monetário de cada unidade de informação científica gerada -- telescópios e robôs batem os astronautas facilmente.

O fato, no entanto, é que a comparação não é adequada. O objetivo primário de um programa espacial tripulado não é fazer ciência; é expandir a presença humana no universo. A ciência vem a reboque, da mesma forma que os naturalistas chegaram ao Novo Mundo a reboque dos marinheiros e colonos.

No caso do espaço, as duas finalidades -- pesquisa e expansão -- acabam se confundindo porque, por um acidente histórico, são empreendidas pelas mesmas agências, e disputam os mesmos recursos. Essa disputa, por sua vez, leva ao questionamento de para que serve a expansão, afinal. Ela não estaria consumindo recursos que seriam melhor aplicados em outras áreas?

Eu diria que existem duas respostas a essa pergunta. A primeira é moral, estética ou (para quem preferir) espiritual: a expansão humana pelo espaço serve à mesma função que o teatro, a poesia, os esportes: produzir emoções, elevar perspectivas, oferecer desafios, dar uma via de expressão a faculdades que, de outra forma, acabariam dormentes ou, o que é pior, só encontrariam emprego em contextos deletérios, como o combate, a guerra, a satisfação da ganância desmedida.

A segunda resposta vem de uma citação de Tio Patinhas: "Compre terra. Não fabricam mais". Se existe alguma perspectiva de o tamanho da população  humana crescer com qualidade suficiente para, um dia, podermos contar com milhões de Einsteins, milhares de Beethovens, bilhões de Sagans e Asimovs, ela está além daqui. A Terra simplesmente não é capaz de sustentar o florescimento, físico e mental, de dezenas de bilhões de seres humanos civilizados -- entendendo-se "civilizado" como sendo alguém com acesso a tudo de melhor que nossa espécie já produziu. Simplesmente, não há matéria-prima que baste.

Então, celebremos dos dias 12 e 14 de abril. Como provas do que somos capazes de fazer -- e da escolha que se impõe, a nós e a nossos descendentes: rumo às estrelas... ou de volta às cavernas.

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